Jailson de Souza e Silva: o novo carioca

Quando Jailson de Souza e Silva, 53 anos, abre a porta de sua casa, a primeira coisa que aparece é uma estante cheia de livros. Entrando, há mais livros (e uma parede azul-petróleo, a contrastar com o branco das estantes). É a casa de um académico: doutorado em sociologia, professor na UFF, a universidade federal do outro lado da Baía da Guanabara.

Para um carioca branco de classe média seria um destino não surpreendente. Mas Jailson é mulato, neto de empregada doméstica, criado numa favela do Complexo da Maré. Foi a excepção numa sociedade hierarquizada, que continua a ter elevadores diferentes para empregados e patrões. Jailson usava  o elevador de serviço quando visitava a avó. Hoje é uma referência do que está a mudar no Rio de Janeiro. Fundador do activo Observatório de Favelas, impulsionou recentemente o livro “O Novo Carioca”, conjunto de ensaios e propostas.

Na noite em que nos encontramos, neste espaçoso apartamento do Flamengo, Zona Sul, ele acaba de enfrentar o trânsito da ponte Rio-Niterói, a que às sete da manhã voltará. Mas senta-se com um copo de vinho branco a explicar o que é isso do novo carioca.

“Vivemos o tempo do sujeito reduzido a consumidor, trabalhar oito horas, mais férias, para ter acesso a bens de consumo. Viver para consumir e ser consumido. O novo carioca é a afirmação de um outro tipo de sujeito, que disputa um imaginário e reconhece a importância da diferença.” Na linha da autenticidade de Rousseau: “Cada um tem o direito de ser quem é, homem, mulher, homossexual, negro, criança. Cada um tem uma dimensão singular. E uma dimensão ecológica, integra-se no planeta.”

A base do novo carioca é a cidade e a sua característica é “a extrema mobilidade”. Ou seja, não está confinado a periferias e a zonas de elite, anda por toda a parte. “O que defendemos é o direito de ter a cidade toda, rompendo com os guetos. O novo carioca aprende a conviver consigo e com as diferenças.”

Isto implica questionar velhas polarizações esquerda-direita. “A igualdade só económica foi um fracasso. O fundamental é haver um patamar mínimo de dignidade. Eu adoraria viver numa sociedade pós-capitalista, mas numa visão realista o capitalismo vai manter-se na próxima conjuntura: nós estamos no capitalismo. O desafio é como a gente cria condições para trabalhar. O capitalismo naturaliza a desigualdade, tenta depreciar a igualdade como dinossáurica e transforma a diferença em desigualdade.”

Historicamente, diz Jailson, a esquerda tentou mudar as instituições, criar sindicatos, novas formas. O que não evitou que em vez da instituição estar ao serviço do sujeito seja o sujeito a estar ao serviço da instituição. “O grande desafio é esse, que a instituição sirva o sujeito.”

 

São Paulo/Rio

 

Numa cidade como São Paulo, “a segregação geográfica é maior”, compara. “Tem muito pouco encontro de diferentes galeras [grupos]. Há menos novos paulistas que novos cariocas. Lá não tem praia, que obriga a uma mobilidade. Aqui você anda na Zona Sul e vê favela. É mais difícil separar. Eu posso ter aliados em vários campos. Tem gente que mora em favela que é racista, sexista, homofóbica. E tem gente que mora em áreas nobres e tem compromisso com a democracia. Não estou subestimando as questões de classe, que existem. Mas os novos cariocas são os aliados de um projecto de cidade. Podem estar na favela ou na Zona Sul. O que os distingue é a mobilidade.”

Eles querem apropriar-se da cidade. “O novo carioca não vai à favela fazer turismo e não vai ao CCBB [Centro Cultural do Banco do Brasil] porque achou bacana [chique].” Olha para quem está à sua frente como um indivíduo. Jailson exemplifica: “Eu vejo você antes de tudo como pessoa, sem perder de campo que você é branca, portuguesa, da Zona Sul. Eu sou negro, intelectual da periferia, carioca, tricolor [fã do Fluminense]. Mas meus pertencimentos não me impedem de lidar com o outro. E isso é uma coisa muito específica do Rio de Janeiro.”

Jailson cita parceiros de percurso, alguns dos quais co-autores de “O Novo Carioca”: Écio Salles, um dos organizadores da Flupp, a primeira feira literária das UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora, baseadas nas favelas); Marcus Faustini, encenador, dinamizador de redes transversais; José Júnior, líder do AfroReggae (ONG a trabalhar nas favelas); Celso Athayde, autor, produtor, fundador da Cufa ( Central Única de Favelas).  

“Crescemos na periferia e nos projectámos na intervenção na cidade”, resume Jailson. “Você me conheceu na Lagoa [bairro da classe média alta] em casa de Francisco Bosco [ensaísta carioca, prefaciador de “O Novo Carioca”]. Eu estou chegando da universidade. E no livro tem uma foto minha com cinco anos e só fui ter outra com 14. Nada mais pobre que não ter imagem. O pobre tem oralidade, não tem imagem. Não tínhamos equipamento para captar a nossa imagem. Os outros captavam a nossa imagem e o nosso discurso. Nós não passávamos de objectos de pesquisa. E hoje temos capacidade de produzir pesquisas que os académicos não têm. Este processo é novo no Brasil.”

