Dona Cleo começou por ler “Os Lusíadas” numa tarde

Era “uma tarde de Inverno, chuvosa, fria”. A jovem Cleonice recostou-se na poltrona e ajeitou a almofada. “Li ‘Os Lusíadas’ numa tarde de êxtase. Quando chegou no Canto VI, na tempestade, me senti embalada nas ondas, mas era a chuva lá fora.” Em São Paulo, em 1938.

“Os Lusíadas” numa tarde? “Incrível, não é? Li depressa. Estava lendo como quem devora uma história. Claro que comecei a voltar atrás, a parar.” Nem sabe quantas vezes releu, ao longo do século XX. “Foi amor à primeira vista e definitivo.” Depois desdobrado, dos cancioneiros a Saramago, fez dela a maior lusitanista do Brasil.

E esta terça-feira, dia em que completa 96 anos, várias gerações de alunos vão homenageá-la com um jantar no Rio de Janeiro. Cleonice Berardinelli, Dona Cleo, como lhe chamam os mais próximos, é carioca. Ter lido Camões em São Paulo foi uma circunstância paterna, como ela explicará, nesta outra tarde de Inverno em que recebe o PÚBLICO, nada chuvosa, nada fria, com todo o ruído de Copacabana a entrar pela janela.

“Eles abrem o chão para consertar e depois abrem de novo”, diz ela sobre a britadeira que chia, e chia, apesar de ser sábado. “Acordei com este ruído na minha cabeça.” Se não são as obras é o trânsito, um frenesim. Imaginem para quem se lembra do Rio nos anos 20. “Não havia arranha-céus. A Atlântica [orla de Copacabana] era uma linda avenida de casas apalaçadas, todas com terreno. A Barra [da Tijuca] era o fora da cidade, um passeio. E dali para lá…” Levanta a palma das mãos, como quem diz o desconhecido.

O Centro, hoje cheio de arranha-céus com escritórios, era mesmo o centro da cidade: confeitaria Colombo, rua do Ouvidor, Uruguaiana. Cleonice vivia em Botafogo, onde nascera. Do lado materno, avós do Rio e de Pernambuco, do lado paterno Sergipe e Portugal. Nada de sangue italiano: “Berardinelli era o meu marido.” Um médico de clínica geral viúvo, com quem veio a casar aos 32 anos, já professora universitária.

Foi uma menina bem-comportada, aluna de dedo no ar, de nota máxima, filha de oficial do exército. “Papai tinha livros de engenharia e coisas militares e mamãe uma bibliotecazinha sobre Napoleão Bonaparte.” Três irmãos, contando com ela. E como o pai foi transferido várias vezes, cresceram entre mudanças de casa: pântanos nos arredores do Rio, lugares altos de Minas Gerais, Curitiba, interiores de São Paulo, São Paulo-capital.

Cleonice aprendeu a ler e tocar piano antes mesmo de entrar na escola. “Com quatro anos já sabia sonetos. Papai e mamãe tomaram uma professora de declamação.” Começou a declamar para as visitas. “Nunca fiquei nervosa por falar, sempre fui muito despachada. Mamãe gostava muito de poesia e em Itu [estado de São Paulo] representei no teatrinho do quartel ‘A Ceia dos Cardeais’, de Júlio Dantas. É a minha primeira reminiscência portuguesa.”

Aos 12 anos, já sabia “uns 200 poemas”, sobretudo brasileiros. “Não havia visita que não tivesse de ouvir a menina.”

 

Entre livros

 

Encosta a bengala à parede e senta-se na sua cadeira favorita, aquela que o fisioterapeuta recomendou. Está elegantíssima, de preto, brincos de prata, verniz rosa-mate. Ninguém acredita nos tais 96 anos. Será da água de coco que bebe várias vezes ao dia?

Quando a repórter chegou ainda lanchava com um dos seus visitantes, neste caso um motorista ao serviço da Academia Brasileira de Letras (ABL) que de tanto a transportar se fez amigo. Dona Cleonice senta-se sempre à frente no carro por ser mais fácil de entrar. Foi eleita para a soleníssima ABL em 2009, o que quer dizer que agora é uma “imortal”, título a que todos os membros têm direito. Já então era professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ).

Aos fins-de-semana a família reveza-se para estar sempre alguém com ela. Este sábado é uma sobrinha atentíssima, de olho num livro, mas na verdade em nós, sobretudo quando a tia ignora a bengala.

É uma ciranda entre a sala e os livros que agora estão confinados a três lugares, por causa dos ácaros. Dona Cleonice abre uma porta onde se lê “Galeria Camões” e por baixo está a cara do próprio. Relíquias que sobraram de congressos: lá dentro é o escritório original, onde o século XVI vem dar ao XX, por exemplo, à “Saramaguiana” que são as prateleiras do seu prosador favorito. Ainda lá está a antiga mesa de trabalho, agora abandonada, por casa da alergia ao pó. Livros velhos têm isso. “Minha residência mesmo tem sido a sala de jantar.” Para onde leva o computador portátil.

