Fora da história

1. Passei as últimas semanas tomada pelos ninja/fora do eixo, entre várias outras histórias da convulsão brasileira. Em três anos aqui, raras vezes vi uma arena tão dramática em torno de um assunto nas redes sociais. Contribuiu ter passado seis meses fora do Facebook e voltar em vésperas da chegada do Papa. Foi a minha aterragem na Mídia NINJA. O Rio é uma cidade ruidosa em geral, mas agora está uma babel. E todos os dias me pergunto como qualquer carioca daqueles milhões que ganham pouco mais que o salário mínimo faz para viver entretanto. Hoje um amigo com idade para ter ido para França nos anos 60 escreveu a dizer que se tivesse 20 anos hoje viria para o Brasil. Nunca tanta gente me disse que o Brasil agora é o centro de tudo. Tirando ser um escândalo conseguir sobreviver por cá, eu própria se tivesse 20 anos hoje viria para o Brasil. Este é o Inverno em que o Brasil coincide com a História.

 

2. Então, uma amiga acaba de voltar do México, lembro-me do México, quero ir para Oaxaca. De repente o México parece-me o oposto do Brasil, não o fluxo mas o todo, o fora da história, como fazer para desaparecer, logo agora quando toda a gente está a olhar. Ou será apenas aquilo que no século XIX era uma das muitas espécies desconhecidas de fadiga, e levava as pessoas de comboio até um sanatório na montanha. Fui tão feliz no século XIX que até hoje ele não acabou. Os campos da Provença dentro da cabeça de Van Gogh. Lugares onde nunca fui: Arles, Duíno, Trieste, Weimar, Leipzig, Cracóvia. Também nunca fui a Marselha, que fica pelo caminho, e quero ir, mas não agora, porque isso é outro dentro da História, o pós-Europa.

 

3. Ruído é som, imagem, presença. Penso nisso a propósito do colectivo que visitei nestes dias, a Casa Fora do Eixo em São Paulo, onde está a base da Mídia NINJA, num anexo do quintal. Não havia música alto, nem gente a falar alto, mas a profusão de sons, imagens e presenças era permanente. Há um ano, antes de toda esta convulsão, pensei na ideia de uma casa colectiva com amigos. Foi um pensamento rapidamente passageiro. Talvez se eu fizesse hip hop, grafiti, vídeo, cinema, teatro, dança, alguma arte colaborativa, mas desde o liceu que me sinto incapaz de escrever em grupo. Não sei como alguém fará um livro partilhando até o quarto, nunca podendo estar sozinho, ou nunca podendo escolher. Pelo menos um livro em papel, do começo para o fim, e não do eixo para as radiais, ou qualquer forma de rede em que todos os pontos sejam começo e fim. Já não digo como fará para escrever, mas como fará para ouvir.

 

4. Quando há muito ruído não se vê, e aquilo que não se vê ficará por escrever. O silêncio não é luxo, é utopia. Ou talvez este seja um tempo propício ao poema, não à prosa. Penso nestas casas com uma geração que tem agora entre 20 e 30, quando digo que não sei como sairá dali um livro em papel estou a pensar em romances, mas pensando melhor estas casas, estes quartos, podem ser os cafés das pessoas do Pessoa de quem nasceu quando já havia Internet. Talvez nenhum género encontre neste momento ecossistema mais favorável, no puro sentido darwiniano, evolucionista, do que a poesia, vibração de hiperlinks por natureza. O poema interrompe o fluxo mas o romance é o fluxo. O romance concorre com a História. Convêm-lhe, por fora, lugares em que a História esteja parada e, por dentro, lugares em que a História se produza.

 

5. Isso é a arte, que sempre veio da contingência. Entretanto política, democracia, liberdade vão ser mudadas por uma lógica de colectivos em rede sempre ligados, em que qualquer ponto seja o centro: dispersão, rapidez, simultaneidade.

 

6. Convulsão: câmara do Rio ocupada, estudantes na rua, professores na rua, manifestações diárias, o prefeito apressando-se a entrar na era “hangout” do debate popular, em directo através da Net. Entretanto, nos bairros chiques continuam as grades, os porteiros, os quartos de empregada, a empregada uniformizada, as guaritas com segurança privada. E a classe dita média acha normal alugar pequenos apartamentos por 1500 euros. Não falo da quadra da praia, é vista para o prédio em frente, mesmo. Não imaginem na Copa.

 

7. Os editores tendem a pedir aos repórteres aquilo que toda a gente está a dar, ou seja aquilo que eles acham que não podem perder, em vez do que aquele repórter daria se lhe dessem ouvidos. As redes sociais tendem a perpetuar isto: interessante não é aquilo de que ninguém está a falar mas aquilo de que toda a gente está a falar. Ao fim de um mês dentro da História, por mim já estava bom, e agora eu passava um mês a ler. É a utopia individual.

 

Público, 18-8-2013)

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