 

Estado partido

 

Um dos livros marcantes sobre o Rio é “Cidade Partida”, de Zuenir Ventura, reflexão e histórias a partir do massacre que a polícia fez em Vigário Geral, em 1993. A cidade partida era essa cidade dividida entre o morro e o asfalto, a favela e a Zona Sul. Jailson propõe outra leitura: “A cidade nunca foi partida. O estado é que é partido, ou parte a cidade. Sempre teve gente que circulou a cidade. Ali tem saneamento e aqui não tem? Tem segurança e aqui não tem? Isso é o estado, não a cidade. E dizer cidade partida naturaliza isso.”

Jailson trouxe Zuenir para o debate. “A gente se encontrou na Universidade das Quebradas [projecto que liga mundo académico à produção cultural das favelas], e foi óptimo. Ele não vê uma contradição connosco.” Trata-se apenas de refocar a abordagem. “É como falar que o homem destrói a Amazónia. Dizer isso é dizer que todos destruímos a Amazónia. Então as empresas e as hidreléctricas deixam de ser as responsáveis.”

Mas como é que esta nova leitura da cidade convive com o Rio da explosão imobiliária, e dos mega projectos, em vésperas de Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas 2016? “O projecto que domina hoje o Rio é a cidade-empresa, atraente para o grande capital, com glamour: a global city”, admite Jailson. “O [prefeito Eduardo] Paes é uma figura ambígua. No governo dele tem várias visões. São governos conservadores que negoceiam com perspectivas progressistas. O Paes é um pragmático. Opera no sentido de construir uma cidade-espectáculo que atraia interesses. Não se incomoda com a periferização dos pobres.”

Não os pobres que já estão na periferia, mas os que estão a ser afastados das favelas da Zona Sul com belas vistas, que depois da chegada da polícia pacificadora passaram a ser atraentes para gente da classe média, artistas, estrangeiros. “A UPP do Vidigal ou do Morro dos Cabritos pode provocar uma substituição dos nativos pelos ricos. Isso é um risco hoje. E não está na agenda do prefeito evitar isso.”

Como poderia evitar? “Regulando a propriedade. Hoje o [bilionário] Eike Batista pode chegar no Vidigal e comprar barracas. A prefeitura não tem legislação que impeça isso. No Leblon [bairro de classe média alta] tem áreas de preservação cultural [APAC]. Eu quero APAC no subúrbio e na favela.” A gentrificação acontece progressivamente, “sem nenhum estímulo para os moradores permanecerem, sem discussão”. Em suma: “Está-se esperando que o mercado defina. E se o mercado tiver chance vai destruir as favelas da Zona Sul. É um espaço valiosíssimo, e isso é uma disputa central na cidade hoje: garantir a polaridade do centro. Se você expulsar população para a periferia não vai ter uma cidade mais rica. O estado tem de operar para garantir diversidade. No Rio isso é uma disputa política. Se nada for feito, o grande capital será a referência para o ordenamento do território. E nós seremos cada vez mais a cidade-empresa.”

Eduardo Paes quer um Rio-global, como Paris, Nova Iorque, Tóquio ou Berlim, cidades-desejo, diz Jailson. Mas “se isso acontecer sem complexidade vai haver uma periferização”, quando “a identidade dessa cidade global é o encontro”.

É aqui que os novos cariocas podem funcionar como “um activo”. “O que os turistas mais gostam é de circular pelos ambientes. Para ver aqui o que tem em Paris é melhor ficar em Paris. O Rio não pode ser provinciano a esse ponto. Tem que ser uma cidade de referência a partir do que tem de melhor.”

 

A bolha

 

Não vai sair barato ser um novo carioca. Jailson levou “a vida inteira” para conseguir comprar este apartamento de 180 metros quadrados, numa das ruas nobres do Flamengo. Custou 685 mil reais (264 mil euros). “Agora jamais o poderia comprar. Vale um milhão e 700 mil.” 655 mil euros. “Em três anos valorizou o triplo. O Rio vive numa bolha de especulação. Na Maré foi vendido um barraco de 50 metros quadrados por 200 mil reais [77 mil euros], numa área degradada, esquina com uma boca de fumo [ponto de venda de droga]. O cara demoliu e está fazendo uma construção. Um galpão que era alugado a dois mil [770 euros], está sendo alugado a dez mil [3850 euros]. Vai chegar num limite.”

Tudo isto não tira que o Rio e o Brasil vivam um grande momento, crê Jailson. “Quem vê a grande mídia, parece que o governo é um desastre, quando a presidente é a mais popular da história. A grande mídia perdeu a base social.” Onde Lula-Dlma menos avançaram, foi “em termos de participação política, de reforma agrária e em questões de comportamento”, ressalva. “Continua sendo crime que uma mulher faça um aborto. Não tratamos da questão das drogas. O Brasil tem grandes desafios políticos e de comportamento.”

Para já, no Rio, a expectativa é que o Complexo da Maré seja o próximo conjunto de favelas a ter uma UPP. A Maré é a paisagem favelada que os recém-chegados avistam ao vir do aeroporto internacional para a cidade. Mas há anos que o Observatório de Favelas e outras redes, trabalham com a comunidade, o que veio ao de cima quando as autoridades anunciaram a intervenção. “Já conversámos com a cúpula da Polícia Militar e com o Secretário de Segurança. A UPP é uma acção positiva embora tardia. Mas tem de haver um controle social da polícia. Se não se tomar cuidado pode ser uma ditadura. É isso que a gente tem de evitar.”

 

(Público, 24-03-2013)

Um comentário a Jailson de Souza e Silva: o novo carioca

  1. Muito interessante, cita o novo carioca como construção do modelo de comportamento do século XXI, livre de preconceitos percebendo o outro como sujeito de direito, utilizando da empatia para perceber situações críticas relatadas e não vivenciadas…parabéns..

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