Rio, beleza com a mão do homem

Cinco cariocas — Chacal, Ruy Castro, Luiz Camillo Osório, Gabriel Cavalcante e Manoel Ribeiro — escolhem cinco lugares da paisagem que a UNESCO declarou Património da Humanidade

 

1. Lago das Fadas, Floresta da Tijuca

 

Manoel Ribeiro, pioneiro da intervenção arquitectónica nos morros cariocas, tem em mãos a renovação de dez favelas, conhece cada canto da cidade. Quando o PÚBLICO lhe ligou ontem, depois da paisagem do Rio ser declarada Património da Humanidade, estava dentro de um autocarro e nem hesitou. Se era para escolher um lugar, escolhia a Floresta da Tijuca, de onde a cidade brota, a cada túnel, a cada curva.

“É a maior floresta urbana do mundo, lá dentro tem uma porção de recantos extraordinários e um deles é o Lago das Fadas, onde se plantaram eucaliptos. Então as árvores emergem da água, grossas, centenárias, plantadas numa terra submersa pelo major que fez o reflorestamento da floresta.”

O major Manoel Gomes Archer, em meados do século XIX. “Esse lugar era uma fazenda de café, o major e três escravos é que reflorestaram tudo. E o lago tem um clima muito mágico, um bosque a sair da água. O que eu fazia muito era ficar sentado lá, na borda. Pela manhã tem muita névoa, fica aquela camada de dois metros que no decorrer da manhã se vai dissipando e o lago se revela.”

 

2. Espaço Cultural Sérgio Porto

 

Poeta, performer, agitador cultural, Chacal é um ícone carioca desde os anos 70. Muito prazer em falar, sim, mas não para escolher um lugar natural. “Se Património da Humanidade é só beleza natural, estou fora”, diz. “Estou cansado de beleza natural. Fica parecendo que o Rio é só um balneário de turismo, e de turismo sexual. Quando os artistas da cidade são muito interessantes. Eu quero essa cultura viva que se manifesta na rua, na praia, nos lugares. Poderia dizer que o melhor lugar do Rio é a Quadra [de Samba] da Mangueira, mas já a frequentei há muitos anos e ficou uma coisa muito turística. Então o meu lugar do Rio é o Espaço Cultural Sérgio Porto.”

Um teatro no bairro Humaitá onde Chacal organiza regularmente o seu histórico CEP 20 000, Centro de Experimentação Poética, com poesia, música e vídeo. “Um espaço não institucional, onde você se sente à vontade, como já foi para mim o Parque Lage.”

Antiga propriedade de família com palacete e jardim, o Parque Lage abriga hoje uma escola de artes e foi cenário por exemplo do filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha.

 

3. MAM/Aterro do Flamengo

 

Curador do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro e grande torcedor de futebol, Luiz Camillo Osório hesita em falar do Maracanã, agora em obras para o Mundial de 2014. “Tinha uma energia única. Vou muito a estádios pelo mundo e o Maracanã é muito especial, tomara que não destruam.” Mas como “já fica caricato carioca falar de futebol”, acaba a falar do MAM e desse seu entorno que mudou o Rio de Janeiro, quando as autoridades decidiram derrubar um morro e com essa terra aumentar a orla ao longo da Baía da Guanabara, nos anos 60: o Aterro do Flamengo.

Aí nasceu o MAM, arquitectado por Affonso Eduardo Reidy. “É um projecto que junta o construído e o natural. Os pilotis [pilares onde assenta o edifício] da arquitectura moderna tinham isso de fazer a brisa circular entre os prédios numa cidade tropical. Depois começaram a construir os prédios colados uns aos outros sem pilotis e a cidade esquentou muito. A estética tenebrosa dos anos 70 para cá perdeu a noção de construção integrada na paisagem.”

Como é o MAM. “Os jardins do [paisagista do Aterro] Burle Marx buscam criar essa articulação com a Baía de Guanabara, o Pão de Acúcar, o centro da cidade, que era o pólo principal do Rio. Então o MAM estava integrado na natureza e na paisagem, com um vocabulário arquitectónico muito ousado. O concreto [betão] é concreto, mas tem uma sinuosidade feliz, tem cheiro do mar, tem vento. Podia ser a grande utopia do Rio de Janeiro.”

 

4. Rua do Ouvidor

 

O afortunado que aos sábados à tarde caminhar pelo belo-velho centro do Rio há-de dar com uma roda de samba ali por alturas da Rua do Ouvidor. No meio estará um cavaquinista e cantor de apenas 26 anos, Gabriel Cavalcante, carioca da Zona Norte, conhecedor como poucos dos velhos mestres. Então, este é o lugar património da humanidade para ele: “A Ouvidor, que era o centro do Rio, está a viver um momento maravilhoso hoje, com a revitalização de todo aquele espaço”, diz. “Eu vou beber cerveja naqueles bares, compro um livro na [livraria especializada em temas cariocas] Folha Seca, pego um ônibus e estou na Zona Sul, pego um ônibus e estou na Zona Norte.”

E nos sábados em que há roda, senta-se durante horas, com centenas de pessoas em torno dele e dos músicos que o acompanham. “Quando a gente se senta parece que está voltando a um passado que o Machado de Assis frequentava, o Carlos Drummond de Andrade frequentava. E a gente está fazendo sambas antigos, dos anos 20, 30, dos compositores que não são mais lembrados, então é como uma troca. Sinto que rola um contacto muito grande com o Pixinguinha, o João do Rio. A gente está dando continuidade a uma história que foi interrompida.”

 

5. A mão do homem

 

Grande cronista do Rio de Janeiro, Ruy Castro começa por falar na Floresta da Tijuca, quando o PÚBLICO lhe pede que escolha um lugar da paisagem carioca. Mas o melhor que podia dizer sobre a floresta disse no livro “Carnaval no Fogo” (editado em Portugal na ASA), e além disso Manoel Ribeiro já aqui falou da floresta.

Então, em vez de um lugar, fala do que há em comum entre todos os lugares. “Todos os cartões postais do Rio, qualquer um que qualquer pessoa citar, Lagoa, Copacabana, Gávea, Jardim Botânico, todos têm a intervenção do homem. O Rio não é um espaço de natureza intocado. O homem aqui participou de tudo.” E participa. “Cidades à beira-mar, você tem muitas. Mas qual é a cidade à beira mar que é uma metrópole de seis milhões com serviços que funcionam o ano inteiro, não apenas no Verão? E isso não é de hoje, vem da história. Pense em Ipanema: onde é que tem uma vida tão efervescente a uma quadra da praia? E tanto tinha um grande cronista como Rubem Braga como o pescador que sabia ler a direcção dos ventos.”

 

(Público, 3-7-2012)

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