Carnaval off

1. Não pisei o Sambódromo, não entrei em blocos, não fui a bailes. Mas ainda não consegui deitar fora a fantasia do ano passado, quando desfilei de papa. Está no pátio à porta do meu quarto, com mitra, turíbulo, resplendor. Passo por ela todas as noites, sempre que vou desligar o gerador para dormir. Sobreviveu ao Inverno, aos 45 graus de Janeiro, às chuvas que já levaram morros, à Preta e à Bela que não páram de ladrar aos cães da casa em frente, e às noites em que a favela lança foguetes enlouquecendo a Preta, a Bela, e todos os animais do Cosme Velho. Essas noites são quase todas as noites, com pico no Natal e no Revéillon. De resto, o Cosme Velho é a melhor morada do Rio de Janeiro quando queremos viver o Carnaval e quando não queremos. Este ano eu não quis, mas hoje é terça-feira, até o papa já abdicou, e ainda não será amanhã que a fantasia vai sair daqui.

 

2. Não sou do tempo em que a Império Serrano ganhava Carnavais com sambas como “Bum bum paticumbum prugurundum”. Teria sido bom de cantar na avenida, naquela hora eterna em que o samba se repete em “loop”. Mas virei duas madrugadas com as cores da Império: em 2011 na Ala das Rosas para homenagear Vinicius de Moraes, e em 2012 na Ala do Clero para homeagear Ivone Lara. Das duas vezes, a Império lutava para sair da segunda divisão (o Grupo de Acesso) e voltar ao terreno das campeãs (o Grupo Especial). Pois no momento em que escrevo, concluídos todos os desfiles de 2013 no Sambódromo, a Império já ganhou o Estandarte de Ouro, uma espécie de Óscar do “Globo”, como melhor escola do Grupo de Acesso e é uma das favoritas para subir ao Grupo Especial. Dei mais sorte à distância, ou a fantasia deu talismã.

 

3. Em 2011, pé no chão do Sambódromo, assisti à paradinha histórica da bateria da Mangueira, aqueles incontáveis 21 segundos em que centenas de pandeiros, pratos, caixas, repiques, chocalhos, cuícas, agogôs, reco-recos e esses tambores de primeira, segunda ou terceira que são os surdos se detiveram enquanto os quatro mil desfilantes da Mangueira cantavam à capela o samba desse ano, acompanhados pelas bancadas. Em 2012, do mesmo lugar, pé no chão do Sambódromo, vi a Mangueira subir o recorde da paradinha para quase dois minutos. E este ano, a única excepção no meu não-Carnaval foi ver online a Mangueira levar não uma, mas duas baterias para o Sambódromo, alternando paradinhas entre a bateria rosa e a bateria verde. Eram 500 ritmistas na avenida, homens, mulheres, quase crianças, malucos-beleza com toda a mistura de sangues. Viver é sempre sem resposta, mas diante de uma bateria de samba não há pergunta, a vida é isso.

 

4. Perto disso, os males do Sambódromo são uma caricatura do estado da nação, como as marcas de cerveja pagarem milhões para ter no camarote uma estrela internacional daquelas que dizem que amariam ter o bumbum das brasileiras e saem ao fim das duas horas de contrato, cronometradas ao segundo. Este ano aconteceu com Megan Fox, estrela de que eu nunca tinha ouvido falar, mas parece que nisso, este ano, nem estou sozinha. De resto, por lá andaram Will Smith, Christian Louboutin e sobretudo Vincent Cassel, que está a viver no Rio com Monica Belluci, e até faz fila para comprar comida. Vincent e Monica viraram uma espécie de par real carioca: compraram casa no Arpoador, estão a fazer um filme sobre o Rio, foram ao baile do Copacabana Palace, onde aliás ofuscaram o príncipe Alberto do Mónaco. Quem quer saber de Alberto do Mónaco quando pode ter um Vincent Cassel e uma Monica Belluci? Os cariocas, que de resto gostam de achar que não estão nem aí para celebridades, sabem das coisas. Não é o Rio que vai ao mundo, é o mundo que vem ao Rio.

