Uma tarde em Paquetá

1. Demorei três anos a chegar a Paquetá. Desde o primeiro Inverno carioca que ouço este nome, sempre à distância de uma barca: a ilha sem carros, um Éden parado (um pouco brega, um pouco farofa, na versão dos bacanas que não viajam de barca). Até que em Agosto o Daniel Blaufuks voltou ao Rio para lançar “Hoje é Sempre Ontem”, o livro de fotografias do Rio que acaba de sair também em Portugal. Por acaso não há nenhuma fotografia de Paquetá no livro mas quando enfim desembarquei em Paquetá tudo parecia saído de uma fotografia do Daniel.

 

2. Talvez ajudasse o facto de eu ter embarcado com o próprio Daniel. Eu e a Bárbara Bulhosa, nossa editora comum. Um trio de farofeiros sem farofa (aquela maravilha crocante que se deita por cima do feijão, com uma pimentinha). Sendo Inverno estava Verão, nuvens em castelo, transparente por cima. Atravessámos a Praça XV até à estação das barcas a discutir tamanhos de surdos. O surdo é o bombo das baterias de samba e eu estava em plena negociação de um surdo da Mangueira, nada menos, para carregar até Lisboa como presente de aniversário. Claro que o tamanho importava: 16, 18, 10, 22? E nisto embarcámos com o povo de Paquetá, sexta-feira à tarde, tipo barco para o Barreiro.

 

3. Os primeiros gringos chegaram pelo outro lado, vindos do mar alto. Eram franceses, em Dezembro de 1555, ainda nem o Rio de Janeiro tinha sido fundado. Claro que a ilha não estava deserta, viviam lá, como por toda esta costa, os índios tamoios, e é deles que o nome vem. Na língua indígena, paquetá significa “muitas pacas”, um daqueles mamíferos que a Europa desconhece (herbívoro, roedor, notívago, solitário, dizem os almanaques). Dez anos depois Estácio de Sá fundou o Rio de Janeiro, dividindo Paquetá em duas sesmarias que doou a oficiais seus. Já dentro do século XIX, quando D. João VI fugiu de Napoleão e se instalou no Rio, a corte tomou o gosto dos passeios à ilha. E, finalmente, foi em Paquetá que se exilou o Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva.

 

4. Tudo isto se vê em Paquetá, restos de corte misturados com anúncios toscos de barbeiro e acabamentos de periferia, muros de onde transbordam palmeiras que à tarde são sombras no saibro, caminhos de saibro porque a ilha não tem asfalto, tudo se move ao som de charretes, bicicletes, o trenzinho de dar a volta aos oito quilómetros quadrados, lojinhas que parecem o interior do interior do Brasil, vendas lá dos sertões com homens a cavalo, mas sempre à beira de avistar a Guanabara, pedras saídas da água como lombos de hipópotamo, e ao virar da esquina uma acácia-rubra.

 

5. Os brasileiros chamam-lhes flambloyants. Estão até na canção “Fim de semana em Paquetá”, de que há várias versões, mas nenhuma (que eu conheça) tão dançável como a de Wilson Simonal:

 

Agarradinhos, descuidados
ainda dormem os namorados
sob um céu de flamboyant
la la la la la la la la la la…

 

Recuando mais na banda sonora, temos o grande Orlando Silva, um dos heróis de João Gilberto, arrastando as sílabas à moda da época em “Luar de Paquetá”:

 

Neeeeessas noites olorosas

quando o marrrr desfeito em rosas

se desfolha à lua cheeeeeeia

 

Já Los Hermanos, mais juvenis que as próprias barbas, enredam-se em “Paquetá”:

 

É que eu já sei de cor
qual o quê dos quais
e poréns, dos afins, pense bem
ou não pense assim

 

E só saem de lá ao melhor estilo farofa romântica vintage:

 

Desse engodo eu vi luzir
de longe o teu farol
minha ilha perdida é aí
o meu pôr do sol.

 

6. Nessa tarde, o Inverno era de tal forma Verão que eu e a Bárbara corremos para a mangueira de uma autóctone a molhar os cabelos, com a alegria dos cães no calor. E foi assim, a pingar como cães peludos, que prestámos tributo à casa do Patriarca da Independência, debruçada sobre a Guanabara. Mas alguns passos adiante o tempo não parara o suficiente: no pó de um vidro alguém escrevera “Justin Bieber”.

 

7. O Daniel lembrava-se de um cemitério de pássaros, seguindo o contorno da ilha. Nem sabíamos que podia existir um cemitério de pássaros e no fresco da sombra lá estavam, pequenas campas com a tampa removível. Abri uma: vestígios de ossos tão finos que pareciam espinhas. Depois li que a tradição vem já do século XIX. As pessoas trazem o seu passarinho morto e deixam-no numa campa livre. Como os ossos dos passarinhos viram poeira num instante, há sempre espaço. Li que a isto se chama “alta rotatividade nos túmulos”.

 

8. Quando acabámos de dar a volta estava uma barca a partir. Sentámo-nos numa esplanada à espera de poder regressar. Oficialmente, Paquetá é um bairro do Rio de Janeiro, como Ipanema ou Cosme Velho, o mesmo prefeito, o mesmo prefixo de telefone, mas uma ilha é uma ilha é uma ilha. A propósito, o Daniel acrescentou à minha banda sonora, “Iara”, um cha-cha-cha da Orquestra Imperial sobre uma garota cubana que só gosta de ilha para namorar, e depois de correr a América Central leva os amantes para Paquetá.

 

(Público, 8-12-2013)

4 comentários a Uma tarde em Paquetá

Responder a Regina Linhares Cancelar resposta

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>