Revista ao vivo do comportamento brasileiro

1. Eu achava que eles iam falar sobre o Rio, mas do Recife ao Oriente rolaram poemas, peças, trailers, trilhas, histórias de pé-na-bunda, como a do homem que não amou Clarice Lispector. Então ao fim de três horas achei que sim, tinham falado do Rio, cidade que não vai à montanha porque a montanha vai a ela, onde um poeta de camiseta pop diz que não lê poesia, depois lê o que escreve e desarma a europeia. Ah, velho mundo, mau sangue, habituado à tradução: pé-na-bunda foi o que levou Soror Mariana e camiseta é t-shirt com outra métrica.

 

2. O convite dizia “De modo geral: revista ao vivo do comportamento brasileiro”, fechando uma semana de encontros na Casa da Gávea a propósito da Rio+20. Quase nada do que se segue tem a ver com a Rio+20, fora a parte em que a quadrilha de colunistas fala dos índios, do trânsito e do Rio estar uma merda. Seja como for não parem de ler: ao menos por uma noite eles são os últimos dos duros, no sentido do faroeste e de não ganharem um tostão.

Invenção de Paulo Scott, escritor gaúcho radicado no Rio, esta revista ao vivo estreou em 2008 num bar de Botafogo que depois fechou e em 2010 mudou-se para a Casa da Gávea, a convite do director Paulo Betti. Entre um espaço e outro, como nunca houve orçamento, táxis de convidados, comes, bebes, até sistema de som, saíam do bolso de Scott. Era parte de uma lógica militante, diz ele, ter um debate no Rio com carácter político, independente das políticas culturais. Um carácter que é possível reconhecer em “Habitante Irreal”, seu último livro, actual finalista do Prémio PT, e o romance brasileiro que mais me impressionou desde “Pornopopéia”.

 

3. Como a Casa da Gávea fica na grande concentração de copos da Zona Sul, o convite dizia 20h30 para a plateia chegar às 21h, e às 21h Scott andava cá fora a caçar os colunistas da quadrilha: João Paulo Cuenca (veterano), Ramon Mello e Fred Coelho (novos reforços). Três cariocas capitaneados por um gaúcho não será detalhe. Ainda que troque Porto Alegre pelo Rio, gaúcho é o forasteiro que pode dizer aos poetas cariocas como eles não dialogam com os paulistas nem entre si, à excepção desse ícone em livre trânsito desde os anos 70 que é Chacal.

A plateia lota o balcão. O fundo de cena é um ecrã gigante. A um canto do palco, com som e computador online, Scott apresenta os primeiros convidados, o paulista Marcelo Montenegro e a “musa punk de Porto Alegre” Ariela Boaventura. Ela abre um livro escrito entre o fim de um casamento e o início de outro, nada contra o casamento, só contra a monogamia.

— De repente com três pessoas, quatro…

Montenegro não traz livro, sabe de cor.

Para onde vai tudo o que fazem?, pergunta Scott, porquê tudo isso?

Então Ariela diz como Rilke diria, se falasse gaúcho:

— É uma doença que tu tem. Tu faz porque tu precisa fazer.

 

4. Cá vem a quadrilha, Cuenca a abrir, armado com garrafa de vinho:

— Quero louvar a força de Paulo Scott, um homem com uma barba que mais parece um líder comunista, que vem desse outro país que é Porto Alegre e já funda uma tradição cultural no deserto que é o Rio de Janeiro — começa, antes de passar à revista dos últimos acontecimentos, nomeadamente trauma-e-superação da perda do seu telemóvel inteligente numa viagem a Barcelona. E a propósito de viagens, põe Scott a pescar no Youtube um vídeo da série oriental “Nada Tenho de Meu”, de que é co-autor com Miguel Gonçalves Mendes e Tatiana Salem Levy (ver PÚBLICO online).

Já Fred Coelho, o segundo colunista, mostra num minuto como o mundo de repente parece velho, incluindo “impeachment” na América Latina, e da Rio+20 fica a imagem dos seguranças de um banco a fugirem de um índio com arco-e-flecha; a pobreza do alojamento no Sambódromo; a cidade engarrafada até à Copa, às Olimpíadas.

— Queremos essa sucessão?

Foi Fred, ensaísta DJ, cabeça de mil antenas, que num texto co-escrito há anos inspirou o “Poema atravessado pelo manifesto sampler”, de Ramon Mello, colunista seguinte:

 

a verdadeira história da literatura
uma história de ladrões

 

Para o ler na íntegra, Ramon abre o seu livro “Poemas Tirados de Notícias de Jornais”, acabado de publicar.

 

5. No écrã sucedem-se agora imagens da peça “Os Mamutes”, de Jô Bilac, dramaturgo-cometa na cena carioca. Ele não está, mas encenadora e protagonista descem ao palco para falar. Depois vem o trailer de “A Febre do Rato”, de Cláudio Assis, filme que acaba de estrear e a polícia tentou impedir na rodagem, tão real era a acção, lá no Recife. Tudo o que dele se diz parece confirmar que Pernambuco existe para assombrar o Brasil.

 

6. O poeta de camiseta pop chama-se Botika, o livro que ele traz chama-se “Búfalo” e está publicado em Portugal. Não sei como é que um poeta que diz que não lê poesia escreve algo tão firme, mas talvez nada seja tanto a cara do Rio de Janeiro como isso, incluindo a camiseta, pop na cor mas com a cara de um querido amigo morto. Nada é tão carioca como fazer a dor dançar sem mostrar que custa. O primeiro livro de Botika, aliás, nasceu de um pé-na-bunda.

 

7. — O que não faz um pé-na-bunda na vida de um homem — comenta Cuenca, aproveitando para informar que não só o vinho acabou como já não há cerveja. Para compensar tem duas sacadas (em Portugal, desarrincanços), primeiro quanto à dificuldade que é, para quem escreve, contrariar o lirismo da língua portuguesa, depois quanto à homogeneização da Zona Sul:

— O Rio está uma merda, vamos embora.

E investe contra o prefeito Eduardo Paes e o milionário Eike Baptista que estão a expulsar os negros e os pobres do centro, e a favela do Vidival que vai virar uma Santorini com pousadas francesas, quando a coisa melhor dessa cidade é o ruído entre o branco e o negro.

— Vão acabar com o Rio de Janeiro.

Ramon revira os olhos mas o capitão apita, sobe o som para calar a quadrilha, ainda tem gente a chamar.

 

8. Não tendo eu tanto espaço, cabe dizer que, já a caminho da meia-noite, a editora Valéria Lamego abriu um oásis para Lúcio Cardoso, romancista, contista e cronista “gay” que foi a grande paixão não-consumada de Clarice Lispector. Quase incógnito em Portugal, também não é centro dos acontecimentos no Brasil, onde muitos textos seus nunca sairam em livro, é nisso que Valéria trabalha. Mas restam sobreviventes na plateia quando Scott fecha com um poema de Paulo Henriques Britto. Não era exactamente este, fica para a troca:

 

Venham, que a noite é sólida e solícita,

E aguarda apenas o momento exacto

 

(Público, 1-7-2012)

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