#nãovaitercopa

1. Notícias da frente? Nas 12 cidades brasileiras que vão alojar a Copa do Mundo formaram-se Comitês Populares (www.portalpopulardacopa.org.br). Têm uma agenda: “Luta e Resistência, Remoções e Despejos, Trabalho e Precarização, Exceções e Ilegalidades, Discriminação e Segregação, Recursos Públicos para Interesses Privados, Criminalização e Repressão, Elitização e Mercantilização da Cidade, Autoritarismo e Processos Decisórios, Ameaças à Soberania.” Hashtag de guerra: #nãovaitercopa.

 

2. Antes mesmo que 2013 acabasse, o Comitê Popular de São Paulo organizou a I Copa Rebelde. O tatu Fuleco, mascote oficial da Copa do Mundo, virou mulher, de máscara e punho no ar, como os manifestantes que têm vindo a sair à rua desde Junho. Os jogos aconteceram na antiga rodoviária paulistana, um baldio. Cada jogador trazia comida e equipamento. As equipas incluíam os movimentos Sem Teto, Moradia Para Todos, Passe Livre, Marcha da Maconha, Guarani Yvyrupa. Debates a abrir, um rapper da Faixa de Gaza a fechar (será que o tiraram de Gaza a nado?). Entretanto, o Rio de Janeiro anuncia uma plenária do seu Comitê Popular para 7 de Janeiro pelo “direito à moradia, à cidade e à gestão democrática”.

 

3. “A moradia é a porta de acesso a outros direitos, como educação, saúde, cultura”, diz Juana Kweitel, da Conectas, uma das ONG’s que está a denunciar “demolições, despejos forçados, abusos policiais, remoções com aviso de 48 horas, indemnizações insuficientes e realojamentos em locais longínquos” nas 12 cidades da Copa. Segundo as contas destas ONG’s, cerca de 250 mil pessoas vão ser afectadas pelos despejos.

 

3. As 12 cidades são um estaleiro com prazos cada vez mais urgentes, como metade dos estádios entregue até fim de 2013. Já morreram sete operários em acidentes. As ONG’s falam em “alimentação irregular, falta de banheiros, salários atrasados e turno dobrado”.

 

4. A munição desta frente anti-Copa inclui pesquisas académicas. Por exemplo, dois estudos a defender que os benefícios da Copa foram sobrestimados pelo governo brasileiro com a intenção de “alimentar altas expectativas” (Marcelo Proni e Leonardo Silva, na Universidade de Campinas; Edson Domingues, Ademir Junior e Aline Magalhães, na Universidade de Minas Gerais). Brasília antecipou a criação de 720 mil empregos, a vinda de 600 mil turistas estrangeiros e impactos económicos de quase 150 bilhões de reais.

 

5. Há votações online para eleger a FIFA a pior organização do mundo. Não ajuda o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, aparecer a dizer que é mais fácil organizar a Copa em países de autoridade centralizada como a Rússia, e mais difícil em países com poderes municipais, estaduais e federais, como o Brasil. Uma mãozinha de ferro sempre foi mais rápida que a democracia.

 

6. A sede da Fifa é o Vaticano do futebol, escreveu o muito amado e recém-desaparecido Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira. A frente anti-Copa cita-o noutra frase: “Basta o amor pelo esporte para hipnotizar desavisados.” A frente anti-Copa não é anti-futebol, mal estaria. Copa Rebelde são duas palavras, está lá o futebol e está lá a resistência, porque só amor não dá.

 

7. A propósito de amor, no Facebook da frente (www.facebook.com/pages/Articulação-Nacional-dos-Comitês-Populares-da-Copa/219757011452914?ref=br_tf) há este manifesto: “Somos torcedores impedidos de ir ao estádio. Somos trabalhadores ambulantes impedidos de trabalhar. Somos moradores de favelas e ocupações ameaçados de perder nossas casas. Somos mulheres, somos crianças, sofremos exploração sexual. Somos pobres, pretos, periféricos, e somos exterminados na calada da noite por um Estado terrorista. Somos o povo da rua, somos usuários de drogas, somos trabalhadoras do sexo expulsos do centro da cidade, somos internados em manicômios, somos presos. Somos trabalhadores da construção civil, somos explorados e precarizados no nosso trabalho. Somos cidadãos cujos impostos são desviados do orçamento público para o benefício particular de uns poucos. Somos jogadores e jogadoras de futebol e nossos campos de várzea foram tomados. Somos amantes do futebol. Somos 99%. Copa pra quem?” A rua vai dizer.

 

8. E aos pés dos turistas, dos jogadores, dos caçadores de dotes em geral, o refrão de 2013 promete levantar a praia sob o asfalto, máscara na cara, punho no ar, soprando um ano novo: hu-hu-hu-hu-hu-hu…

 

(Público, 5-2-2014)

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