Quarteto e dueto em Curitiba

Domingos tira os auscultadores, recosta-se na cadeira, eufórico: “Que legal! Já posso compor para as minhas danças!” No écrã à sua frente giram as formas coloridas do que compôs nos últimos minutos. A música sai pelas colunas, uma batida cheia de “groove”. Coreógrafo e formador de professores em Curitiba, Domingos, acaba de experimentar uma das invenções do projecto português Digitópia, integrado na Casa da Música.

Um dueto veio do Porto para dez dias de “workshops” neste Paço da Liberdade, antiga sede da prefeitura a caminho dos cem anos, o que aqui já vale como antiguidade. Curitiba é uma capital de arranha-céus, trânsito fluido, sete cores para reciclagem, com espírito de cidade pequena, branca, pouco tropical: 15 graus menos que no Rio de Janeiro.

O dueto da Digitópia — José Carlos Gomes, compositor, Artur Carvalho, engenheiro convertido a percussionista e animador, — não imaginara o Brasil assim, e com razão. A semelhança com o resto do Brasil aparece de relance, no cimo dos prédios grafitados, no mulato de cabeça caída entre canteiros de flores viçosas.

A Oficina de Música de Curitiba vai na sua 31ª edição, quinta dirigida pelo maestro português Osvaldo Ferreira, primeira com tantos participantes portugueses, por ser o Ano de Portugal no Brasil. Os “workshops” da Digitópia fazem parte do programa e não exigem dos alunos nenhum instrumento ou conhecimento musical. José e Artur trouxeram os quatro computadores que estão em cima da mesa e os cinco “iphones” que estão no chão, cercados por cinco cadeiras.

“Temos uma orquestra de iphones”, explica José, 29 anos, barba negra de respeito. “É para fazer aquecimento e experimentar processos de criação. Vamos usando um ‘software’ a cada dia e vai ficando mais complexo.” Em geral gratuitos, esses programas podem ser descarregados da Apple, no caso dos iphones, ou no site da Casa da Música, no caso do “software” para computador inventado pela própria Digitópia.

Enquanto na mesa dos computadores Artur assiste Domingos e Marilene, os inscritos desta manhã, José pega num dos “iphones” e mostra o programa “Bowls”, uma sequência de taças e sinos tibetanos que podem ser percutidos de diferentes formas apenas com um dedo.

“O fim nunca é a tecnologia, é a música”, ressalva. “Quando estivermos com músicos, vamos misturar ‘iphones’ com violinos. São processos de improvisação colectiva. Por exemplo, o que estamos a ouvir agora nas colunas é a fusão do que eles os dois estão a compôr.” Domingos e Marilene, ambos formadores de professores. O segundo “workshop” da Digitópia em Curitiba será com músicos e o terceiro com crianças e famílias. “São dez dias ao todo, sábado e domingo incluídos.” Sempre de manhã. “E à tarde temos a sala aberta ao público. Ontem tivemos isto cheio.”

Iniciada em 2007 no Serviço Educativo da Casa da Música, a Digitópia desdobrou-se em “variações de variações”. A orquestra de “iphones” é apenas uma delas. O programa em que Domingos e Marilene estão a trabalhar, “Políssonos”, tem uma relação com a matemática.

Artur, habituado a fazer isto e muito mais em bairros e contextos difíceis do Porto, põe a repórter diante dos seis círculos do “Políssonos”, cada um correspondente a um instrumento, a escolher de uma longa lista. Com um clique do rato é possível construir sequências de sons, dois, três, quatro e por aí fora, que vão corresponder a figuras geométricas (rectas, triângulos, quadrados, e por aí fora), que se vão cruzar com as sequências dos outros instrumentos, à velocidade desejada.

Fácil e com possibilidades infinitas.

“É uma relação pura com o som, não com o instrumento”, diz Artur. “Mas é possível converter a sequência composta numa partitura para ser interpretada. Também é possível jogar com padrões matemáticos.”

José já usou elementos de programas destes para compôr. “Estas coisas estão muito associadas à academia, a quem é visto como maluco. A diferença é que aqui estão acessíveis a toda a gente.”

No fim da manhã, “chill out” com a orquestra de “iphones”: cada um pega no seu, e, num círculo sentado, “iphone” ligado a uma pequena coluna em cada colo, taças e sinos cruzam-se consoante uns vão respondendo aos outros.

Ao ver tudo isto, responsáveis do SESC, uma grande rede privada de equipamentos culturais por todo o Brasil, já falaram a José e Artur numa parceria.

