Família de Jorge Amado espera que Portugal ajude no renascer da sua casa

Paloma Amado, filha de Jorge Amado, acaba de voltar de Berlim. “Ia para Salvador esta noite mas desisti, vou amanhã”, diz, ofegante, quando liga o Skype para falar ao PÚBLICO. “Tinha 15 pedidos de entrevistas urgentes no meu email.” Este é o único a que está a responder, e há uma razão de actualidade: hoje, dia em que Jorge Amado faria cem anos, a família organizou um grande pequeno-almoço na casa de Salvador da Bahia onde o escritor viveu, e além da ministra brasileira da Cultura, e do governador local, estarão presentes o secretário de estado português da Cultura Francisco José Viegas, e o arquitecto português que propôs um projecto de renovação, Miguel Correia.

A casa ganhou o nome do bairro: Rio Vermelho. Aí viveram Jorge Amado e Zélia Gattai até ele morrer, em Agosto de 2001. “Um ano depois, eu e meu irmão convencemos mamãe a sair para fazer da casa um lugar de visitação”, conta Paloma. Pediram ajuda aos poderes públicos para obras, subsídios, isenções. “Era o governo do PT e o ministro era o Gilberto Gil. Para grande surpresa não tivemos resposta. Fiquei à frente desse projecto seis anos e não consegui nada dos governos estadual, federal e municipal. Pelo contrário, só atrapalharam.” Por exemplo: “Consegui um apoio na Galiza, iam dar o que o Brasil não deu, e o governo da Bahia conseguiu estragar os contactos.” Isto aconteceu “há uns cinco anos”.

Paloma fecha a porta do quarto por onde entra a animação de Felipe, filho da sua filha Cecília que adaptou “Capitães da Areia” ao cinema. “Ele está assistindo às Olimpíadas e está a mil.” É uma família unida, toda empenhada no renascimento da Casa do Rio Vermelho. “Raras vezes vi mamãe chorar. Quando meu pai morreu ela se trancava no banheiro para chorar.” Mas a indiferença do governo brasileiro fê-la chorar. Costumava dizer que não morria enquanto a casa não virasse um museu. “Acabou morrendo [em 2008]. E para mim, e para o meu irmão João Jorge é uma tristeza infinita. Eu disse para ele: ‘Vamos vender a casa. A gente cava a terra em volta da mangueira e acaba com essa tortura diária.’”

É que as cinzas de Jorge e Zélia estão enterradas debaixo da grande mangueira do jardim. A Casa do Rio Vermelho é tudo isso. “As cinzas do papai vieram numa caixinha de madeira. As da mamãe já vieram numa fibra facilmente absorvida pela terra. Antes de as enterrar a gente cavou para ver o que restava da caixinha. E não tinha nada, já estava tudo integrado. Botámos mamãe ali, certamente se desfez também.”

Nos anos seguintes pediram que a casa fosse classificada — tombada, na expressão brasileira — pelo património da Bahia. “O governo do estado dizia que não tinha valor. Uma casa com cerâmicas de Picasso incrustradas na parede. Estão lá. E nem que não existisse Jorge Amado: é uma casa interessantíssima, feita de adobe, e por isso muito frágil.”

Os irmãos avançaram para um leilão. “João me convenceu a leiloar parte da pinacoteca do papai para as obras necessárias a que a casa não caísse. A maioria era pintura brasileira, coisas importantes que estavam no apartamento do Rio de Janeiro. Não as do Rio Vermelho, que estão bem escondidas, porque já tentaram transformá-las em património da Bahia, quando é nosso. Queremos que continuem na casa, como um museu.”

Tal como o jardim continua. “É um terreno de mais de 5000 metros quadrados, todo plantado pelos meus pais, que mantemos do jeito que deixaram, com um Exu de ferro segundo os ritos do Candomblé, a mangueira com os banquinhos onde eles se sentavam, o jambeiro que solta flores com um pelinho quase fúsia, deixando um tapete cor de rosa maravilhoso.”

Quando, fartos de esperar, os irmãos quiseram cancelar o pedido de tombamento, “o governo decidiu tombar no dia seguinte”, mas “até hoje isso não foi efectivado” e “o património passou a ir uma vez por mês tentar embargar as obras”.

Aqui chegada, Paloma quer distinguir entre o comportamento dos governantes e o do povo da Bahia. “O maior prazer do meu pai era andar pela rua e ouvir: ‘Diga aí, Jorginho…’”

Ponto da situação: “Um arquitecto português nos presenteou com um lindíssimo projecto transformando a casa em museu sem modificar a coisa original.” Paloma liga para o sobrinho em Salvador a confirmar o nome do arquitecto: Miguel Correia.

É este sobrinho, João Jorge Amado Filho, que lidera a luta pela casa, lá em Salvador. “Decidi o café-da-manhã em conjunto com o Miguel Correia para a gente apresentar o projecto”, explica ao PÚBLICO por telefone, especificando que foi o arquitecto a convidar Francisco José Viegas. “Espero que com o secretário português aqui o governo do estado [da Bahia] tenha noção da importância da obra do meu avô para o mundo.” Além dos governantes estarão “amigos da família, alguns artistas, ao todo 70 pessoas”. O pequeno-almoço vai acontecer na varanda da casa. “Na sala passamos o vídeo com o projecto museológico.” Mas de onde veio a iniciativa? “O contacto partiu do Miguel Correia, através do governo português”, diz este neto. “Ele me ligou, veio ao Rio Vermelho e a gente desenvolveu o projecto.” Orçado em um milhão de euros e com possibilidade de ficar pronto em 2013, segundo o gabinete do arquitecto. Falta conseguir quem pague.

Paloma está a torcer para que as autoridades brasileiras despertem. “Na semana passada, a Sónia Braga, que é minha irmã, amiga profunda da vida inteira, lançou um pedido aos senadores baianos para que se empenhem. Não sei no que vai dar.”

Entretanto, o centenário explode em acontecimentos e edições. “Está tendo uma repercussão incrível, coisas que você não imagina pelos interiores do Brasil, em toda a parte”, diz Paloma. “E Portugal está se superando, apesar dessa crise bárbara. Os portugueses são muitos amigos do meu pai, ele chegou a procurar uma quinta em Azeitão para comprar. A Fundação José Saramago está fazendo coisas todo esse mês. Minha filha Cecília foi lá lançar o filme. Em Novembro temos um colóquio maravilhoso, com coisas tão bonitas. O Bochechas [Mário Soares], eu, a falar de afectos, tudo bem Jorge Amado.” Então, “vai ser a partir de Portugal, com toda a dificuldade em que está, que vamos fazer a nossa casa funcionar”, espera Paloma.

“Se nada der certo, vou morar nela e posso abrir duas vezes por semana a quem quiser. Mas acho que não vamos precisar chegar a isso, não.” Ela quer pôr uma das máquinas de escrever do pai em cima de uma mesa, deixar que as pessoas escrevam algo. Conta histórias que não cabem aqui, e ainda esta que Jorge Amado contava: “Um escritor está deitado na sua varanda, vem uma pessoa e diz: ‘Descansando?’ E ele: ‘Não, trabalhando.’ Depois o escritor está agachado a cuidar do jardim. A pessoa vem e diz: ‘Trabalhando?’ E ele: ‘Não, descansando.’ Então eu quero que as pessoas vejam o lugar em que ele descansava e trabalhava e namorava com a minha mãe, debaixo daquela mangueira.”

 

 

(Público, 10-8-2012)

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