Odyr e a onda de Hokusai

1. De volta ao Rio, mudei-me para um quarto em Laranjeiras (que existiram mesmo neste vale, onde o rio Carioca corria ao ar livre e agora só corre água quando há dilúvio carioca, como agora). O melhor foi o primeiro correio ter o meu nome em parte desenhado (a parte animal). Uma manhã ia a sair, chamaram-me:

— Ah, chegou esse pacote pra você.

Um coelhinho sentado no destinatário. Então conheçam o Odyr: Odyr Bernardi, o mágico de Pelotas. Ele sabe como todos nós só recebemos contas.

 

2. Eu só sabia que me ia chegar “Copacabana”, uma BD do Odyr, quadrinhos como se diz aqui. Ele escrevera a perguntar se eu faria o prefácio da edição portuguesa, que vai sair na Polvo. Eu ainda nem lera o livro mas disse logo que sim porque era o Odyr. Conheci o Odyr em Janeiro quando fui a Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul, fazer um perfil de Angélica Freitas. A Angélica é a grande poeta brasileira da sua geração (em Junho estará em Lisboa, anotem) e, tal como o Odyr, voltou a Pelotas depois de umas voltas pelo mundo. Juntos, tinham acabado de publicar “Guadalupe”, uma trip mexicana em quadrinhos, palavras dela, desenhos dele. Mal cheguei a Pelotas fomos, pois, visitar Odyr, e como resumir? Ele era uma água-furtada, o confidente dos malditos, um budista sem zen e com apetite. Bebemos; no dia seguinte comemos e bebemos; ele parecia ter lido tudo, incluindo enciclopédias nunca publicadas. Ilustrou o perfil a meu pedido, desenhando uma Angélica com cabeça para um lado, pernas para outro (suspeito que até hoje não cobrou o pagamento ao PÚBLICO). Entretanto, já inventou mil folhetins, como um Fantomas de chapéu-de-coco, para alegria de todos os seus seguidores no Facebook. Eu sabia que ia receber por correio “Copacabana” mas não que dentro do meu pacote haveria outro pacote com um cubo colorido a dizer “miudezas” que lá dentro tinha: o desenho de um cavalheiro com um guarda-chuva; uma misteriosa cabeça pintada atrás de um papel vegetal; e um livrinho chamado “isso aqui agora”, sobre aquela angústia de entre as tantas coisas que nos cercam não sabermos qual fazer no momento seguinte e entretanto o momento passa. No meio de todas essas coisas, o Odyr ainda arranjou tempo para acolher, alimentar, fotografar, pintar e apresentar a todos nós um passarinho que o visitou. Só pelo Odyr já valia a pena as crianças terem Facebook. Mandei o passarinho do Odyr a uma delas em Lisboa, aliás ele, ornitólogo de nascença. Em troca, mandei ao Odyr a onda de um japonês que descobri com 200 anos de atraso num álbum achado há duas semanas na Feira da Ladra em Lisboa por um euro. E o Odyr respondeu:

— Ah, a onda perfeita. Assombrando os desenhistas desde sempre.

 

3. Hokusai conheceu a segunda metade do século XVIII e a primeira do século XIX. Uma longa vida de 89 anos, durante a qual fez 30 mil pinturas, ilustrou 500 livros e mudou 93 vezes de casa, o que faz dele o mais inquieto autor de “ukiyo-e”: pinturas do mundo flutuante, ou seja o momento que passa, das ruas de Tóquio (então Edo) às mil visões do Monte Fuji. O meu álbum só tem obras do Museu Nacional de Tóquio, não tão familiares na Europa, o que significa que não tem a célebre onda, e todas são da sua alta idade madura. “Tudo o que produzi antes dos 70 não é digno de atenção”, escreveu, aos 75. “Aos 75 aprendi um pouco sobre a estrutura da natureza, animais, plantas e árvores, pássaros, peixes e insectos. Quando tiver 80 terei feito algum progresso mais. Aos 90 hei-de penetrar no mistério das coisas. Aos 100, terei alcançado uma etapa maravilhosa, e quando completar 110 tudo o que faço — seja uma linha ou um ponto — estará vivo.” Há duas semanas eu nem sabia que Hokusai existira: presentaço.

 

4. Odyr não sabia o nome dele mas a onda, como não?

— É uma estilização perfeita, fria, cristalina, que retém todo o movimento orgânico. Tipo um sucesso em todos os fronts. Você entra no desenho pela onda, vai até o barco da direita e sobe a onda de novo, num movimento circular perfeito. O moto-contínuo.

Quase BD, quase quadrinhos há quase 200 anos. Como uma polaca que descobri nesta mesma semana com o Odyr, Aleksandra Waliszewska. Quando lhe ia a dizer que ela era uma sobrinha do Bosch ele, claro, já tinha dito isso.

— Aliás Bosch hoje em dia faria quadrinhos.

 

5. No dia seguinte, António Poppe (português, poeta, desenhador) escreve a dizer que está no Rio, por acaso numa esquina de Laranjeiras. Traz-me o “Livro da Luz”, que publicou há um ano na Documenta (um dos braços saídos da Assírio & Alvim). É uma colagem-poema-contínuo. Então a meio aparece-me o Monte Fuji. Falo-lhe no Hokusai, ele abre os olhos. Tinha o Hokusai na parede do quarto. Tem três cadernos do Hokusai. Não está certo de que o próprio nome Hokusai não esteja algures no palimpsesto do “Livro da Luz”. Sim, ele assombra os desenhistas desde sempre.

— É um cisne a desenhar, aquilo não tem erro.

 

6. Tudo nessa semana de dilúvio, chuva desabando na maravilha da Copa e da Olimpíada, gente em cima de autocarros, milhares de desalojados na Baixada Fluminense, mortos e desaparecidos, bebés em UCI’s sem luz, saques a camiões. Não há dúvida, somos um rio, rematou o meu amigo carioca mais mordaz. E quando lhe propus um mergulho:

— Na Praça da Bandeira?

Porque há gente a nado, lá.

 

(Público, 15-12-2013)

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