Tenho recebido minha “Veja” fora do plástico

1. Filme de uma rua, do Recife, de Pernambuco, do Brasil pós-Lula, “O Som ao Redor” é uma cápsula do mundo-agora. Estreou nas salas brasileiras já este ano, depois de passar por dezenas de mostras internacionais (incluindo Indie Lisboa e Guimarães Capital da Cultura), ganhar vários prémios e ser comprado para o MoMa de Nova Iorque, onde o “New York Times” o elegeu entre os destaques do ano. No Brasil, a euforia da crítica foi quase unânime, o que levou o cineasta e montador Eduardo Escorel a falar em “surto de ufanismo patrioteiro” na sua coluna (online na revista “Piauí”). Mas até as reservas de Escorel parecem mais a dúvida metódica de quem por natureza recua diante do foguetório. Tudo somado, será pacífico dizer que “O Som ao Redor” é o maior acontecimento da última década no cinema brasileiro. Caetano Veloso escreveu que não só “é um dos melhores filmes brasileiros de sempre” como é “um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo”. Uma das proezas do filme é mostrar que uma coisa contém a outra.

 

2. Podemos expandir a trama de “O Som ao Redor” a partir de qualquer ponto, como uma pedra na superfície de um lago, irradiando círculos. Por exemplo esta frase, dita numa reunião de condomínio:

— Tenho recebido minha “Veja” fora do plástico.

A cena acontece no prédio de classe média onde se passa a maior parte do filme, uma rua onde as casas já foram quase todas substituídas por prédios de 15 ou 20 andares. Os moradores discutem o que fazer com o velho porteiro do turno da noite, que há muitos anos ali trabalha mas tem sido apanhado a dormir. Um condómino pede ao filho que exiba a prova, o menino abre o seu computador, exibe o porteiro escancaradamente adormecido, de vários pontos de vista. Choque e espanto no tribunal de condóminos. Começa o diz-que-disse para o despedimento: que o porteiro está cada vez pior, que dorme a toda a hora, que já nem cumprimenta, e a mulher que ele não cumprimentou é a que explode, no clímax da indignação:

— Tenho recebido minha “Veja” fora do plástico.

O Brasil de classe média é um país com serviço completo ao domicílio: roupa, livros, comida, álcool, droga, sexo, medicamentos, água mineral, costureira, taróloga, manicure, depiladora, personal trainer, passeador de cães e, logo de madrugada, jornais e revistas embalados em plástico. Numa certa classe média, as crianças habituam-se a ter tudo o que pode ser comprado, incluindo festas com limusine cor-de-rosa. As festas, como os colégios, as roupas, os empregados, as viagens à Florida ou os terraços-gourmet fazem parte da guerra de aparências desde a infância. Nesses apartamentos faltam livros e sobram exemplares da “Veja”, revista-delatora para quem dispensa livros em geral. Ao mesmo tempo, só o condomínio custa centenas de euros, porque há que pagar átrios, jardins, piscinas, câmaras de vigilância, porteiros. Quem paga não quer a sua “Veja” fora do plástico. E orgulha-se do filho já delator.

 

3. Os críticos celebraram muito a ideia de que “O Som ao Redor” é um filme sobre a classe média. Finalmente um filme sobre a classe média depois de tanto filme brasileiro sobre o sertão ou a favela. Ou então: finalmente um filme brasileiro sobre a classe média que não é uma globochanchada, daquelas que estreiam em mil cinemas do país para sacos de pipocas GG (o equivalente brasileiro ao XL). Mas “O Som ao Redor” também é um filme sobre o sertão e a favela, e isso é parte das razões porque vale a pena celebrá-lo. Ao centrar a acção numa rua de classe média onde quase todos os prédios pertencem a um velho senhor de engenho, Kleber Mendonça Filho convoca a história colonial, a migração do campo para a cidade e os reflexos feudais que persistem no horizonte vertical do Recife. É um filme sobre a classe média porque é um filme sobre o medo da classe média, o tédio da classe média, e quem serve a classe média. Uma mulata troca a farda de empregada doméstica por uma mini-saia colante quando vai dormir com o segurança. Eles são o sertão e a favela, os filhos dos escravos e dos mortos pelo senhor. E quando caem na cama, um vulto negro esgueira-se pela casa, fantasma dos brancos, depois multiplicado no pesadelo da menina branca: negros a choverem no pátio dos brancos, como uma praga de gafanhotos. O Brasil está cheio de grades porque está cheio de medo. O mundo está cheio de medo do fim do mundo.

