Papa pede a fiéis que saiam à rua, para a evangelização global

Jesus dá “algo maior” que o Mundial, disse ao povo. Às elites pediu “reabilitação da política”. Aos bispos, “simplicidade”. Três milhões em Copacabana.

 

Perante a maior massa de gente que alguma vez se juntou em Copacabana, o Papa fez da sua homília ontem de manhã um apelo à evangelização global: “A experiência deste encontro não pode ficar trancafiada na vida de vocês”, disse Francisco. “Para onde Jesus nos manda? Não há fronteiras, não há limites: envia-nos para todas as pessoas. O Evangelho é para todos.” E insistiu: “Não tenham medo de ir e levar Cristo para todos os ambientes, até as periferias existenciais, incluindo quem parece mais distante, mais indiferente.”

À sua frente, na missa que encerrou a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), estavam três milhões de pessoas, segundo a prefeitura. Muitos dos peregrinos tinham passado ali a noite em vigília, depois de caminharem 9,5 quilómetros. Francisco destacou-os sempre, chamando-lhes “queridos jovens”, às vezes em português, às vezes em espanhol. Deu o exemplo do jesuíta José de Anchieta, que no século XVI “partiu em missão” quando tinha 19 anos: “Sabem qual é o melhor instrumento para evangelizar os jovens? Outro jovem.” E quando a missa chegou ao Ângelus, repetiu: “Vale a pena sair e ir com coragem e generosidade, para que cada homem e cada mulher possa encontrar o Senhor.”

Então anunciou a Jornada de 2016 em Cracóvia, coincidindo com a canonização do polaco João Paulo II.

 

Acampamento total

 

A propósito de qualquer problema na cidade, os cariocas habituaram-se a dizer: “Imagina na Copa…” Como se o Mundial de 2014 fosse o grande teste. Mas quem entre sábado e domingo percorria Copacabana encontrava um cenário que dificilmente se repetirá na história do Rio, e certamente não no Mundial, espalhado pelo país, e por semanas.

O plano inicial era que vigília e missa de encerramento acontecessem a 50 quilómetros, em Pedra de Guaratiba. Quando o terreno que lá fora preparado, Campus Fidei, virou um lamaçal com a chuva, tudo passou para Copacabana, onde o Papa já protagonizara a Cerimónia de Acolhida e a Via-sacra.

Então, Copacabana acabou por ficar quase uma semana sitiada: ruas cortadas ao trânsito e sem acesso normal ao metro, filas em supermercados, restaurantes, cafés e lojas, altifalantes com música, multidão compacta por toda a parte.

De sábado para domingo, a repórter dormiu no apartamento de um casal junto à Praça do Lido, frente ao palco do Papa. Ela esteve dois dias sem sair de casa e ele desistiu até de tomar café — mas depois não resistiu a ver a multidão, e, com todo o seu calo carioca, não imaginara nada assim.

O Lido, duas ruas à esquerda do Copacabana Palace para quem está voltado para o mar, é um epicentro do turismo sexual do Rio. Em qualquer começo de noite, prostitutas e travestis andam por aqui com micro-saias e mega-decotes. E é exactamente nesta praça que ao começo da noite de sábado dezenas de milhares de peregrinos estendem colchões, tapetes, cartões, plásticos, e por cima armam tendas, ou põem sacos-cama. É um acampamento total, algo entre o apocalipse e o festival de rock, cobrindo o calçadão, as margens do asfalto, de novo o calçadão, e depois a praia.

O gradeamento da praça transformou-se num estendal de cartazes contra o aborto, com imagens de fetos. Do outro lado da rua, a bomba do Posto 2 está atulhada: peregrinos deitados ou sentados entre as várias opções de gasolina e gasóleo. Na copa das árvores, gente pendurada. Filas de hora e meia para as casas de banho químicas instaladas no passeio. E mal se põe o pé na areia é a imobilização: para andar, só pisando colchões, caindo em cima de tendas, passando por cima de gente que dorme, exausta.

Mas não se ouve uma queixa, não se vê uma birra, nem de crianças, e há crianças até de colo. Os peregrinos cantam, dançam, tocam guitarra, abrem os seus “kits”-vigília com comida de pacote, assinam as bandeiras, as mochilas, as camisas uns dos outros.

E quando o Papa aparece no palco, começa a emoção: olhos congestionados, logo desde que quatro jovens diante de Francisco contam as suas histórias de superação. Por exemplo, o rapaz numa cadeira de rodas que levou um tiro, e diz que a cruz de Cristo o levantou, e pede a todos que segurem a sua cruz, e os jovens agarram no crucifixo que trazem ao pescoço, e o rapaz no palco fala “nos jovens esplêndidos, com fogo do Espírito Santo”.

20h30: a sempre gentil voz de Francisco ecoa pelo acampamento, transformando a mudança da vigília para Copacabana em mais um desafio: “Não estaria o Senhor querendo dizer que o verdadeiro campo da fé, o verdadeiro campus fidei, não é um lugar geográfico, mas sim somos nós?”

