O corpo é a cara do Rio

1. No centro da Cinelândia, a praça mais nobre do Rio de Janeiro, tem um orelhão. Já ninguém usa orelhão para ligar? Mentira. Soninha Katatau aguarda ligação, olhem lá a foto com o número dela, aliás ele, aliás ela, em cima ela, em baixo ele, porque Soninha é um daqueles sucessos cariocas de pau com peito, tão carioca que nem faz topless: pau género foguetão, cem por cento exposto, peito coberto, como manda a lei do Rio de Janeiro. Por acaso a lei é brasileira, mas não há como o carioca para a cumprir. Em nenhuma cidade do mundo o corpo é tão a cara da cidade: uma em cima, outra em baixo, uma atrás, outra à frente.

 

2. Toda a menina do Rio, seja homem, seja mulher, patricinha de Ipanema ou morena de Bangu, trabalha para ter um bumbum à dura altura da expectativa. O cartão-postal do Rio de Janeiro é um bumbum aos pés do Cristo, idealmente fio-dental. O Cristo nem pisca, nem fecha os braços. Mas experimenta a menina botar um peito de fora: vem a polícia.

 

3. A polícia veio, por exemplo, cobrir a actriz Cristina Flores, 37 anos, no mês passado, quando ela estava na praia a divulgar a peça “Cosmocartas”, sobre a correspondência entre Lygia Clark e Hélio Oiticica. Nessa performance, Cristina ficou em topless, e certamente antes que o Cristo caísse do Corcovado a polícia veio correndo. Lygia Clark e Hélio Oiticica caíriam do céu ao ver aquilo em que o Rio de Janeiro não se tornou.

 

4. Não é metáfora, é Código Penal de 1940, 1940, 1940. Carioca é estuprada em ônibus, engravida em criança, é presa por abortar, e se não for gostosa é desleixada e se for estuprada é porque era gostosa. Mas obsceno é ela botar o peitinho de fora, eita. Pedindo, no mínimo, para ser estuprada.

 

5. Seja homem, seja mulher, fêmea existe para servir o mito do macho hetero carioca. Foi um amigo gay que me fez entrar no orelhão de Soninha Katatau e ficámos ali numa irmandade, os dois preferindo homens mesmo. Soninha é mais fantasia de macho hetero, não?

 

6. Ah, o macho hetero carioca, herdeiro vivo de tanta canção (O maior castigo que eu te dou
/ é não te bater
/ pois sei que gostas de apanhar, Noel Rosa). Foi vê-lo, esse ixpérrrto, esse pilantra, no primeiro dia de Verão, 21 de Dezembro, batendo no peito do vendedor ambulante, do guarda municipal, do voyeur em geral. Duas produtoras teatrais, Ana Rios e Bruna Oliveira, tinham decidido organizar um “toplessaço” numa esquina de Ipanema. Oito mil mulheres confirmaram presença no Facebook. À hora marcada umas quatro, talvez seis, ousaram tirar a parte de cima do biquini, tal era a roda de baixaria em volta, gritando “tira, tira, tira”. Os voyeurs de câmara em riste, o guarda municipal comentando “vai ficar linda”, o vendedor ambulante apregoando “o mate do peitinho gelado”.

 

7. No dia seguinte, o jornal “Globo” não duvidou em fazer capa com o fracasso: uma garota em topless e uma roda de câmaras. Na véspera acontecera a primeira grande manifestação contra um anunciado aumento de ônibus no Rio de Janeiro. Estive lá, desci a avenida Rio Branco parada pelos manifestantes. A Rio Branco é a avenida mais nobre do Rio de Janeiro. Antes da Cinelândia, onde a polícia de choque os esperava, eles desviaram para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, ocuparam a escadaria. Várias ruas ocupadas pelo meio. No dia seguinte havia uma foto-legenda perdida numa página interior do “Globo” a dizer que 500 pessoas se tinham manifestado. Já o fracasso do “toplessaço” dava capa. Oba para a cidade maravilhosa, pão e circo.

 

8. A ideia do toplessaço nasceu na Marcha das Vadias que aconteceu em Copacabana a 27 de Julho, quando o Papa estava na cidade. Lembro-me de os fiéis levantarem crucifixos à passagem dos peitos nus. Era uma marcha de guerra, cheia de cartazes e hinos sexuais. O corpo tem sido uma arma nas ruas do Brasil desde Junho, sobretudo no Rio de Janeiro, centro do levantamento geral. Levou da polícia com bastão, gás lacrimogéno, spray de pimenta, e no dia seguinte voltou, com desenhos à frente, palavras nas costas, ou vice-versa, beijaços gay, toplessaços. Em nenhuma cidade do mundo a guerra é tão sexual, não porque o Rio de Janeiro seja a cidade mais sexualmente aberta do mundo, mas por ser a cidade em que o corpo é mais as muitas caras da cidade. Então, se o quebra-quebra das manifestações é anti-capitalista também quebra esse capital que o Rio vende ao mundo na praia e no carnaval, o corpo da fêmea que promete a todos mas só dá ao dono. Por lei, a derradeira marca do biquini é dele.

 

(Público, 29-12-2013)

6 comentários a O corpo é a cara do Rio

  1. Só a imagem que «ilustra» o texto impresso na Revista 2 diz [quase] tudo a respeito de um certo Brasil!
    Grande Ano de Crónicas do Atlântico-sul, Alexandra Lucas Coelho!
    Que venham mais.
    Parabéns pelo prémio da APE!
    Bom Ano!

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  2. Adorei o artigo! Que venham outros!
    Sou de Fortaleza, Ceará. Moro em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, um mundo à parte. Uma coisa que sempre me impressionou aqui no Rio é como o corpo é vestido nas academias. Em Fortaleza sempre fiz ginástica de top, não somente eu, mas a maioria das mulheres das academias que frequentei, seja de dança ou ginástica. Aqui no Rio elas compram tops lindos, caríssimos, para ficar por baixo das camisetas. No início pensei que podia ser por causa do clima, mas veio o verão e nada mudou. Realmente isso é incrível: as bundas estão totalmente de fora na praia e as barriguinhas, mesmo as “saradas”, não podem ser mostradas dentro das salas de ginástica. Como são interessantes essas cariocas!

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    • Claro, isso é uma generalização. Obviamente, nem todas as cariocas são do mesmo jeito, e nem todas as cearenses. Foi apenas uma lembrança que me ocorreu, lendo o artigo, sobre os estranhamentos, as diferenças de costumes e relação com o corpo que percebi ao chegar ao Rio, sobre ser ou não ser liberal, onde e quando se pode ser. É isso.

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  3. se sobra corpo no rio, falta corpo em lisboa. uma revolução aqui que não passe pelo empoderamento do corpo não será de todo revolução. falta corpo em lisboa, falta mulher dona de si. uma vista d’olhos nos vagões do metro basta para verificar mulheres tão envergonhadas de si mesmas e curvadas que parecem querer não existir. quase toca fado, quando por algum motivo elas tem de abrir a boca para pedir licença. não é nunca licença o que se ouve é “ssssa”.

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