Ulysses no Rio (ou o dia seguinte)

1. 19h era a hora marcada mas ainda faltavam uns minutos quando Caetano W. Galindo entrou na sala, agarrou o microfone e decidiu falar de pé. Não sei o que achei mais extravagante do ponto de vista do Rio de Janeiro, ele estar adiantado ou a plateia estar cheia. É que ele é curitibano, gente mais que pontual. Já a plateia, caramba, era carioca.

 

2. — Traduzi outros 19 livros normais mas o “Ulysses” é algo de cardíaco — começa Galindo, sem casaco, sem gravata, sem ar condicionado, e pensem num ritmo de comediante a aquecer. Mil páginas de “Ulysses” somadas a um milhão de páginas sobre “Ulysses” não chegam para esmagar o Brasil, país capaz de traduzir três vezes o “Ulysses” e rir melhor por isso. As montras estão cheias desta nova tradução (Companhia das Letras), que entretanto trepa pelos “tops”: vendas, nada a ver com literatura. Certo, ninguém lê neste país, mas alguém, mais alguém de cada vez, vai ler. E é para esses que Galindo aqui está. Parte do princípio de que quem veio ainda não leu.

— Façam sinais discretos, barulhos de náusea, se não for esse o caso.

 

3. A fala de Galindo acontece na livraria Travessa do Shopping Leblon.

— Há muito melhor para fazer no Rio num domingo — lança  ele.

— Não num shopping — devolve alguém na plateia.

Sobretudo não num 17 de Junho como hoje, dia seguinte àquele que demora mil páginas a passar no “Ulysses”, hoje conhecido em todo o mundo como Bloomsday. O nome vem do protagonista, Leopold Bloom, mas é também um trocadilho com Doomsday, lembra Galindo. Em vez de juízo final, celebração da vida. E quanto a isso (floração incluída), a Dublin de 1904 engata bem no Rio de 2012.

Joyce escolheu 16 de Junho por ser o dia em que passeou pela primeira vez com Nora, sua mulher. Talvez ela o tenha masturbado. Certo é que para ele ficou como um antes e depois, enquanto ela nem fixou a data.

— Nora não dava a menor bola para a produção literária — resume Galindo. — Era uma figura muito estranha no meio, mas possibilitou uma vida para ele.

“Estou como um cretino a ouvir-te chamar-me querido”, escreveu ele numa das primeiras cartas a Nora, e por aí vai, desarmado.

Então 16 de Junho é esse dia ampliado para mil páginas, “o dia mais conhecido de toda a história da literatura”, diz o tradutor, o que faz de 17 de Junho “o dia mais irritantemente desconhecido da história da literatura”.

— Quando estou mal humorado penso: “Desgraçado, que não escreveu de vez a história do dia 17.”

Por isso, o título da fala de hoje é “O dia seguinte”. Mas como ninguém pode dizer muito sobre o vazio que se segue à vida, voltamos à vida.

 

4. — Que diabo é esse livro? É sobre algumas pessoas em algumas situações: personagens envolvidas em um enredo. Que personagens? Três centrais, mas ao todo centenas. Estou quebrando a minha cabeça com um texto em que tento determinar quantas.

Há umas que são duas, outras que existiram de verdade, outras que são só um cartaz. E o sabonete que fala? E o botão do fato?

— O “Ulysses” está cheio de pequenas odisseias, personagens que aparecem na página 20, voltam na 250 e na 470.

Tal como certas palavras, nós para o tradutor amarrar, se ficar esperto.

Calhou a este tradutor achar-se com a mesma altura, o mesmo peso e, no fim do caminho, os mesmos 38 anos de Leopold Bloom, esse mal sucedido agente de publicidade sobre quem, ao longo de um longo dia, acabaremos por saber tudo.

— Bloom é triste e engraçado, grandioso e mesquinho. É o ser humano mais completo da literatura que eu conheço. Pai, filho e marido, um homem em todos os seus papéis.

Ao contrário de Cristo ou Hamlet, como distinguia Joyce, que não passaram por essa experiência complexa de viver com uma mulher.

