A bandeira olímpica já foi ao Complexo do Alemão

“É lá em cima”, responde um rapaz, antes mesmo da repórter perguntar. Nove da manhã e o sol já queima. Subindo, abre-se uma clareira: Praça do Conhecimento, diz a placa num dos dois edifícios novos; o outro, ao lado, é o Cine Carioca.

Estamos em Nova Brasília, uma das favelas do Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro. Dezenas de crianças esperam sentadas no chão, em frente a um podium, vestidas com os uniformes da escola pública, palas com o símbolo olímpico, bandeirinhas olímpicas na mão. Em volta, dezenas de pessoas de pé, também com bandeirinhas olímpicas, também à espera. E a Banda da Guarda Municipal a tocar Tim Maia, ícone imortal da “soul” brasileira.

O que toda a gente espera é a chegada da bandeira olímpica, que segunda veio de Londres com o prefeito Eduardo Paes, terça foi a Brasília visitar a presidente Dilma Rousseff, e nesta quarta vai atravessar periferias do Rio até ao Palácio da Cidade, onde ficará exposta até o Pavilhão Olímpico estar pronto.

O percurso começa aqui, neste complexo de favelas que as tropas de elite tomaram no fim de 2010, com a televisão a cobrir em directo a fuga dos traficantes. Aqui mesmo, nesta praça, funcionava uma “boca de fumo”, ou seja, um ponto de venda de droga. A conquista policial não acabou com a droga, mas acabou com a ostentação armada. E veio a Praça do Conhecimento, com aulas e computadores, e o Cine Carioca, trazendo o grande écrã para a favela.

Contornando as crianças, fica à vista uma fachada azul, com uma grande cara de Einstein grafitada e a legenda E=mc2. Esta é a vista de Ildo, morador vestido com a camisa amarela da selecção brasileira, encostado à porta da sua tasquinha. “Isso tem uns dois anos”, diz, apontando os edifícios novos.

A banda muda de Tim Maia para samba. Algumas portas adiante, a negra Belarminda, 62 anos, encosta-se à sombra, bandeirinha na mão. “Estou achando óptimo. A gente não pensava que ia ter isso assim. Muita gente usa o cinema. Às vezes já não tem ingresso para amanhã, fica esgotado. E sexta-feira isso fica igual que está aqui, as crianças brincando. Só falta brinquedo para criança menor, um balanço.” Como no Brasil chamam aos baloiços. O bicicletário, bem atrás da plateia de crianças com bandeirinhas, chegou antes. “E à noite os meninos soltam pipa.” Como no Brasil chamam aos papagaios de papel.

Belarmina não só é muitas vezes avó como vai ser bisavó em breve.

As autoridades continuam sem chegar. O prefeito, informa a sua assessoria, ficou retido por um protesto de motoristas de “vans”, as carrinhas que asseguram muitos percursos na cidade. Mas o governador Sérgio Cabral vai aparecer para a cerimónia.

Wellington, 30 anos, filho da favela, observa a multidão à porta do cinema. É ele o director, e tem os números na ponta da língua. “Inaugurámos dia 24 de Dezembro de 2010 e temos a maior taxa de ocupação do país. Cinema 3D por quatro reais e todos os dias! Nós acreditamos que seja o primeiro cinema do planeta numa comunidade que era superviolenta.”

Mas de repente, há 15 dias, depois de quase dois anos de tranquilidade, uma mulher polícia foi morta aqui. “Também morre policial em Copacabana, acontece em todos os lugares”, relativiza Wellington. Esse episódio, diz, foi isolado e não afectou em nada a frequência do cinema. “Vem gente do Méier, de Belford Roxo [outras periferias] porque o cinema aqui é mais barato do que o estacionamento no shopping.”

 

Bandeira na caixa

 

9h50. Dois atletas olímpicos, medalhas de bronze e prata ao peito, passam até ao podium. São os irmãos Esquiva e Yamaguchi Falcão, boxeurs campeões. A multidão aplaude. Mesmo ao lado da repórter, um rapaz de braços musculados fotografa com o telemóvel. “Sou o irmão deles, Estivan.” Duas raparigas em frente sorriem: “Ele luta igual ao Esquiva e ao Yamaguchi.” Está a preparar-se para 2016. E elas quem são? “Somos as mulheres do Esquiva e do Yamaguchi.” Foram todos de São Paulo para Brasília. “Tivemos encontro com a Dilma”, contam, radiantes, batons cor-de-rosa choque.

Foi lá em Brasília que o protocolo se quebrou, quando não apenas Esquiva Falcão como a própria Dilma pegaram na bandeira de seda sem luvas, contrariando as indicações do Comité Olímpico Internacional. A cena passou-se dentro de uma sala, mas em todas as cenas exteriores a regra é que a bandeira se mantenha dobrada e dentro de uma urna de madeira.

E é assim que ela está a chegar agora, trazida pelo governador Sérgio Cabral e sua comitiva. Atletas e autoridades juntam-se no podium enquanto a orquestra da organização não governamental AfroReggae ataca esforçadamente o “Andante Festivo” de Sibelius. Meninos e adolescentes vindos das favelas com contrabaixos, violoncelos e violinos debaixo do sol.

Depois, são hasteadas a bandeira do Brasil e uma cópia da bandeira olímpica, a banda lança-se no hino nacional e Cabral posa com as crianças e a urna da bandeira original. “Já mora no Rio de Janeiro, cara!”, proclama o governador, batendo palmas com um menino. Faltam exactamente quatro anos para os Jogos. “Ci-da-de Maravilhosa”, começa a banda. As crianças acompanham.

D. Irene observa tudo do seu Armarinho, uma espécie de Loja dos 300. “Se a polícia ficar aqui, vai ser bom. Se não, vai tomar conta quem já estava.” O tráfico. Está satisfeita, então? “As coisas estão outra coisa. Estamos no reino da Glória.” Católica empedernida, do Complexo do Alemão.

 

(Público 16-8-2012)

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