Real Quinta da Boa Vista

1. É possível viver uma vida no Rio, mesmo duas ou três, sem nunca vir à Quinta da Boa Vista. Da perspectiva das praias, é a franja da cidade, além dos túneis. Mas da perspectiva de seis milhões de cariocas, franja são as praias, cidade é aqui. E há 200 anos era não só o epicentro do Rio como o epicentro do Brasil.

 

2. Não sei porque nunca fiz isto antes. Entro no metro Largo do Machado, nem 15 minutos depois saio no metro São Cristovão. Dia nublado, o que só acentua a melancolia periférica, prédios de odivelas e caselas, emaranhados ferroviários, viadutos. Cheira a urina e sou quase a única branca. Basta atravessar o túnel e os cariocas ficam mais escuros, mais suados, a transbordar um pouco mais da roupa.

 

3. O verde da Quinta da Boa Vista vê-se logo à saída do metro. Portões abertos, como os de um parque público, mas deserto. Dia de semana deste lado do túnel não é como praia, que sempre tem gente desde que não chova muito. Nem praia, nem pão de açúcar nem corcovado: se há turistas, não vejo. Subo a alameda, carrinhos de pedais parados, relva com terra seca, bermas sujas. O oposto do Jardim Botânico ou do Parque Lage, clássicos do turismo carioca, onde tudo se mantém luxuriante e feérico. Duas mulatonas sentadas num banco, olhando em frente. Já somos três.

 

4. Encruzilhada a meio da subida: seta para o Museu Nacional adiante, Jardim Zoológico para a esquerda, Lago dos Pedalinhos para a direita. Adoro o nome pedalinhos, as “gaivotas” cariocas que às vezes são cisnes, como os da Lagoa Rodrigo de Freitas. Carioca marca encontro assim:

— Lá nos pedalinhos.

O zoo faz-me lembrar a favela da Mangueira, porque sempre que lá fui a referência era o zoo (chegando ao zoo, virar à esquerda). Quanto ao Museu Nacional, na minha cabeça é o lugar mítico onde trabalhava Gilberto Velho, onde trabalha Eduardo Viveiros de Castro, o templo da antropologia carioca.

 

5. Sigo o caminho do Museu Nacional, ou seja do ex-palácio real, subindo entre acácias-rubras em flor. É o Verão das acácias-rubras para mim, talvez porque seja o primeiro no Rio que passo longe das jabuticabeiras e pitangueiras do Cosme Velho. Da janela onde agora moro vejo uma copa de acácia-rubra esplêndida como estas, coroadas de vermelho, com aquelas asas alongadas do céu africano. O cimo desta colina podia ser Maputo. E para alcançar o palácio, um passeio tão detonado como se tivesse acontecido um terramoto, onde apenas avisto duas mulatas de chinelo e mão dada, mãe e filha.

 

6. Um varandim cor de mostarda, vasos cor de tijolo, uma estátua: “Homenagem dos amigos e admiradores do senhor Dom Pedro II, o magnânimo, por ocasião do primeiro centenário natalício de sua magestade.” Cá está ele, figura de cientista eminente, barbas oitocentistas, casaca pelos joelhos. Se tomarmos o seu ponto de vista, de costas para o palácio, veremos o topo de um arranha-céus em ruína, furando as árvores.

 

7. A fachada do palácio, ocre, tem um corpo central e dois laterais. Escadaria e chão de mosaico sujo, depois uma alameda de erva suja, com árvores assimétricas e uma segunda estátua: “À Imperatriz Leopoldina (1787-1826). O Brasil independente.” Por cima, revoada de pássaros negros. Demoro a perceber: são urubus.

 

8. O cartaz na porta principal anuncia a exposição “Conchas, corais, borboletas”. Três reais a entrada, menos que um café expresso. Passo um meteorito achado em Minas Gerais, subo degraus que rangem, vou dar a um painel com a história da casa, que atravessa toda a história do Brasil. Então em 1565, ao receberem estes terrenos como sesmaria, os jesuítas instalaram aqui engenhos e fazendas (a imagem no painel mostra escravos negros a carregarem coisas, enquanto os jesuítas dão ordens). Até que, em 1759, Pombal os expulsa, os bens vão para a Coroa e as terras são compradas em hasta pública por um comerciante de escravos chamado Elias António Lopes, que resolve fazer o seu casarão no cimo da colina. Eis senão quando, em 1808, arriba no Brasil a corte portuguesa que se enfiara à pressa numas naus para fugir a Napoleão. Logo D. João VI envia emissários pelas ruas do Rio, a confiscar moradas. Conta-se que onde iam pintando PR (Príncipe Regente) o povo atónito já lia Ponha-se na Rua, detalhes inesquecíveis na fraternal relação Portugal-Brasil. Antes que lhe acontecesse o mesmo, Elias cedeu o casarão à corte, na esperança de benefícios (foi condecorado Moço Fidalgo da Casa Real). Então D. João muda-se do Paço Imperial no centro da cidade (onde os cariocas hoje apanham barcos suburbanos) para estas terras de São Cristovão. Manda vir arquitectos, quer uma reforma inspirada no Palácio da Ajuda, nascem torreões, alas, escadarias, jardins, abrem-se caminhos, chega iluminação. E para que a corte não fique isolada, os cidadãos que para ali se mudem ficam isentos de impostos. Então o Rio de Janeiro cresce para Norte, para Oeste, direcções opostas ao que virá a ser a sua cara cartão-postal. Sucedendo ao pai, D. Pedro I casa com D. Leopoldina, vem a Independência do Brasil. Sucedendo ao pai, D. Pedro II casa com D. Teresa Cristina, vem a República. São 80 anos de Corte na Quinta da Boa Vista, então chamada Real Quinta da Boa Vista. E a primeira Assembleia do Brasil republicano funcionará aqui mesmo, no pátio. O gabinete de observação astronómica de D. Pedro II não sobrevive nesse pós-império. E em 1914 o palácio torna-se Museu Nacional.

 

 

9. Estranha justiça os aposentos do imperador estarem agora cheios de múmias pré-colombianas, urnas amazónicas, cestaria indígena, máscaras, mágicas, caveiras. Para ver o espólio dos monarcas, género móveis e pratas, é preciso ir a Petrópolis, ao antigo Palácio de Verão, para onde os baús foram levados. Mas parte do que a corte coleccionou ficou aqui, como os frescos de Pompeia com cavalos e dragões marinhos, retirados das paredes do Templo de Ísis. Estou sozinha em quase todas as salas, os meus passos ecoam na madeira negra e cor de mel, restam abóbodas de ouro nos tectos, flores de gesso coloniais, todos esses fantasmas. E olhando pelas janelas, através do véu que as cobre, fachadas descascadas, bancos de pedra em ruínas, lixo a um canto.

 

10. Saio pelo jardim, contornando o palácio, a ver se avisto as alas dos antropólogos, talvez o próprio Viveiros de Castro (que li atravessando a Amazônia e mudou para sempre a minha visão do Brasil). Mas a parte universitária está fechada para férias. Dezembro-Janeiro, férias grandes. No parque de estacionamento dormem gatos.

 

11. Descendo para o lago, operários montam andaimes numa clareira.

— É um espectáculo da Rede Globo. Gospel.

Ou seja, evangélicos.

Sentado a observar, um velho negro descasca uma manga. O cheiro chega até mim, maduro.

 

(Público, 12-1-2014)

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