A diva vulgar e a voz divina

Elis Regina dizia que se Deus cantasse, seria com a voz de Milton Nascimento. Pois se Deus cantou quarta-feira no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, durante a abertura carioca do Ano de Portugal no Brasil, foi quando a voz de Milton veio ao de cima e, depois, quando plateia, balcão e galeria cantaram sem ele uma canção dele.

Remate excepcional para uma gala vulgar, começando pelos discursos do comissário e do patrocinador, e continuando com a diva Mariza, imbatível arrebatadora de aplausos no género “Olé!”.

Era uma daquelas noites em que a entrada principal parecia ter menos gente que a lateral: convidados dos dois governos, de instituições, de fundações e do patrocinador do espectáculo, a Caixa-Geral de Depósitos. Havia mesmo uma área VIP no restaurante com grande concentração de gravatas azul-celeste, como a do comissário português Miguel Horta e Costa.

“Um abraço de boa noite a todos”, diz ele ao pisar o palco, cumprimentando “este nosso querido Rio de Janeiro cheio de encantos mil”. Anuncia “um Portugal moderno, inovador” na cultura, na economia, na ciência, no desporto, que certamente “vai surpreender o Brasil”. Fala das relações históricas, de “como dizia Fernando Pessoa, a língua é a nossa pátria comum” e “como dizia Vergílio Ferreira, da minha língua vê-se o mar”, “tanto mar para navegar como disse Chico Buarque de Holanda”. Remata: “Vamos navegar nesse mar.” E chama o administrador da Caixa-Geral de Depósitos para “dirigir umas palavras”.

Nuno Fernandes Tomaz entra desenvolto, dois mil espectadores de olhos nele, teatro lotado da plateia à galeria: “Quando o meu caro amigo Miguel Horta e Costa planeou esta magnífica noite a primeira coisa que fez foi ir à Caixa Geral de Depósitos. Porquê? Porque é o maior grupo económico de Portugal. Um abraço à doutora Deborah Vieitas, nossa administradora-executiva no Brasil.” Palmas. “A Caixa mexe com as pessoas, com as empresas, com o país. E falando em mexer…” Repete “michêrr”, continua com sotaque brasileiro: “Quando eu era bem garotinho vivi sete anos nessa cidade…” E agora aqui está, “anfitrião de um dos maiores músicos do Brasil e da grandiosa diva da música portuguesa, a grande Mariza”. Remate: “Espero que vocês também se comovam e se mexam com essa noite aqui.”

 

Fado e conversa

 

A voz de Mariza aparece antes dela, no escuro: “Estás a pensar em mim, promete, jura…” Logo depois deste primeiro fado, já no centro do palco, vestido negro de cetim até aos pés, a primeira declaração: “É um pra-zer eno-rme es-tar aqui, nes-ta ci-da-de ma-ra-vi-lh-osa, o Rio-de-Janeiro, que sa-be aco-lher me-lhor que nin-guém.” Separa bem as sílabas.

No segundo fado senta-se no palco, intimista. Ao terceiro ataca o “Barco Negro” em ritmo de bateria, com holofotes a rodar frenéticos por todo o teatro, género “show” de luz & som. Volta à conversa com o público, pergunta se a entendem: “Siiiiiimmmm…” Tenta falar “brasileiro”. “Pois é. Este ano é um ano de comemorações fantásticas, Ano de Portugal no Brasil e Brasil em Portugal…” Lembra que “este ano vimos o nosso fado ser elegido Património Imaterial da Humanidade”, explica o que quer dizer fado, que alguns musicólogos acham que é um triângulo entre Portugal, África e Brasil, que em Portugal os músicos têm esse legado, mas também tentam novas formas. Até porque “Portugal não é só a mulher de bigode e o padeiro, isso já passou!”. E “apesar da economia estar um pouco cinzenta”, Portugal “é um país que está agarrado à sua modernidade também”.

De gala como se estivesse na sua sala, passeia, gesticula. Diz que “estes últimos 11 anos” de vida em que tem cantado “Portugal, o fado” lhe fizeram sentir “que a música é universal”. Anuncia que vai “mostrar porquê”. E canta o fado anterior todo em “brasileiro”: “Aqui adôrrrmici pêsádámêntchi…” A galeria onde a repórter está sentada treme com a reacção: “BRAVO!”

Segue-se uma guitarrada (destaque para José Manuel Neto na guitarra portuguesa) e Mariza convida toda a gente a cantar o fado seguinte, “Rosa Branca”. Será o mais longo momento-Xuxa da noite, com a diva a instruir o teatro por camadas, desde a galeria à plateia, franzindo a testa a uns e encorajando outros. “Como estão os meus amigos do terceiro andar?” Levanta a cabeça cá para cima. “Façam um pouquinho de barulho para a gente ouvir cá em baixo!” A galeria obedece. “E os do segundo andar?…” “E os do primeiro andar?…” “E os do rés-do-chão?…” É quase o teatro dos amiguinhos da Xuxa.

Mariza fala de uma prima nordestina, imita-lhe o sotaque. “Por isso eu acho que Portugal e Brasil não têm distância. Isso não existe. Vamos cantar todos juntos.” E abana o traseiro justo de cetim, pede palmas. “DIVA!”, grita a galeria. A repórter começa a receber sms de amigos brasileiros na plateia a pedir socorro.

