Somos todos médicos cubanos

1. Médicos a gritarem para outros médicos: “Es-cra-vos! Es-cra-vos!” Um corredor de insultos, vaias, empurrões. Aconteceu em Fortaleza, capital do Ceará, agora, durante a chegada de médicos cubanos. Um daqueles momentos que concentra o pior do Brasil, xenofobia, arrogância, ignorância, envergonhando milhões de brasileiros. Aquela expressão: vergonha alheia.

 

2. Nas manifestações de Junho, uma das exigências na rua foi “Mais Médicos!” Diariamente, há gente abandonada nos hospitais públicos brasileiros. Morrem crianças com balas no corpo enquanto esperavam, o cirurgião não apareceu, está de greve, está demissionário, diz que avisou, ninguém sabia. As pessoas têm medo do serviço público mas continuam a fazer fila porque os médicos privados custam fortunas. E isto é no centro do Rio de Janeiro, de São Paulo, porque no interior o Brasil tem 701 municípios sem nenhum médico residente. Então o governo federal monta um programa chamado Mais Médicos para levar médicos a esses municípios. Nenhum médico brasileiro se inscreve, chamam-se médicos de fora, até portugueses, mas sobretudo cubanos: 4000. E quando esses médicos cubanos começam a chegar, os médicos brasileiros que não quiseram ir para os confins onde eles agora vão trabalhar formam uma manifestação para os insultarem. Os vídeos estão no YouTube.

 

3. Segundo a imprensa local, nessa manifestação de Fortaleza participaram cerca de 50 médicos. O presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, José Maria Pontes, falou em nome deles, argumentando que cada médico cubano “vem com uma bolsa, não tem direito trabalhista, não tem direito a Fundo de Garantia, férias, hora extra, nada”, portanto é um “escravo”. Exigiam ainda que os médicos estrangeiros fizessem o exame Revalida, para os médicos que se formaram fora do Brasil.

 

4. A bolsa do governo brasileiro para cada médico cubano é de 10 mil reais, dos quais só entre 25 a 40 por cento lhes serão entregues, o resto fica para o governo de Havana. Fazendo as contas, estes médicos cubanos vão receber entre 2500 reais (780 euros) e 4000 reais (1250 euros). Factos: não é um grande salário, não é escravidão, é muito mais do que receberiam em Cuba, o interior do Brasil é muito mais barato do que as grandes cidades.

Quanto à certificação profissional, o ministro brasileiro da Saúde, Alexandre Padilha, garantiu que 86% destes médicos cubanos “têm mais de 16 anos de experiência em missões internacionais”. E reforçou: “Chegam para os 701 municípios que nenhum médico brasileiro ou estrangeiro escolheu individualmente. O ministério vai acompanhar a qualidade. Por isso exigimos que sejam médicos experientes, todos eles têm especialização em medicina da família e outros programas de pós-graduação.” Padilha não reve dúvidas em considerar “xenófoba” a reacção dos médicos brasileiros. Não apenas os que estavam em Fortaleza, mas todos os que reagiram sobranceiramente à vinda dos cubanos, duvidando das suas capacidades.

 

5. No auge da polémica, uma jornalista do Rio Grande do Norte, Micheline Borges, jovem, branca e loura, postou no seu Facebook este comentário: “Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas têm uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo? Afe, que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência. Coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja o nosso povo!” O comentário, que parece a caricatura de uma certa classe média brasileira, foi partilhado milhares de vezes, com milhares de comentários de repúdio. Tornou-se um caso com eco nacional. Ela ainda reincidiu uma vez, insistindo que aparência é importante, e acabou por sair do Facebook.

 

6. Dos 701 municípios brasileiros sem médico, a esmagadora maioria (84%) fica no Norte e Nordeste e dois terços (68%) têm os piores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil. Ou seja, lugares de pobreza extrema, Brasil de último mundo. Foi isso que nenhum médico brasileiro quis, e é isso que os médicos cubanos vão ter. E como não podem trazer ninguém, porque essa é uma condição do governo cubano para impedir que fiquem no Brasil, além de tudo o mais vão estar sozinhos, separados da família.

 

7. O que me parece mais extraordinário é isto: como alguém sofre violência por sofrer violência. A histeria de Fortaleza não questionou a ditadura cubana nem teve qualquer consequência política. Foi uma agressão individual, gente agredindo gente, médicos agredindo médicos. Tomando a lógica dos manifestantes como boa, se quem eles insultavam eram escravos, então o que eles estavam a fazer era punir o escravo por ser escravo.

