O passinho que veio do funk

1. Cartaz-farol aos pés da Rocinha, sábado à noite: “BAILE DO PASSINHO #todomundoapertaoplay 16 Nov/30 Nov/14 Dez”. Último baile, pois, e está difícil estacionar. Um moleque pede 20 reais (mais de seis euros):

— Nem pensar.

— É o que todo mundo tá cobrando

Pagamos 10. Nunca tinha pago para estacionar na Rocinha. Também nunca um apartamento na Rocinha valeu um quarto de milhão. Vale que a entrada do baile é grátis: segurança de terno-e-gravata, pulseira VIP para balcão-e-bar aberto, mas grátis na geral. E o que tem na geral, passando a cortina, são umas mil pessoas com a coluna de som dentro da caixa torácica. Daqui para a frente só escuta o corpo mesmo.

 

2. A primeira vez que ouvi falar do passinho foi na viragem de 2010 para 2011, já ele era o dono do morro. Quem falou foi o documentarista Emílio Domingos quando nos conhecemos em casa do Fred Coelho, meu curador-geral do Rio de Janeiro. O Emílio estava a trabalhar num documentário chamado “A Batalha do Passinho”. Um ano e meio depois encontrei o homem que fez do passinho essa batalha: Júlio Ludemir. Fomos apresentados por um amigo comum, Luiz Ruffato, num café-alfarrabista do Centro. O Júlio era um dos organizadores da FLUPP, a festa literária das favelas, o Ruffato ia participar numa das sessões, eles iam dali para o Complexo do Alemão e eu fui com eles. Teve festa de São João, o Júlio falou de mais do que uma revolução, mas só muito depois vim a saber desta: como ele (com o músico Rafael Nike) pegara no passinho para fazer um concurso, canalizando toda a energia do funk para a dança.

 

3. O período mais violento do funk foi aquela década em que meninos eram chacinados na Candelária, favelados eram chacinados em Vigário Geral e a violência da polícia ainda não doera no osso da classe média: anos 90. As favelas tinham virado a trincheira de todas as guerras: entre facções do tráfico, facções da polícia, polícia e traficantes. E o baile funk virou a psicanálise da favela. Arsenal de guerra, refrão de putaria, catarse.

 

4. Acossado na viela, patrocinado por cada facção, o baile funk atravessou a primeira década de 2000 até à nova estratégia de segurança do estado: a UPP, Unidade de Polícia Pacificadora. As primeiras UPP coincidem com a explosão no YouTube de um vídeo chamado “Passinho Foda” em 2008, desde então já visto por mais de quatro milhões. Que era aquilo, pés voando para um lado e para o outro, bunda rente ao chão mais rápida que sexual? Funk? Break? Capoeira? Samba? Frevo? “Também mímica, kuduro, ioga, contorcionismo, capoeira”, acrescentou Emílio Domingos, que vê o passinho como um ritmo “altamente antropofágico”, comendo tudo à velocidade máxima.

 

5. “O passinho é uma expressão estética genuína do moleque da periferia que cresceu dentro da ‘lan house’ [cibercafé], fuçando o mundo do outro lado da tela e que, em princípio, não estaria disponível para ele, mas de que ele se apossou”, disse Júlio numa entrevista, para explicar a Batalha do Passinho, e o que isso mudou na favela. “A Batalha leva os meninos para o centro e rompe a lógica do tráfico que fazia com que eles não pudessem ir à comunidade vizinha. A estratégia da Batalha é apostar na circulação na cidade, numa cidade de todo mundo, num projeto de pacificação que é, enfim, democrático.”

 

6. No dia seguinte ao baile da Rocinha, Júlio lançou o livro “101 Funks Que Você Tem Que Ouvir Antes de Morrer”, mais que uma história do funk, uma história alternativa das últimas décadas do Rio de Janeiro. Bastaria lembrar as letras mais descaradamente proibidonas (e não necessariamente machistas, como tudo o que saiu da boca, por exemplo, da MC Tati Quebra Barraco) para ver mais uma diferença entre funk e passinho. No passinho, tudo, incluindo a letra, se centra no dançarino. Emílio Domingos: “Antes eram populares a figura do MC, do DJ. Com o passinho, ganha um novo status a pessoa que está na pista. E o facto de estarem no meio do público faz com que as pessoas se identifiquem ainda mais com eles.”

 

7. Foi isso que rolou na quadra Acadêmicos da Rocinha, sábado à noite, último dos bailes do passinho. Mil pessoas, de repente abre uma pista à direita, outra à esquerda: um moleque saltou para o centro e desatou a voar, logo apareceu um holofote, outro moleque, e outro. O passinho forma e desenforma no meio da multidão tão rápido como veio. Sim, havia um palco, coisas acontecendo no palco, Show dos Bondes, Concurso Diva e Divo, Batalha dos Barbeiros, o grupo Dream Team do vídeo-viral “Todo Mundo Aperta o Play”, até lasers verdes lançados sobre as nossas cabeças. Mas viral, hipnótico mesmo, era o momento em que do nada eles brotavam no meio de nós. Podiam ser quatro garotos de músculos definidos até ao calcanhar, boné, bermuda, ténis, tatuagem, tronco nu, coreografia colectiva. Podiam ser meninas de shortinho, camiseta atada acima do umbigo, flexão de bumbum impossível em mulher branca. Podiam ser crianças, quase bebés, já trocando os pés, girando. E os melhores vivem disto, fazem show, turné, ficou um modo de vida, alguns ex-bandidos, alguns ex-evangélicos, tantos que não chegarão a passar por isso. O passinho não é só o pós funk, é o novo samba.

 

(Público, 22-12-2013)

Um comentário a O passinho que veio do funk

  1. Olá Alexandra, trabalhou num centro de pesquisa que está editando uma publicação que cita uma passagem desse blog e a editora que está trabalhando com a gente exige que tenhamos autorizações para citações com mais de 50 palavras. Gostaria de entrar em contato para saber se vc autoriza citarmos esse artigo do seu blog. Muito obrigado.

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