— Bloom tem até dor de cabeça de 28 em 28 dias.

A sua Nora é Molly, 33 anos, o que para a época era o declínio, e é esse o temor dela: já não ser sexualmente desejada. Tanto, prossegue Galindo, que o convívio com a filha de ambos, Milly, no viço dos 15 anos, se tornou impossível. E o tradutor vai enredo fora, qual guionista de novela, narrando como Bloom e Molly, onze anos antes desse 16 de Junho de 1904, perderam um bebé, e desde então ele a evita sexualmente, e então Molly arranja um amante.

A plateia está presa à teia, é assim desde Penélope, mas eu imagino o desagrado de certos guardiões do caminho sagrado, ou seja do caminho único, a achar que o enredo banaliza o texto, como se o texto não fosse infinito, como se o texto estivesse fora de nós e não nós dentro do texto. Quem vai ditar a forma certa de alcançar “Ulysses”? Vale tudo e tudo é pouco.

Então o que vejo neste domigo carioca não é um altar nem um púlpito, mas a mesa à qual se encosta um homem que decidiu ficar de pé para ver e ser ouvido, que decidiu traduzir um livro para o ler melhor, que inventou um doutoramento para o poder traduzir, que gastou dez anos nisso (tradução, retradução, revisão em pinguepongue com o poeta Paulo Henriques Britto) e depois de tudo aqui está para contar: ele sabe que nada do que diz chegará ao coração das trevas do livro, porque aí é cada um por si, estamos sozinhos.

Um homem sem pompa. Não prova nada nem está além da prova. Vejo que tem prazer. Acho que Joyce gostaria disso.

 

5. O terceiro personagem central é Stephen Dedalus, alter ego de Joyce que começou por ser seu pseudónimo e antes de “Ulysses” protagonizou “Retrato do Artista Quando Jovem”.

— Cara azedo, cabotino, metido, insuportável — dispara Galindo.

Uma moça na plateia ri, pede licença: gosta de Dedalus. Galindo ri, abana a cabeça.

— Sempre tem alguém que gosta de Dedalus.

E retoma:

— Ele se considera salvador da literatura e da raça irlandesa, mas o seu futuro na literatura foi para as cucuias.

Joyce também gostaria desta palavra. E além da literatura, a esperança de Dedalus encontrar uma mulher foi igualmente para as cucuias.

— Dedalus é Joyce sem a salvação.

Sem Nora/Molly.

 

6. Porque é que “Ulysses” “virou do avesso a história do romance do século XX”, e, agora que os direitos de Joyce estão livres, se vão multiplicar traduções pelo mundo (na Relógio d’Água sairá ainda este ano a de Jorge Vaz de Carvalho, segunda em Portugal depois da de João Palma-Ferreira, publicada em 1989)?

Galindo encontra duas razões.

Primeira:

— Cada aventura de Bloom ao longo do dia emparelha com o mito. “Ulysses” exalta o mesquinho à altura do mito e rebaixa o mito ao banal.

Segunda:

— Joyce levou ao extremo a ideia de que precisava de uma técnica literária que respondesse ao assunto. O assunto é que determina a prosa.

Por isso a prosa vai mudando, tal como o dia muda, impetuoso de manhã, sonolento depois de almoço, enlouquecido à noite, diz Galindo, ao longo de 18 episódios que são 18 reinvenções da língua inglesa, uma arqueologia.

E as perguntas não acabam.

— É um livro para quem quer perguntar: por que essa informação me está sendo dada? Por que essa frase aparece aqui? Por que esse salto? Não páre de perguntar porque todas aquelas coisas têm uma razão. Joyce não era gratuitamente virtuosístico, mas precisa de um leitor que esteja disposto a trabalhar. Não é para ficar com os pés na mesinha de café como na trilogia “Millenium”. Vai sofrer. Mas é um livro generoso: quanto mais esforço você colocar nele mais ele te devolve. E é absurdamente divertido para quem se der ao trabalho de quebrar a noz.

1h45 de conversa, nem dei por isso.

 

 

(Público, 24-6-2012)

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