 

8. Como nunca fui a Cuba não sei como será a vida de alguém formado em Medicina. Mas posso imaginar, pelos muitos testemunhos, que seja dura. Quantas histórias já ouvi sobre médicos que se multiplicam em mil e uma coisas, incluindo prostituição, para sobreviver? Qualquer um dos 400 médicos cubanos que já chegaram ao Brasil terá uma história de luta que devia fazer qualquer médico brasileiro apertar-lhe a mão. Para quem admire o regime cubano será um gesto automático, mas para quem vê Cuba como uma ditadura tão intolerável quanto qualquer ditadura seria um gesto político. Estes 400 médicos cubanos, que serão 4000 quando o programa estiver completo, não vêm tirar trabalho a nenhum brasileiro, e vão salvar vidas brasileiras, remotas e invisíveis. Só isso já devia travar o despudor daqueles que os insultam ou olham com sobranceria. Quem tem algo contra o regime de onde esses médicos vêm e o governo que os traz podia ir para a rua dia 7 de Setembro, dia da Independência do Brasil. Com tantas manifestações marcadas seria mais uma, questionando o regime de Havana, por melhores condições para os médicos cubanos e uma outra política de saúde no Brasil. Um bom lema para isso é: somos todos médicos cubanos.

 

(Público, 1-9-2013)

14 comentários a Somos todos médicos cubanos

  1. Bosco, você conseguiu em alguns poucos parágrafos se referir às críticas e a responder a todas com o que há de melhor em termos de argumentação. Gostei demais. Como sempre, aliás.

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  2. Apoiei sempre o Hugo Chavez, porque ele começou assim. Contratar médicos cubanos para os bairros pobres de Caracas. Não era no Sertão, era na capital. Nessa altura quem o criticava era a burguesia venezuelana porque iria baixar os lucros das clínicas dos bancos e dos seguros. Quanto ao que está escrito nesse blogue, tem algumas inverdades, uma delas é dizer que nenhum médico aceitou, pois até aqui de Portalegre foi um médico brasileiro para uma cidade da Amazónia. O problema do programa “Mais Médicos” é que muitos médicos vão trabalhar para locais onde não há estrutura de saúde nenhuma. Por outro lado o salário que oferecem não é apelativo, nem para os de lá, nem para os médicos inseridos num regime capitalista e de mercado. Só mesmo médicos inseridos num regime não mercantilista e fazendo parte de uma Plataforma de Saúde podem aceitar. E os cubanos são muito mais internacionalistas que qualquer profissional inserido no mercado de trabalho capitalista. Repito, QUALQUER PROFISSIONAL. No Brasil profundo, não há só falta de médicos…

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  3. Sou médico, português, trabalho em Portugal, nunca trabalhei noutro lado. O receio dos médicos brasileiros é compreensível (embora a atitude de Fortaleza seja indesculpável). Nivelar por baixo é sempre perigoso. É um passo para a precarização do trabalho, a baixa das remunerações, a perda de direitos. Ser médico implica muito mais que ser trabalhador manual; implica pagar formação, licenças, seguros, equipamento, etc. Não se pode reduzir o trabalho médico a um produto de importação ou exportação, como estão a fazer os governos brasileiro e cubano. É perigoso, não funciona. Num país onde falta tudo, só uma mente muito condicionada pode acreditar que a formação em Medicina é de qualidade em Cuba. Num país como o Brasil (e Portugal) onde há regras para equivalência de títulos, é uma afronta a todo o esforço colocado durante anos quando chega alguém que não sabemos se é colega, não sabemos se fala a língua nacional (em Portugal, mesmo ao fim de muitos anos, médicos estrangeiros recusam-se aprender Português com prejuízo evidente dos doentes) e trabalha como aqueles a quem tudo é exigido. Não nas mesmas condições, é certo, mas com igual responsabilidade.

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    • “Num país onde falta tudo, só uma mente muito condicionada pode acreditar que a formação em Medicina é de qualidade em Cuba. ”

      Diz isso apesar de todos os indicadores internacionais relativos ao assunto indicarem que o sistema de saúde de Cuba é um dos melhores do mundo ? Os médicos cubanos são reconhecidos como dos mais capazes do mundo. Deixe o preconceito de lado.

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    • Gostava que me dissesse se pagou ao Estado Português anformação que lhe foi fornecida durante anos para se titular de médico.
      Gostava também de saber se tem conhecimentoi de quantos municípios no Brasil não possuem qualquer profissional de saúde incluíndo médicos, e se sim se prefere que essas centenas de municípios continuem sem apoio médico pelo simples facto que na sua óptica o importante é não nivelar por bvaixo, ou seja: prefere que não haja apoio médico nenhum desde que os existentes ganhem bem, o resto mesmo que sejam mortes são simples efeitos colaterais.
      Gostava também de saber quais são os médicos cubanos a exercerem em Portugal que não teem habilitações iguais às suas e na maioria superiores e melhores profissionais dos que os portugueses e ainda quais são os médicos cubanos a exercxerem em Portugal que não conseguem comunicar com o seus pacientes ou são mal entendidos?
      O que retiro do seu comentário é que desde que o senhor e mnuitos como o senhor vivam bem financeiramente está tudo correcto, todo o resto tem importância zero.
      Aconselhava-.o a ter alguma vergonha na cara e quando comentar situações análogas pelo menos documente-se sobre o assunto para não dizer tanta asneira seguida.