 

5. Mas não só nem tudo é Sambódromo, como é cada vez menos só Sambódromo: mais blocos de rua, mais gente nos blocos, mais nomes de blocos loucos, mais fantasias loucas, género sair de banheira ou vestir o próprio bilhete de identidade. O meu herói Jorge Benjor levou cinco horas da Barra da Tijuca ao Aeroporto Santos Dumont porque estavam 400 blocos na rua. E eu, que hei-de viver no Rio de Janeiro pelo menos até o ver cantar “Oba, lá vem ela”, aqui no Cosme Velho, cobardemente a salvo dos engarrafamentos. Os blocos de rua, que são a grande explosão do carnaval carioca, ainda não chegaram ao Cosme Velho, só a Laranjeiras, onde brilhou por exemplo o bloco Largo do Machado Mas Não Largo do Copo. Mas se querem nomes posso adiantar que houve inspiração amorosa para Broxadão A Hora é Essa ou Se Me Der Eu Como e no campo animal se destacaram Suvaco da Cobra, Virilha de Minhoca, Banda do Perú Pelado e mesmo Vaca Atolada dos Embaixadores da Folia.

O maior de todos, que é o tradicional Cordão da Bola Preta, levou dois milhões ao centro da cidade e ia sendo uma tragédia, com centenas de pessoas comprimidas contra as grades do Teatro Muncipal. Houve desmaios, feridos leves, crianças entregues a seguranças, carros da polícia engolidos na multidão. Não custou nada não ir, já não tinha ido em 2011 e 2012. O único bloco que me faria sair este ano era o Timoneiros da Viola, com o próprio Paulinho, lá em Madureira. Mas a alegria que foi em 2012 dá para aguentar até 2014.

 

6. Quanto a bailes, vi fotografias do pré-Carnaval dos A.B.R.A., Amigos Bandidos Residentes no Amor, e lá estava parte da Orquestra Imperial e a “mignone” Iara Rennó que há dois anos vi ficar gigante no Teatro Oficina, cantando a sua ópera “Macunaíma”. E isto convivia nos jornais com Luiz Melodia dizendo que no Brasil de hoje não arranja uma editora para gravar. E com a evocação de Cartola, o grande, evocando uma tirada de Olavo Bilac: “É claro que sou imortal. Não tenho onde cair morto.”

 

7. Será que Spike Lee vai pôr Cartola no seu futuro filme “Go Brazil, Go”? Lee veio passar o Carnaval à Bahia, chegou a casa de Gilberto Gil quando já estava a acabar a feijoada, espantou-se por o estado mais negro do Brasil quase nunca ter tido um governador negro. A propósito, João Jorge Rodrigues, presidente do bloco baiano Oludum, deu uma entrevista desancando o racismo. Quem tem dinheiro tem patrocínio, diz ele, e Salvador virou “campeã mundial de apartheid”: Carnaval da Bahia hoje é a branca Ivete Sangalo.

 

8. Entretanto no Rio, seguem os blocos. Nada se acaba na quarta-feira, nem a fantasia, nem os beijos. O big bang dos blocos trouxe o big bang do beijo na boca. Há até um protocolo do beijo de Carnaval. Agarrar pelo cabelo não pode, mas se for só surpresa pode. Casado, solteiro, divorciado, viúvo, pode tudo. E se o beijo for bom? Melhor não perguntar. Eu nem saí à rua.

 

(Público, 17-2-2013)

3 comentários a Carnaval off

  1. Alexandra, Por conta de um texto sobre David Perlov teria muito interesse em poder ler seu artigo completo sobre a Mira Perlov, publicado em 2008, no P2, ao qual só consegui acesso à primeira página. Seria possível ter acesso a todo o artigo?
    Agradeço desde já.
    Eduardo

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