Ponta Grossa

1. Passei o último fim de semana em Ponta Grossa. No começo de Abril recebera um convite para o Festival Literário Internacional dos Campos Gerais, algures no interior do Paraná. Só na véspera de partir percebi que esse algures era a cidade de Ponta Grossa, a uma hora e meia de Curitiba, direcção Foz do Iguaçu. Nunca tinha ouvido falar de Ponta Grossa, mas há centenas de lugares assim no Brasil: cidadezinhas no interior que ficaram maiores que grandes cidades portuguesas. Ponta Grossa (303 mil habitantes) tem mais gente que o Porto (238 mil) e desde o ano passado faz o seu próprio festival literário internacional.

 

2. Daqui a um mês, o Brasil será tema da Feira do Livro de Frankfurt, a maior do mundo. Serão lançados 260 livros relacionados com o país, entre os quais 117 de literatura traduzida para alemão através de um fundo especial. Prevêem-se 500 acontecimentos a propósito do homenageado e a comitiva de autores soma 70 nomes. Não é a primeira vez que o Brasil é destaque em Frankfurt, aconteceu em 1994. Mas há 19 anos ninguém diria que no Brasil toda a Ponta Grossa teria o seu festival. O Brasil que vai a Frankfurt fez dos livros uma ofensiva internacional e doméstica: em 2012, o Ministério da Cultura apoiou com oito milhões de reais cerca de 200 feiras, festas, festivais ou outro tipo de encontros literários pelo país, organizados por prefeituras ou estados. Imagino que em 2013 o número seja maior. Cada município quer a sua FLIP. É um sinal de desenvolvimento, como estradas, e carros.

 

3. — Agora é três carros por família no Brasil — disse seu Altair, o motorista da prefeitura de Ponta Grossa, que me foi buscar ao aeroporto de Curitiba.

Seu Altair é um funcionário escrupuloso. Ao volante do carro oficial faz, por exemplo, questão de ouvir o programa de rádio do prefeito, que aliás tem mais do que uma rádio, para poder transmitir tudo o que faz, segundo seu Altair.

— Aqui é tudo transparente.

E ao fim de cinco minutos de conversa na nossa língua-mãe seu Altair pergunta:

— E você é o quê? Americana?

 

4. Pergunto a seu Altair se está a falar a sério: está. Digo-lhe que sou portuguesa.

— Ahhhhhh….

Pergunto-lhe se sou a primeira pessoa portuguesa que ele encontra: sou. Ponta Grossa tem três carros por família e um festival literário internacional mas seu Altair nunca ouvira sotaque português na vida. Como as crianças que encontrei nos barcos da Amazônia simplesmente concluiu que se aquilo que eu falava soava um pouco diferente devia ser “americano”.

 

5. “Milagres: tecidos e confeções, Ponta Grossa”; “Guinchos leves e pesados, Ponta Grossa”; “Rodízio de carnes, Ponta Grossa”. Isto é a entrada em Ponta Grossa. Nunca estranhei uma cidade chamar-se Ponta Delgada, coisa com que já se nasce. Para quem nasce em Ponta Grossa há-de ser assim, mas não há forasteiro que não pergunte de onde vem o nome.

 

6. Meu anfitrião, o gentil Cirilo Barbisan tem várias versões, animais e vegetais, para o nome Ponta Grossa. Seria das manadas de gado quando a cabeça ficava encorpada, seria de uns montes de vegetação. No século XIX o Paraná era uma floresta. Foi-se tudo no desenvolvimento: fazendeiros paulistas, beneditinos e jesuítas, espanhóis a caminho do Paraguai, caminho de ferro entre São Paulo e o Rio Grande do Sul. Ponta Grossa era passagem, e ter estação de comboio ajudou indústrias familiares como a Wagner. Muitos nomes no Paraná são assim, alemães, russos, polacos. E o comboio trouxe ainda Getúlio Vargas em 1930, logo depois da revolução que o levou ao poder, 15 anos de ditadura, como se pode ver nas paredes do Hotel Planalto, entre fotografias da Guarany Jazz Band e um dos rapazes Wagner junto à sua Harley Davidson.

 

7. A primeira pessoa que vejo ao desembarcar no átrio do Hotel Planalto é o Gonçalo M. Tavares, que falou na véspera no festival. Este ano, a cota internacional é cem por cento portuguesa, ele e eu. Ele vem a sair do elevador. Por cima do elevador estão relógios com horas de várias partes do mundo. Da esquerda para a direita: Tóquio, Londres, Ponta Grossa, Nova Iorque, Jerusalém.

 

8. Domingo à tarde, calor de Verão, ruas desertas. Todos os pontagrossenses parecem estar no shopping a fazer fila para o Bob’s, rival brasileiro do McDonald’s. As avenidas lembram cidades americanas de província, a arquitectura lembra a Damaia.

 

9. Mas ao fim da tarde, em Ponta Grossa, a feira do livro, que coincide com o festival internacional, que coincide com o congresso de educação, está tão cheia como o shopping. Há comes e bebes, artesanato, uma biblioteca novinha em folha. Estudantes de jornalismo oferecem-me um exemplar do jornal “Foca Livre”. Em gíria brasileira “foca” é jovem repórter. Focas para o futuro, em papel e tudo.

 

10. Depois, perante a plateia, Afeganistão 10, México 0. Toda a gente tem sempre perguntas sobre o Afeganistão, mas no Brasil ninguém parece ter perguntas sobre o México. Demasiado perto, demasiado longe.

 

11. Na manhã seguinte, só o trânsito dentro de Curitiba leva-nos quase tanto tempo como o trânsito de Ponta Grossa a Curitiba. São os tais três carros por família. E a cidade modelo? Por esta hora, talvez o octogenário Dalton Trevisan esteja a sair de casa para descer a rua até à livraria do costume, uma resistente entre as cadeias de livrarias onde os vampiros de sucesso são todos adolescentes.

 

(Público, 15-9-2013)

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