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  4. a democracia tem vicios mais ainda é o regime mais justo, bem como o capitalismo, na minha opinião, só que o capital tem de gerar riquezas, estas tem de ser tributadas, taxadas, recursos esses que tem de ser utilizado pelo estado para equilibrar desilqualdades utilizando de politicas sociais. Não gosto muito do PT, simplesmente porque ele fez coisas que pregou contra a vida inteira, alimentou a corrupção, mais….. tiro o chapel e parabenizo o governo federal pela iniciativa do mais medico, defenderia essa bandeira até mesmo nas ruas pois ela é boa, gera justiça social, deixo aqui tambem meu repudio a uma das classes mais corporativistas do brasil(médicos)

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  5. Como sempre a qualidade das suas reportagens deixam-nos no limbo da reflexão, de parar para pensar, para verificar se estamos certos em tudo o que sabíamos e conhecíamos, e deixa-nos nas mãos alguns problemas para resolvermos com nós próprios, mesmo, como é o meu caso, não subscrevamos a totalidade do seu pensamento aqui exposto. Em tudo o que aqui lemos podemos encontrar, ao mesmo tempo, a xenofobia em diversos níveis, uma mais bruta, mais primária, mais Neandertal como a de Micheline Borges, outra mais subtil, mais educada, mas não menos preconceituosa, como a do Mário Carneiro, a liberdade e os direitos dos cidadãos.
    Não conheço Cuba pelo que não me atrevo a grandes juízos de valor. De Cuba, conhecemos, por ouvir falar e poder ler, o regime de Batista e o de Fidel, se assim o posso dizer, mas seja qual for o nosso posicionamento, temos sempre dificuldade em aceitar a diferença e partimos sempre do pressuposto do que é bom para mim, será bom para todos, sobre a liberdade também pensamos assim. Diz-nos o Clóvis Castro que o capitalismo ainda é o regime mais justo, pelo que presumo que sendo o regime económico brasileiro capitalista, a sociedade brasileira será justa. O regime económico no país onde vivo também é capitalista e pode até ser como diz o Clóvis Castro o mais justo do mundo, mas não tenho dúvidas que assenta na maior das injustiças e das desigualdades que se possa conceber, no qual algumas famílias usufruem de riqueza cujo valor é moral, ética e materialmente obsceno. Se os seres humanos não são capazes de construir um regime mais justo do que este, então será uma profunda desilusão e parece tornar-se quase inglória esta caminhada da humanidade. No entanto, a acreditar, e eu acredito, nas crónicas da Alexandra Lucas Coelho, há milhões de brasileiros na rua que parecem acreditar ser possível um regime mais justo.
    Portugal com o movimento libertador de Abril de 1974, ergueu um Serviço Nacional de Saúde que alcançou índices de qualidade que todos os portugueses se devem orgulhar. Para que tal tivesse ocorrido, contribuíram de forma decisiva, os portugueses, ao exercerem os seus directos de cidadania, os médicos, sem dúvida, e todos aqueles que diariamente trabalham nas diversas vertentes do SNS. Contudo, em nome da democracia, da liberdade e de um regime capitalista que segundo o Clóvis Castro é dos mais justos do mundo, um governo ilegítimo e constitucionalmente cada vez mais ilegal, que só a inércia premeditada de um presidente mentalmente débil e culturalmente analfabeto, permite a sobrevivência, vai quotidianamente destruindo este SNS, fazendo regredir a saúde dos cidadãos para níveis que começam perigosamente a aproximar-se da miserabilidade. E no entanto, Portugal, apesar deste excelente S.N.S. teve de recorrer a médicos do Estado espanhol e de Cuba. Não sei se são centenas ou milhares que se encontram pelo país, mas sei que colmataram faltas e ausências que a persistirem colocavam em causa a saúde de muitos cidadãos no interior do país. Pessoalmente, não conheço qualquer queixa em relação a esses médicos que esteja para além das queixas que se ouvem em relação aos médicos portugueses, e em termos práticos, todos ganharam, os cidadãos carentes de tratamento, obtiveram-no, os médicos vindos do exterior encontraram trabalho e os médicos portugueses continuaram a manter os seis interesses, que diga-se, sem desmerecimento do seu labor e da sua competência, por vezes estão para além do razoável. Os médicos exercem uma profissão que como todas as outras deve ser paga pela competência e pelo mérito, acrescidas do facto da matéria com que trabalham, ser humana, e do seu mérito e competência passar tantas vezes, pela linha da vida e da morte. Mas o facto de o seu labor ter de ser exaltado, não deve significar que o dos restantes cidadãos deva ser menorizado.
    Que me desculpe a Alexandra por este atrevimento e os restante intervenientes se as minhas palavras possam conter alguma injustiça sobre as opiniões que emitiram.

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  6. valia a pena ter focado o paralelo no essencial entre as argumentações pseudocientificas contra os cubanos que já tinha sido usado em Portugal contra os brasileiros e muitas das argumentações da ordem medicos e sindicatos em Portugal. Acontece é que somos poucos(so S.paulo é tres vezes Portugal) e mais mansos que gostam muito de fatima e telenovelas.

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