O Homem do Saco

1. Era uma inauguração cheia de casacos e bochechas vermelhas, amigos apertados no Inverno, vinho para aquecer. Descia-se ali por trás do Campo Mártires da Pátria, até onde a rua do Saco transbordava de gente. A rua deu nome à coisa: O Homem do Saco — Atelier de tipografia e edições. Faz agora um ano. Desde então, já lá vão 23 objectos artesanais (mais cinco a caminho), daqueles de sentir a letra com a ponta dos dedos.

 

2. Voltei lá este Outono, pouco antes de Lisboa se encher outra vez de casacos. O prédio na esquina tinha-se desmoronado como num bombardeamento, salas cortadas ao meio, restos a pender no abismo. Podia ser Beirute, naqueles bairros-bastiões do Hezbollah, depois da última guerra com Israel. Mas o sol aquecia a porta nº 42 da rua do Saco, sempre aberta quando lá está gente, e estavam lá, como quase todos os dias, a Mariana Pinto dos Santos e o Luís Henriques, dois dos nove fundadores da associação (que, além do Homem do Saco, inclui projectos editoriais como a Pianola, a Momo, a Vendaval, a Diário de um Ladrão e a 100 cabeças, feitos a meias ou individualmente). Sobretudo fazem livrinhos, mas também, cartazes, panfletos, revistas (a “Intervalo”), até discos (o “Elogio da Desordem”, da pianista Joana Sá).

 

3. Cada edição tem a sua forma, o seu tipo, a sua cor, a sua costura. Já houve livrinhos em forma de estrela, outros com harmónios dentro, cosidos à mão. Os materiais trazem ideias, chumbo, madeira, cartão ou papel. Um polvo pode nascer de tipos redondos, todo um bestiário. Uma colecção já nasceu de uma visita.

 

4. “As edições de um poema, ou texto curto com uma ilustração, começaram depois da visita de Alberto Casiraghi, um italiano conhecido como ‘padeiro dos livros’, pois faz uma fornada por dia”, conta Mariana. “Para isso, tem de os manter simples e em tiragens pequenas. Fizemos quatro livros juntos, depois ele foi embora e ficámos com textos que os autores tinham enviado para mais livros. Para acabar essa leva criámos então a chancela ‘Troppo inchiostro’, que significa ‘demasiada tinta — era o que o italiano nos gritava, admoestando-nos por não sermos tipógrafos perfeitos. Depois, continuámos a pedir poemas e textos curtos e agora já mudámos os formatos, o papel, a costura.”

 

5. Na noite da inauguração, há um ano, saíam da máquina páginas de Alfred Jarry (“Os Cinco Sentidos”). Foi a primeira edição inteiramente impressa no Homem do Saco, mas a família Homem do Saco, no seu ramo Pianola, já tinha feito um livro de capa dura chamado “Biblioteca dos Rapazes”, colagens e poemas de Rui Pires Cabral. Estava, pois, pronto a levar nessa noite inaugural em que também se ouviu Eric Satie tocado em piano de brincar. Levei-o comigo para o Brasil e li-o durante o Inverno tropical. Apetecia destacar as páginas, pô-las na parede. O Rui Pires Cabral é o poeta português da minha geração que li mais ao perto. A música dele também era a minha música. É difícil encontrar vários desses livros, publicados entre o fim dos anos 90 e os anos 2000, mas a “Biblioteca dos Rapazes” da Pianola ainda não esgotou.

 

6. O Homem do Saco tem o catálogo online, e vende online (http://sacoman.tumblr.com/). De resto, é tão lentamente manual quanto as mãos a ajudar, na composição, na impressão, no corte, no acabamento. E aceita encomendas de quem não tiver pressa: o disco de Joana Sá foi uma encomenda, cada exemplar feito à mão.

 

7. É trabalho de oficina, para sujar as mãos, cortar o dedo. Quem por lá passe, verá muito provavelmente Luís Henriques debruçado sobre uma máquina com tinta até aos braços, Mariana a aparar livrinhos com um x-acto. “Temos duas Minervas pequenas e uma grande, velhinhas”, diz ela. “E três cavaletes com tipos, mais algumas zincogravuras com motivos ou adornos tipográficos. E algumas caixas de tipos. E um prelo, que permite imprimir formatos maiores. E uma prensa de gravura.”

 

8. À hora de almoço faz-se um piquenique em cima da mesa de corte com quem esteja, poetas, ilustradores, tradutores amigos. Há cola, tinta, agulhas com linhas negras, tirinhas de papel-vegetal. O último livro a sair do prelo, chancela Pianola, chama-se “Carta a D. — História de um amor”, de André Gorz, tradução de Rui Caeiro. A citação na contracapa diz: “… gostava de poder dar-te tudo de mim durante o tempo que nos resta.” Na capa e contracapa dança o mesmo par de chumbo que já andou à volta do livro em forma de estrela.

 

(Público, 1-12-2013)

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