Yoani Sánchez no Brasil

1. Quanto a emoções fortes no Rio de Janeiro, nunca saltei de asa delta mas tenho sobrevivido aos ônibus e já falei de Cuba com Maria da Conceição Tavares. Portuguesa radicada no Brasil, economista de referência, formadora de líderes como Lula e uma entrevistada excepcional, aos 80 anos ela parecia um Churchill, fumando sem parar. Foi a minha estreia no Cosme Velho, bairro que se tornou o meu, e sempre que passo pelo seu prédio lembro-me daquela tarde em Outubro de 2010. O Brasil ia decidir a sucessão de Lula, os ânimos estavam exaltados entre os partidários de Dilma e Serra, Maria da Conceição era amiga dos dois, mas não hesitava no voto. Entrevistei-a enquanto partidária de Dilma, como depois fui entrevistar Ferreira Gullar, também já com 80 anos, partidário de Serra. Ele irritou-se por achar que eu defendia Lula, ela irritou-se por achar que eu atacava Lula, ambos me suspeitavam do inimigo. No caso de Maria da Conceição, o rastilho foi a relação de Lula com Cuba. Não fôra um erro de presidente ir abraçar os irmãos Castro sem uma palavra pela liberdade? Porquê querer interceder no Irão mas não em Cuba? Um gesto de Lula não ajudaria a democratização? A insistência nestas perguntas quase acabou com a entrevista. Sim, a própria Maria da Conceição diria umas coisas aos Castro se os visse, por exemplo, que libertassem os presos políticos. Mas não julgava Lula e quem éramos nós para achar que ele não dissera nada aos Castro? Não sabemos, é um facto. Aliás, dois anos e meio depois continuamos sem saber o que Lula, então presidente do Brasil e uma inspiração para a esquerda no mundo, disse aos Castro, comandantes da mais longa ditadura latino-americana.

 

2. Voltei a lembrar-me dessa entrevista mal a blogueira cubana Yoani Sánchez pôs os pés no Brasil, na sua primeira saída de Cuba ao fim de 20 tentativas. E só posso acreditar que Maria da Conceição, pêtista dos quatro costados, tenha sentido o mesmo desconforto que o seu camarada de partido Eduardo Suplicy ao ver o espectáculo de uma esquerda brasileira que misturava autoproclamados pêtistas com comunistas de várias extracções, a bradarem “Yoani agente da CIA”, “Viva Fidel” e pérolas como Cuba ser o único país com vacina do cancro, enquanto esfregavam dólares falsos na cara de Yoani e lhe puxavam o cabelo. Eu também cortaria aquele cabelo, sobretudo num país tropical onde é difícil comprar pão quanto mais champô. Mas o que eu acho do estilo de Yoani, do cabelo ao não-sei-quê de santa, é irrelevante, ao contrário de tudo o que ela diz. Na entrevista que deu ao programa “Roda Viva”, um clássico da TV Cultura, Yoani admite que sim, recebeu uma enviada americana em casa: para discutirem o fim do embargo a Cuba. Como em relação a Lula, nunca saberemos o que foi dito. A diferença é que Yoani já falou publicamente contra o embargo.

 

3. Desde o Recife, onde ela primeiro aterrou, aos lugares por onde foi passando (Salvador, Brasília, São Paulo), estes militantes brasileiros pró-castristas nunca chegaram a ser numerosos. Mas conseguiram interromper a projecção do documentário que o brasileiro Dado Galvão fez sobre Yoani, cancelar um debate na Livraria Cultura e condicionar a agenda em geral. Fundador do PT, senador com mais de 70 anos, Eduardo Suplicy subiu para uma cadeira e tentou gritar por cima do tumulto: “A vinda de Yoani é um passo importante para acabar com o bloqueio de Cuba. Vocês não querem ouvir. Não sabem ouvir. Ela não é a favor do bloqueio. Vocês estão agindo com mentiras.” Resposta: “Suplicy traidor, mercenário!” Não faço ideia de quantos deles, se alguns, estariam ao serviço do suposto plano organizado pela embaixada de Cuba no Brasil para desacreditar Yoani, mas isso também não é o mais relevante. Muitos seriam espontâneos, e sobretudo todos, mais ou menos dirigidos, se prestaram a fazer aquele papel, dar mau nome à esquerda. A passagem de Yoani pelo Brasil trouxe ao de cima isto: a esquerda que acha que ser de esquerda é compatível com defender uma ditadura.

