Verão português

1. Uma morada em Botafogo, um nome: Audio Rebel. O táxi passa directo, volto a pé, confiro o número. É uma casa meio metida na noite. Porta aberta, gente de “long neck” na mão, uma garota a comprar bilhete “na lata”:

— Rola meia?

A frase é carioca, a “lata” é portuguesa. A garota tem de repetir com várias entoações até o rapaz da bilheteira perceber que ela está a perguntar se há meia-entrada. A meia-entrada é uma instituição carioca, tal como chamar às garrafas de cerveja “long neck”, ou passar por estudante para pagar meia-entrada. Mas a entrada para o concerto desta noite são dez reais, ou seja, 3,8 euros, é com isso que serão pagos os músicos, que também são portugueses, e hoje é 31 de Janeiro, quatro noites depois do incêndio na discoteca em Santa Maria. Lugares nocturnos por todo o Brasil estão vazios ou nem chegaram a abrir. Rodrigo Amado, saxofone, e Gabriel Ferrandini, bateria, vão tocar contra todas as circunstâncias em contrário.

A minha amiga Jaqueline veio porque os está a alojar. Quando lhe pergunto onde fica o palco, diz:

— É depois de um labirinto, no fundo do corredor, a última coisa.

Ela foi ver, voltou para trás, a tomar ar, como toda a gente. Até que aquele atraso que é outra instituição carioca se esgota, e o corredor vai escoando. Ao fundo não há propriamente um labirinto, só um “s” até uma porta de empurrar, lá dentro uma sala interior com um pequeno palco.

A casa é de 1917. Foi casa, escritório, Correios. Há sete anos os fundadores do Audio Rebel transformaram-na em loja de música alternativa, estúdio de ensaio/gravação e sala de concertos. Não dá para trazer músicos de Portugal, mas dá para receber músicos de Portugal com muita vontade de vir ao Rio.

Rodrigo Amado, também fotógrafo, já era um dos nomes convidados para a mostra de fotografia portuguesa que pode ser vista no Museu Metropolitano de Curitiba até fim de Fevereiro (juntamente com Teresa Palma, Claudia Rita Oliveira, Francisca Veiga, Helena Peralta, João Serra, Mariana Marote, Rodrigo Bettencourt da Câmara, e incluindo uma conferência de Margarida Medeiros). Apoiada pelo Ano de Portugal no Brasil, essa exposição pagava-lhe a viagem. Ele mexeu-se para conseguir concertos do duo de jazz improvisado que mantém com Gabriel. A maior rede privada de espaços culturais no Brasil, o SESC, agendou-os para São Paulo e Santos. Rio de Janeiro é uma perninha por conta deles.

E quatro noites depois do incêndio de Santa Maria, o Audio Rebel enche para os ver suar, aplaude de pé.

 

2. Sérgio Godinho não tocou, mas também veio ao Rio em Janeiro ver os amigos de sempre, a cidade mais cara que nunca, o incrível regresso de Gal Costa. Na véspera de ele ir ouvi-la no Circo Voador encontrámo-nos no Bar do Mineiro, em Santa Teresa. Íamos para uma carne seca com aipim quando entrou a portuguesa Mitó, vocalista d’A Naifa, que estava no Rio a trabalhar com o encenador português António Pires. Mitó e Sérgio conhecem-se, embora não se soubessem um ao outro no Rio, e quando ela já atacava connosco a carne seca entrou António Pires, que Sérgio não conhecia mas com quem eu fiz teatro no século XVIII, como diria a decana brasileira da crítica teatral, dona Barbara Heliodora. Sem o selo Ano de Portugal no Brasil, Pires trouxera de Lisboa para o Parque das Ruínas, em Santa Teresa, um Lorca e um Gil Vicente, e penara contra a chuva de Verão. Uma das vantagens do Mineiro é uma dose para dois sobrar para quatro. Não conseguimos acabar com o aipim, e antes de eu partir ainda apareceu o actor Ricardo Aibéo, que me escrevera meses antes sobre uma projectada odisseia náutica pelo Brasil. A última mesa do fundo era toda portuguesa, entre a trupe de Pires e quem veio para morar. Só faltou entrar a Vera Mantero, que nessa semana também estava no Rio.

 

3. Não vi mas vejo notícia nos jornais brasileiros, com carimbo Ano de Portugal no Brasil: Maria de Medeiros em cena em Brasília; Carminho a lotar outra vez o Miranda no Rio de Janeiro (com Chico Buarque e Milton Nascimento na plateia) antes de ir para o Carnaval no Recife; Rodrigo Oliveira com uma exposição numa galeria de Copacabana, o lançamento de um livro de artista e uma pintura mural no Museu de Arte Moderna de São Paulo — onde daqui a dias os fotógrafos Guillaume Pazat e Martim Ramos, da Kameraphoto, vão fazer uma série de “workshops”.

Ainda não vi notícia nos jornais brasileiros mas na segunda metade de Fevereiro o Palácio de São Clemente, que é aquela invejável residência do cônsul português no Rio, vai abrir portas a convidados em dois momentos. A apresentação de uma mostra de design português em cortiça com peças de Ana Mestre, Fernando Brízio, Luís Pessanha, Pedro Silva Dias, Sofia Dias e Toni Grilo (que pode ser vista no Rio até Março) e um concerto de Pedro Burmester, incluindo Beethoven e as “Bachianas” de Villa Lobos.

 

4. Escrevo esta crónica in extremis porque queria incluir nela a apresentação que o duo de design R2 fez quarta-feira no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, numa salinha lotada mesmo por trás da exposição de Vieira da Silva.

Os R2 são Lizá Ramalho e Artur Rebelo, vários prémios internacionais nos últimos 15 anos. Moram no Porto, a uma rua do atelier onde trabalham, num bairro de casas económicas do Estado Novo, como mostrava um dos 279 slides projectados. Difícil separar casa e trabalho quando são par em tudo e gostam tanto do que fazem. O livro de artista que também lançaram no Rio é dedicado à filha, a Matilde, que fechou a apresentação sentada ao colo da mãe, e entre os slides havia um filme protagonizado pela cadela Safi. A outra fronteira difícil, no caso deles, é onde acaba o design e começa a arte, como no caso da intervenção tipográfica na fachada da Galeria Ermida Nossa Senhora da Conceição, em Lisboa: frases em relevo cobertas com tinta fotoluminescente que se acendiam ao anoitecer. A encomenda pode ir além da encomenda e coisas nascem entre as encomendas, como daquela vez que iam a passar numa serra e viram o que parecia um “a” na beira da estrada. Era uma velha serra abandonada, mas da fotografia desse possível “a” saiu um alfabeto completo, “Letras na Paisagem”. É esse o projecto do livro, 200 exemplares com guardas antigas e uma prova escondida, custeado em parte pela Direcção Geral das Artes. Mas além do livro, ao longo dos slides, Lizá e Artur compuseram uma espécie de filme de quem são, desde referências como o designer gráfico Sebastião Rodrigues (1929-1997) às parcerias que têm feito para arquitectos como Souto Moura, cineastas como Manoel de Oliveira, grupos de teatro como As Boas Raparigas, artistas como Miguel Palma. Palma pagou-lhes com uma obra “porque já não há dinheiro em Portugal”, diz-me Lizá, antes de quase se arrepender: “Não sei se é boa ideia dizer isto, porque depois já ninguém nos paga!” Antes, a plateia perguntara pela crise, como não, e ela respondera que era um momento muito complicado mas havia muita vontade de trabalhar. Vê-se do Rio.

 

(Público, 10-2-2013)

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