(O prefeito Eduardo Paes há-de anunciar que o campo de Guaratiba será transformado “num bairro popular para os mais pobres”, chamado Campo da Fé do Papa Francisco, visto que “a Igreja investiu muitos recursos ali e isso não poderia ser desperdiçado”).

Entretanto, o Papa vai direito ao coração futebolista dos peregrinos: “Jesus nos oferece algo maior que a Copa do Mundo.” Com mais um apelo à participação pública, antes de desejar boa noite e boa vigília: “Sejam protagonistas da sociedade, não assistam a vida pela janela, Jesus não fez isso.”

Ao lado de uma bandeira portuguesa, Maria Laurentina, nascida há 66 anos em Santa Maria da Feira, 33 de Portugal, 33 de Brasil, não vai dormir na praia, mas está de pé e fresca a ouvir Francisco: “Ele é como nós.”

 

Entre bispos e elites

 

À tarde, perante uma plateia de bispos brasileiros, o Papa dedicara o mais longo discurso da sua visita a vários alertas para a hierarquia católica. Defendendo que “o resultado do trabalho pastoral não assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor”, instou a Igreja a não se “afastar da simplicidade”.

Falou directamente do êxodo de católicos, esse “mistério difícil das pessoas que abandonam a Igreja após deixar-se iludir por outras propostas”, numa passagem acutilante: “Talvez a Igreja lhes apareça demasiado frágil, talvez demasiado longe das suas necessidades, talvez demasiado pobre para dar resposta às suas inquietações, talvez demasiado fria para com elas, talvez demasiado autoreferencial, talvez prisioneira da própria linguagem rígida, talvez lhes pareça que o mundo fez da Igreja uma relíquia do passado, insuficiente para as novas questões; talvez a Igreja tenha respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta.”

E apontou o caminho: uma Igreja “que, na sua noite, não tenha medo de sair”, “capaz de interceptar o caminho” dos que a abandonam, “de inserir-se na sua conversa”, uma Igreja que “acompanha, pondo-se em viagem com as pessoas”, “capaz de decifrar a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs”.

E, ainda perante os bispos: “Não reduzamos o empenho das mulheres na Igreja, antes pelo contrário promovamos o seu papel ativo na comunidade eclesial. Perdendo as mulheres, a Igreja corre o risco da esterilidade.”

Na véspera, num encontro com elites da sociedade civil, dissera que “entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo”, e que “o  futuro exige reabilitar a política, uma das formas mais altas de caridade”, referências claras às últimas semanas de protestos no Brasil.

Tudo somado, se algo percorreu os discursos deste Papa no Brasil foi uma defesa da acção: social, política e evangélica. Diante de fiéis argentinos, na Catedral Metropolitana do Rio, incitara: “Eu quero agito nas dioceses, que vocês saiam às ruas. Eu quero que nós nos defendamos de toda a acomodação, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja não sai às ruas, se converte em uma ONG.”

 

Comunhão geral

 

Domingo em Copacabana amanhece com música no palco, já a preparar a missa, às 10h. Quem dormiu, quase não dormiu, ou adormeceu há pouco: por toda a parte pilhas humanas, em cima de mochilas.

O tapume que protege o Copacabana Palace serve de cabeceira a centenas, no meio de colchões, sapatos, roupa, pacotes de comida. O segurança abre uma fenda para um pequeno grupo. Há peregrinos alojados? “Sim, um grupo de 200. Americanos.”

A caminho da areia, Thulio e Angelica, 22, e 19 anos, de Belo Horizonte, aguentam sentados enquanto os amigos dormem. “É um bom cansaço. Viemos para isto.” Mais adiante, Maria Eugénia, 17 anos, de Santiago do Chile, está radiante: “A noite foi muito divertida, dançámos com pandeiros e guitarras.” Por toda a parte há grupos que batem palmas nos joelhos e depois no ar, enquanto cantam “Glória a Deus!”. Conceição, que veio de Brasília, espera há uma hora na fila para a casa de banho mas “é bom mostrar essa união da igreja, esse carisma”, então está “feliz”, mesmo que a noite tenha sido “dolorosa”, com “muito frio”.

Vem sol entre nuvens. Começa a missa. Na praia mais cantada do mundo, três milhões rezam, acenam, abraçam-se no momento da saudação. E o auge é quando religiosos e leigos avançam entre a multidão com tacinhas de hóstias e, em plena Avenida Atlântica, vão dando a comunhão às pessoas, muitas de palmas voltadas para o céu, a chorarem.

Antes, durante e depois, há gente ajoelhada. Quando a repórter se volta para trás, até o vendedor de biscoitos que costuma andar na praia, cabeça curvada, em comoção.

 

 

(Público, 29-7-2013)

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>