 

4. Na história do autoritarismo a liberdade é sempre relativa: eles não são bem livres, mas têm educação gratuita; ou: eles não são bem livres mas têm saúde gratuita; ou, finalmente: eles não são bem livres mas são iguais. Quando Moscovo ainda era URSS ouvi bastante essas várias versões, como se Tolstoi ou tomografias para todos pagassem a falta de liberdade. Mas já estava bem à vista o quanto todos não eram iguais. Qualquer relato de Cuba mostra como há prémios de bom colaborador. E acabaram há muito as injecções de dinheiro da URSS que subsidiaram saúde e educação em Cuba. Na entrevista ao “Roda Viva” Yoani pergunta: que educação e saúde gratuitas com um salário médio de 20 dólares? Quem recebe 20 dólares por mês já está a pagar muito por educação e saúde. E se sobrevive não é por causa do estado mas apesar do estado, multiplicando-se em esquemas para arranjar o que não há, incluindo envios dos parentes que conseguiram partir. O regime cubano engendra delação, corrupção, prostituição, emigração. Entretanto, navegar a sério na Internet só em hotéis para estrangeiros. E é esta a revolução fotogénica dos pró-castristas.

 

5. Eu também quero aquela Havana de carros velhos e ondas no Malecón e gente com requebrado, mas enquanto essa gente não for livre só irei a Cuba para escrever. Quando perguntam a Yoani se é de esquerda ou direita ela responde que o seu primeiro compromisso é com a liberdade. A esquerda só pode querer ganhá-la de uma forma: que o primeiro compromisso da esquerda seja com a liberdade.

 

6. O regime ter deixado Yoani sair ao fim de 20 recusas pode ser um sinal de abertura ou só uma forma mais inteligente de se perpetuar. O mesmo vale para o anúncio de Raúl Castro, de que o mandato que agora inicia será o seu último. Miguel Díaz-Canel parece ser o sucessor designado pelos castristas. Até agora, a grande novidade é que ele tem apenas 52 anos.

 

7. E o Rio de Janeiro, última etapa brasileira da viagem? Pois Yoani tomou água de coco, passeou em Copacabana, adorou o Pão de Açúcar. Um hotel de cinco estrelas ofereceu-lhe alojamento. Algum “Viva Fidel!” para quebrar o tédio, alguns cunprimentos. Nada de dólares, puxões, insultos. A verdade é que os cariocas não fizeram de Yoani um assunto. Trataram-na como se ela fosse livre.

 

(público, 3-3-2013)

2 comentários a Yoani Sánchez no Brasil

  1. Bom dia, Alexandra Lucas Coelho.
    Estava preocupado com o seu “silêncio”. Ainda bem que as suas crónicas voltaram. Não vou dizer, nem que sim nem que não. Direi que comungo de quase todas as preocupações que deixa. Liberdade? Qual, a noiva dos rebeldes na voz do poeta? Lembrei-me agora que vivo num país em que a saúde, a educação, a alimentação, a segurança social estão cada vez mais caras e não sei se me vão garantir a reforma que paguei ao longo de 46 anos. Tenho liberdade? Sim, direi que tenho uma certa liberdade. Serve-me para alguma coisa? Bem, para lhe escrever sem constrangimentos, o que já não é pouco, mas não servirá para muito mais. Para os que têm pouco, a liberdade é um problema secundário. Para os que têm muito, é um grave problema. Talvez um dia, acredito que sim, encontremos o caminho da liberdade e da justiça. Cumprimentos
    Alcino Silva

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