Azul royal

1. É sábado e Monarco faz 80 anos. A última vez que o vi foi no cimo de um carro alegórico. Eu estava a seus pés, misturada na Bateria da Portela, centenas de caixas, repiques, chocalhos, agogôs, reco-recos, pandeiros, pratos, surdos, as bancadas do Sambódromo cheias. Ele vinha no carro da Velha Guarda da Portela, os sambistas históricos que Marisa Monte convidou para o disco “Tudo Azul”, recuperando canções desde 1945. A voz de Monarco liderava, além da cuíca e do tamborim. Monarco, enfim, é a cara que a Portela merece. Mas hoje, 17 de Agosto, eu ficaria metida em casa a trabalhar não fosse a minha amiga Maria. Ao telefone, ela ainda usa o derradeiro argumento:

— Vem que dá uma crónica.

Como nem isso resulta, engendra forma de me transportar e depois comunica que dentro de 15 minutos devo descer deste apartamento.

Portanto é sábado e estou a caminho dos 80 anos de Monarco, reflectindo na dificuldade de exercer o livre arbítrio no Rio de Janeiro. Mas uma portuguesa tão chata que quer ficar em casa quando toda a Portela chama para a festa é uma espécie de inimputável: melhor mesmo uma carioca decidir por ela.

 

2. Claro que a Maria tinha razão, ainda caminho por entre bancas de bandeiras, camisetas e bandeletes, nem avistei ainda a quadra da escola, e os pés já vão sozinhos. Ó azul-Portela, aquele que não é do céu nem é do mar, como diz a canção mais amada de Paulinho da Viola. Azul royal: não há cor mais vibrante.

 

3. A única vez que estive nesta periferia do Rio (Oswaldo Cruz, Madureira) foi justamente para ver Paulinho da Viola, mas nunca entrei na própria quadra da escola. É como aquelas catedrais que já são a nossa história mesmo sem nunca lá termos entrado. Só que, claro, dentro da Catedral de Chartres ninguém come macarrão com frango enquanto espera a celebração.

— Já comi um prato de macarrão — anuncia, radiante a Maria, quando nos encontramos no meio da multidão. — É o prato favorito do Monarco.

Como já almocei, fico pela fila para a caipirinha. À minha frente estão dois rapazes. Cinco minutos depois já somos aqueles velhos conhecidos que só existem no Rio de Janeiro. Depois eles contam que moram no Cosme Velho e aí, como dizem os cariocas, só me ocorre dizer: ai, morri. Há vida na terra. Gente que ainda mora no Cosme Velho.

 

4. Quando chega a minha vez, vejo na parede que uma caipirinha são seis reais (dois euros). Tentem achar uma caipirinha por seis reais em qualquer boteco pé-sujo do eixo Flamengo-Botafogo-Copacabana-Ipanema-Leblon-Gávea-Jardim Botânico. Mais fácil achar por 16. Se for no Arpoador, por 26. Então, é a epifania da bolha: como algumas dezenas de milhares praticam preços impossíveis para os milhões em volta, inflaccionando brutalmente o Rio de Janeiro. Uma caipirinha a seis reais na quadra da Portela é uma evidência da cidade que nunca deixou de ser partida, o Rio das caipirinhas a 26 reais e o Rio das caipirinhas a seis reais. E vem-me à memória aquela frase de Napoleão que está no frigorífico da Maria: “A religião é o que impede os pobres de assassinarem os ricos.” Espantam-se com as vitrines partidas no Brasil de 2013? O que me espanta é como vitrines, grades, seguranças privados e toda a ostentação que protege a ostentação da Zona Sul continua inteira.

 

5. A propósito, há o caso daquela dona de bar da Zona Sul que no Facebook apoia as acções em curso contra o capital e depois cobra 25 reais por um copo de vinho que em Portugal custaria dois euros. Esquerda-caviar não é muito tropical, mas é muito Zona Sul do Rio de Janeiro.

 

6. Ah, dirá o conhecedor de caipirinha, mas essa cachaça da quadra devia ser ruim. Pois, acredite, era Salinas, cachaça artesanal de Minas. Uma caipirinha com Salinas a seis reais seria para buscar até casa em Oswaldo Cruz-Madureira. Aliás, revolucionário no Rio era a geração dos 25 aos 35 mudar para a periferia, abandonando os copos de vinho a 25 reais, e os alugueres a cinco mil reais.

 

7. Mas, além da praia, se há um lugar em que o Rio se reúne é a música, e dentro da música nada é mais total que o samba. Então à epifania da bolha segue-se a epifania da quadra a abarrotar de gente mesmo misturada, toda a gente igualmente apertada contra o palco para avistar Monarco, chapéu panamá branco, terno branco de linho, um cavalheiro.

 

8. Nasceu Hildemar Diniz, tornou-se Monarco por causa de uma banda desenhada do Superhomem que um amiguinho estava a ler (parece que havia um personagem chamado Monarco). Já compunha, é sambista desde criança, até hoje não ganhou um samba-enredo, aquele que a escola leva para o desfile no Carnaval, e isso não teve importância nenhuma nisto: milhares de pessoas celebrando os seus 80 anos hoje (e quinta-feira no Circo Voador), além de um palco a transbordar de mestres: Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Teresa Cristina, Nilze Carvalho, parte da Bateria, quase toda a Velha Guarda.

 

9. A condição de Monarco foi que o lucro das entradas, a 10 reais, revertesse para os muitos gastos do carnaval.

— Ele só topou quando falei que poderíamos fazer um evento para ajudar a Portela — declarou à imprensa Olinda, sua mulher. — A Portela é o grande amor dele.

Não só comprou as entradas da família como a sua. No país da meia-entrada, da lista amiga e dos convites, pagou para entrar no próprio aniversário.

E no momento em que Paulinho da Viola canta “Foi um rio que passou em minha vida”, toda a quadra o acompanha, braços ao alto, dando graças, pretos, brancos, novos, velhos, pernas esguias ou corpanzis, chinelas ou roupa de marca. Não há cidade partida, só alegria de cantar junto este amor azul royal.

 

(Público, 25-8-2013)

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