Solo de bateria. Mariza prepara a despedida. Mas será apenas a primeira de várias ameaças. Tempo para um tributo: “Duas cantoras que amo de paixão…” Clara Nunes e Elis Regina. A repórter espera que a alma de Elis esteja ocupada com alguma roda de samba da eternidade, algum churrasco gaúcho. Mas o teatro: “BRAVO!” E a fadista pede mais palmas. E o teatro levanta-se. E os sms amigos: “Nunca mais acaba???”

Não. Mariza ainda conta de como começou a cantar fado na taberna dos pais, na Mouraria. “E fui cantando, cantando, cantando, a alma do povo português.” Mais: “A gente da minha terra são todos vocês, que tentam entender a cultura do meu país.” Vai para a plateia apertar mãos. Faz que sai, mas afinal volta. Apela a nova ovação. Despede-se outra vez: “Despeço-me mais uma vez agradecendo ao nosso grande banco português Caixa Geral de Depósitos.”

E ainda comete um último fado, com aquele seu jeito tudo-para-fora e em força, até que finalmente lhe vêm estas palavras à boca: “Por tanto amor, por tanta emoção…” Sim, são 21h30, passou uma hora e finalmente entra Milton Nascimento.

 

Para dentro

 

Milton avança lentamente, óculos escuros, franja de tranças. Está doente há anos, diabético, frágil. Quando chega a meio do palco, estaca, e a partir daí pouco se mexe. Mariza canta com ele “Caçador de mim”, curva-se, abraça-o. Quando a canção acaba enfim sai.

A hora seguinte será de Milton, memória viva de tudo o que ele foi na música brasileira. Em várias canções tem ajuda de coro, ajuda da banda, a voz lá no fundo, uma sombra discreta. Mas depois ele fala, quase sussurrante, o exacto oposto de Mariza, cita Adélia Prado, dá espaço aos músicos para brilharem em “jam sessions” que podiam estar num festival de jazz. E então, por momentos, a voz de Milton volta, aquela que a repórter se lembra de ouvir desde sempre, como os brasileiros neste teatro, e Elis disse que era divina.

Trazem-lhe uma cadeira, ele pede ao teatro que cante por ele e senta-se a ouvir, de mãos nos joelhos, um pouco aqui, um pouco lá. Não precisa de ensinar um verso a ninguém. A música dele está dentro da gente.

Fim apoteótico com “Maria, Maria”, de novo ao lado de Mariza.

 

 

(Público, 14-9-2012)

5 comentários a A diva vulgar e a voz divina

  1. Antes uns pastéis de bacalhau acompanhados com uns tintinhos, e Quim Barreiros no palco …
    Que piroseira lambichona.
    Se isto é Portugal …
    Isto anda tudo ligado!…

    Responder
  2. um brasileiro “standard” nunca perde inteiramente o sotaque. Atenua-se com os anos mas nunca o perde. Ainda bem.

    Um português “standard” demora dois, três dias a abrasileirar a fonética.
    Ora bom.

    Responder
  3. Saravá Alexandra!
    Brilhante artigo e mais alguém que não tem pachorra para a “diva” Marisa…
    Ressuscita, Amália!
    Impressionante como está tudo na mesma dentro da fantástica comunidade lusa de sucesso no Brasil.
    Há 10 anos morei no Brasil, onde por motivos profissionais, tinha de lidar com eles diariamente…e bem sei como são, de onde vêm e como agem…
    E, pelos vistos, continuam a falar todos à “Roberto Leâú”….

    Alexandra, por favor, continue a enviar-nos todas as semanas notícias do Brasil via “Público”. Porque ” a coisa aqui está preta..” e bem precisamos de beber, cheirar e sentir as suas palavras que vêm desse lado do Atlântico.

    Responder
  4. Há alguns anos li este texto que me pareceu acima de tudo gratuitamente ofensivo. Tentei várias vezes escrever aqui algo, mas que se pede a um Polícia que anseia tanto multar, castigar, etc, que se esquece que o principio da missão é ajudar, elucidar, esclarecer, instruir se necessário, tudo em busca de um Portugal melhor… Sim, penso que todos queremos não apenas um Portugal melhor, mas um mundo melhor, pautado não pela destruição do próximo, mas pela bondade, sensibilidade, educação e respeito.
    Curiosamente hoje escutei uma canção linda que subitamente é atravessada por um poema genial e lembrei-me deste texto…
    O coração perdoa :)
    Paz!

    “Meu coração tem um sereno jeito
    E as minhas mãos o golpe duro e presto
    De tal maneira que, depois de feito
    Desencontrado, eu mesmo me confesso

    Se trago as mãos distantes do meu peito
    É que há distância entre intenção e gesto
    E se o meu coração nas mãos estreito
    Me assombra a súbita impressão de incesto

    Quando me encontro no calor da luta
    Ostento a agida empunhadora à proa
    Mas meu peito se desabotoa
    E se a sentença se anuncia bruta
    Mais que depressa a mão cega executa
    Pois que senão o coração perdoa”

    Responder

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>