 

4. A chegada do segurança e seus capangas é o gancho da trama: o que vem ao de cima na vida da rua quando uma pequena milícia se autopropõe vigiá-la? O passado familiar, o vazio de um casamento, a claustrofobia de prédios que se vão colando a prédios. O mar já não se vê, bolas batem em muros, cães de guarda latem dia e noite, e o som circula incessantemente neste labirinto e na cabeça da dona de casa Bia, insone, acossada, à beira de um ataque. Ela é a grande personagem carnal do filme, a prima violenta das mulheres de Lucrecia Martel, capaz de dopar o cão de guarda, de usar a máquina de lavar roupa como vibrador e o tubo do aspirador para fumar um charro. Está na cara dela a violência de nada acontecer e toda a violência que pode acontecer. Kleber Mendonça filma-a como um thriller de John Carpenter. A tensão é a de um filme de terror.

 

5. Mas não é por acaso que tudo isto acontece no Recife, ou seja, não é por acaso que o mundo é o Recife. Além da direcção, Kleber Mendonça assina o roteiro, co-assina o som, a montagem, a pesquisa, a preparação de elenco, e a produtora é a sua mulher. O filme foi rodado em seis semanas, quase todo na rua onde Kleber mora há 25 anos, e o apartamento da dona de casa Bia é o seu próprio apartamento. Custou 1,8 milhões de reais, uma ninharia comparada com as produções globais que estreiam em mil cinemas. “O Som ao Redor” está em 11 e nas últimas contas que vi não tinha atingido 100 mil espectadores. Um filme abaixo de 100 mil não é relevante na lógica das grandes produções. Mas nenhuma dessas correu o mundo com o impacto de “O Som ao Redor”, e essa força vem de Pernambuco, como veio quase um terço do orçamento. O estado pernambucano investe mais de 11 milhões anuais em cinema. Leva várias gerações de avanço, antes de Kleber era a de Cláudio Assis, autor de outro grande filme de 2012, “A Febre do Rato”, formalmente nos antípodas mas mestre de um mesmo vigor. Aliás, o segurança de “O Som ao Redor” é o poeta vagabundo de “A Febre do Rato”, o mesmo extraordinário Irandhir Santos, actor pernambucano, como boa parte do elenco.

Tudo o que vem de Pernambuco, ou ficou impregnado de Pernambuco, parece ter esse vigor, desde o manguebeat de Chico Science & Nação Zumbi nos anos 80 ao rock-jazz-dub de 2013 que neste momento tem um festival no Rio de Janeiro, sem esquecer as crónicas de Xico Sá (como a do xodó em Recife-Olinda, que pode ser lida agora no site do Instituto Moreira Salles). Enquanto tudo o que hoje (não) chega de Salvador parece falar de apagamento, Recife é uma espécie de central eléctrica, capital cultural do mundo.

 

(Público, 24-2-2013)

3 comentários a Tenho recebido minha “Veja” fora do plástico

  1. Alexandra,
    Onde é que vc anda? Lembre-se que há gente acostumada às suas crónicas e já não passa sem elas todas as semanas.Um mês e meio de ausência, sem explicação, é muito tempo. Ainda por cima com este mau tempo que por aqui vai….precisamos que nos mande sol. Lembra-se dos versos do Chico, pouco depois de Abril? “Lá faz sol pá, cá estou doente, mande urgentemente algum cheirinho de alecrim…”… Pois agora somos nós, no minúsculo, pobre e deprimido rectângulo, que andamos carregados de maleitas e precisamos desse sol brasileiro. Aguardamos um calorzinho gostoso….

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