O segundo lugar de livros é o corredor, com destaque para uma estante inteira de Pessoa. Dona Cleonice é autora do segundo estudo no mundo sobre o poeta, depois da tese pioneira de Jacinto do Prado Coelho, e o seu próximo livro a publicar no Brasil é uma antologia de trabalhos pessoanos. “Esta estante ficava ao lado da minha cama.” Antes da alergia. “É o autor que ocupa mais espaço na casa. O Gil Vicente não tem tantos livros, umas três prateleiras.” Gil Vicente é o objecto do seu último livro de ensaios.

Finalmente, a divisão seguinte é dedicada à literatura brasileira.

E por um triz não foi ser engenheira. Aluna imbatível a matemática, era esse o plano, não fosse um professor tê-la empurrado para Letras. Entrou na USP (Universidade de São Paulo) e então houve aquela tarde chuvosa com Camões, a conselho do seu mestre Fidelino de Figueiredo, “portuguesíssimo, anti-salazarista convicto, exilado há muito”. Era no tempo em que a USP estava “a engatinhar”, cheia de professores estrangeiros. Ao longo dos anos, Cleonice cruzou-se com Braudel, Ungaretti, Lévi-Strauss.

E chegou o dia em que pela primeira vez viu Portugal.

“Fui com o meu marido, em 1959, uma viagem de três meses pela Europa, espécie de prémio por ter preparado a tese sobre Fernando Pessoa. Fiquei 25 dias em Portugal.” Sobretudo em Lisboa. “É a cidade da minha paixão. Se tivesse de viver fora do Brasil, queria morar em lisboa, perto do mar ou à beira do Tejo.”

Depois, foram incontáveis vezes, entre incontáveis amigos. Lembra-se de passear com José Cardoso Pires e Augusto Abelaira “batendo um bom papo sobre a dificuldade de ter bons livros portugueses para dar aos alunos”. A excepção era a Livraria Camões, com o seu livreiro amigo Estrela, mas nem sempre ele conseguia as coisas a tempo. “Tive de copiar ‘Bolor’ [romance de Abelaira] e distribuir aos pedaços.” Cardoso Pires é um seu eleito. “‘O Delfim’ é um primor. E gosto muito dos contos, a ‘Carta a Garcia’.”

Entre os contemporâneos, não encontra rival para Saramago, mas apreciou Agustina. Já Lobo Antunes é caso mais complexo: “Tenho com ele um desajuste.” Desde um encontro nos anos 70. Gonçalo M. Tavares ouviu falar “muito bem” mas ainda não leu. Quanto a poetas, a última de que gosta “sem restrições” é Sophia de Mello Breyner Andresen. “Sou admiradora daquele surrealista, Herberto Helder, mas gosto mais dos contos, que são excelentes. Tem um chamado “O Celacanto” [no livro ‘Os Passos em Volta’] que é um primor.”

Um dia houve a surpresa heterodoxa de Adília Lopes. “Uma aluna pediu-me para orientar uma tese sobre ela. Eu disse: ‘Pode ser preconceito, mas ela me agride com aquelas coisas brutais.’ A minha aluna insistiu para eu ler. E sabe que fiquei conquistada? Acabei fazendo as pazes com Adília.”

Por ordem cronológica, o canône de Dona Cleo será assim: “Dom Dinis, grande, mas grande poeta. Gil Vicente, Camões. Padre António Vieira. Bocage. Garrett. Eça de Queirós. Antero de Quental, uma das minhas profundas paixões. Camilo Pessanha, uma obra curta mas que trouxe uma novidade grande. Fernando Pessoa. Almada Negreiros. Mário de Sá Carneiro, o prosador e o poeta.” Como professora nunca avançou muito pelo século XX porque alguém tinha de cuidar dos antigos, e os alunos que formou foram tratando das novidades.

Mas por estes dias está a ler o último livro de Nélida Piñon e quer ler a “Sagrada Família”, primeiro romance do jornalista veterano Zuenir Ventura. Católica convicta, continua a sair para a missa de domingo, onde gosta de conversar com o padre, homem “muito inteligente, arejado”. E a sair, em geral. Esta terça à noite, por exemplo. “No dia em que diminuir o meu ritmo, estou morrendo, estarei me sentindo oca, sem amanhã.”

 

 

(Público, 28-8-2012)

3 comentários a Dona Cleo começou por ler “Os Lusíadas” numa tarde

  1. Como seu ex-aluno desde 1966 (Graduação), 74 (Mestrado) 88 (Doutorado) e, a seu convite, dede 1969 seu colaborador e colega, pude constatar ainda ontem no jantar em sua homenagem até boa hora da noite que o vigor dessa elétrica nonagenária é invejável. E a literatura portuguesa é no Brasil o que de muito por ela Dona Cleo fez e faz.

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