 

Concerto no paiol

 

Já centenário, um belo paiol de pólvora passou a ser, há 40 anos, um belo teatro de arena em Curitiba, inuagurado por Vinicius de Moraes, como lembra a placa. E esta noite, 10 de Janeiro, lotado de jovens músicos, músicos convidados e público em geral, recebe o Quarteto Lopes Graça: Luís Pacheco Cunha e Anne Victorino de Almeida (violinos), Isabel Pimentel (viola) e Catherine Strynckx (violoncelo).

“O nosso quarteto é nomeado em honra ao talvez maior compositor português do século XX, um homem muito dentro do seu tempo, que fez um trabalho fantástico a partir da música folclórica e trabalhou essas influências”, apresenta Luís Cunha. “Foi sempre muito mal querido pelos poderes, durante o fascismo foi quase impedido de trabalhar, de dar aulas, mantiveram-no num estado de semi-miséria.” Tomando o seu nome, explica ainda, o quarteto nasceu para “divulgar a música portuguesa, incluindo encomendas a jovens compositores”.

Por isso, o programa da noite, que abre com uma alegre peça do mexicano Silvestre Revueltas e segue com o Quarteto nº 4 de Shostakovich, dedicará a segunda parte ao Quarteto de Cordas de Luís de Freitas Branco, com direito a contexto histórico e biográfico.

O desfecho é tão caloroso, com o teatro de pé e aos “bravos”, que se prolonga num extra.

E no dia seguinte, às nove da manhã, já o quarteto está a chegar à universidade, para os “worshops” da manhã. Durante os dez dias da Oficina é assim, salas de aula de onde saem sons de cordas, vozes de soprano, jovens vindos de várias partes do sul do Brasil para estar ali.

É assim que Felipe, um morenão de 19 anos, t-shirt a dizer “Megadeath — rust in peace”, veio do interior de Santa Catarina, o estado vizinho, para melhorar o seu domínio do violoncelo com a sorridente Catherine Strynckx. “A gente vem desde 2008”, diz ele. “A nossa prefeitura tem um acordo com a prefeitura de Curitiba, pagam a nossa inscrição e ajudam com o alojamento.”

Felipe fala no plural porque o seu irmão gémeo Fernando está neste momento sentado na sala de Anne Victorino de Almeida, a fazer escalas de violino. “E tenho um outro irmão a fazer regência, e minha cunhada fazendo coral…”

Na aula de Isabel Pimentel, um gorducho Igor, também de Santa Catarina, faz maravilhas com a “Alemande” da primeira Suite de Bach transcrita para viola. “Menos trilo e mais nota”, aconselha Isabel. À espera da sua vez, com mais cinco alunos, está Hildefonso, que estuda no Conservatório do Rio de Janeiro e investiu 2500 reais para estar nesta Oficina e noutra que se segue.

Por isso é que o festival se chama Oficina de Música de Curitiba: “Todos os músicos que vêm fazer concertos têm de dar aulas também”, explica Osvaldo Ferreira, 48 anos, director artístico da parte erudita do festival, de 9 a 19 de Janeiro. São dezenas de concertos, centenas de músicos e 1500 estudantes ao todo, só nesta parte erudita (de 20 a 29 de Janeiro a Oficina continua com música popular brasileira).

Com formação no Porto, Londres, Chicago, São Petersburgo e Berlim, onde foi estudante de Claudio Abbado, Osvaldo Ferreira vive em Curitiba há dois anos, desde que passou também a dirigir a Orquestra Sinfónica do Paraná.

Em edições anteriores já tinha convidado professores de música portugueses, mas a participação deste ano é a mais forte. E justifica assim as suas escolhas. “O Quarteto Lopes Graça tem um grande trabalho na divulgação de autores portugueses. Quanto à Digitópia, quando ouvi falar do projecto, e sabendo que a Casa da Música o apresentara ao Ano de Portugal no Brasil, quis logo trazê-los. As novas tecnologias são cada vez mais usadas.” O Ano de Portugal no Brasil pagou as viagens, o resto ficou por conta da prefeitura de Curitiba, organizadora do festival.

Hoje, segunda-feira, o Quarteto Lopes Graça volta a tocar em Curitiba (Benjamin Britten, Lopes Graça e Henrique Oswald), desta vez com um oboísta e uma pianista, e numa capela.

 

 

(Público, 14-1-2013)

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