João Bosco: ele canta que mora na casca do seu violão

Sabem aquela?

 

Eu hoje me embriagando


De wisky com guaraná


Ouvi tua voz murmurando


São dois pra lá


Dois pra cá…

 

E aquela?

 

O tapa estala no balacobaco


E é bala com bala


E é fala com fala

E o galã se espalhando

Dando

 

Embriagante ou mais rápida que a própria sombra, Elis cantou e as canções ficaram dela, como se nem existissem antes. Mas existiam, saídas do violão de um tal João Bosco, revelado em 1972.

Mais de 250 canções e 40 anos depois, é este aniversário redondo que o compositor de “Dois pra lá, dois pra cá” ou “Bala com bala” está a comemorar, com um DVD, espectáculos e noite de gala no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde dia 13 aconteceu o Prémio da Música Brasileira. João Bosco foi o homenageado deste ano, o que quer dizer que — além de ganhar na categoria melhor canção de 2011 com “Sinhá”, a que Chico Buarque deu letra —, algumas das suas composições históricas desfilaram na voz de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Alcione, Ney Matogrosso, Milton Nascimento, sem esquecer Criolo, o-messias-que-veio-do rap. Triplo premiado da noite (revelação, melhor disco e melhor cantor), Criolo ainda arrebatou ao interpretar a canção de Bosco “De frente para o crime”.

Mas nada chegou aos pés do violão de João, ele próprio, encerrando o espectáculo. E, repleto de gente da música, o teatro fez coro em “O bêbado e a equilibrista”, samba que se tornou um hino contra a ditadura, nas palavras semi-veladas de Aldir Blanc.

Desde que se conheceram, em 1970, Bosco & Blanc formam uma das duplas mais fortes da canção brasileira, tanto que depois de uma separação de 20 anos foram capazes de criar o requintado “Não Vou Para o Céu, Mas Já Não Vivo no Chão”, último álbum de Bosco.

E tudo começou no lado B de um vinil-single em 1972, com a canção “Agnus sei”. É que no lado A estava “Águas de Março”, de Tom Jobim. Difícil passar despercebido.

 

Alto da Gávea

 

Um mês antes da homenagem no Theatro Municipal, cai uma chuva torrencial no Alto da Gávea. Sem chuva, esta encosta do Rio de Janeiro já é meio floresta, mas com chuva é como se nem houvesse cidade. Como encontrar a porta certa? Então ouve-se uma voz na noite, o anfitrião evita o naufrágio e o guarda-chuva fecha-se no pátio, aos pés da bandeira do Flamengo.

Estamos na presença, nada menos, do homem que compôs o hino rubro-e-negro:

 

Eu teria um desgosto profundo


Se faltasse o Flamengo no mundo


Ele vibra, ele é fibra


Muita fibra já pesou


Flamengo até morrer eu sou


 

O pátio conduz a uma sala cheia de discos, fotografias, posters de concertos. João Bosco de Freitas Mucci, 66 anos no próximo dia 13, é um daqueles homens que parecem maiores por causa da cara, centro irradiante de toda a expressão: barba espessa, sorriso espesso, nariz espesso e, na já certa ausência de cabelo, um boné. Senta-se com o silêncio à sua volta: um mineiro como se diz que os mineiros são, reservado a princípio, nenhum tique de estrela.

“Todo o meu universo era Ponte Nova”, conta ele do lugar onde nasceu. O mundo chegava-lhe pela rádio e pelo cinema. Já havia três cinemas na cidade. João pegou “o auge da cana de açúcar”. Os avós paternos eram cristãos do Líbano, como tantos imigrantes. “Tinham uma loja que vendia coisas de todo o tipo. Meu pai cresceu ali, embora o talento dele fosse para o futebol. Foi um grande goleiro.” E do lado materno? “A minha mãe é de uma família típica de Minas Gerais. [O nome próprio] Bosco vem da relação dela com a religião. Lembro-me de todos os horários girarem em torno dos cultos. Quando acabava a missa é que começava o cinema.”

Isto misturava-se ao universo paterno. “Os meus avós falavam árabe e toda a colónia árabe se frequentava muito. Vivíamos em torno da culinária, das histórias das ‘Mil e Uma Noites’, de parentes e amigos que ficaram por lá, sempre uma memória muito generosa do Líbano. Cresci no meio desse conto. Havia representações de teatros que eles mesmos criavam. Lembro-me do vestuário, da música, de Umm Kulthum.”

A grande diva árabe, até hoje.

João ainda não conhece esse Líbano que em parte o gerou: “Os convites para ir sempre coincidiram com épocas tumultuosas.” E nunca soube árabe. “Se o árabe viesse da minha mãe talvez tivesse aprendido. Mas tenho a certeza de que a sonoridade existe no que componho. Na trilha [“Benguelê”, de 1998] para o [grupo de dança] Corpo ficou muito explícito, uma sonoridade vocal que me remete a ancestrais que não conheci, a lugares onde nunca estive, algo que habitava em mim.”

Nesse caldo árabe e cristão de Ponte Nova, a música “fazia quase parte da educação, uma irmã cantava na igreja, outra tocava orgão, o outro vivia tocando nas madrugadas, serenatas com violão”, lembra. “Fiz serenata dentro de um camião que tinha até piano. E íamos tocando para a namorada de cada elemento do grupo. Durava a noite toda.” Teria ele 12, 13 anos. “Não me lembro de estar sem um violão na minha vida. Uma irmã pianista comprou um, toda a hora eu estava com aquilo na mão, então ela me deu esse violão.” As muitas irmãs são uma marca. “Em dez irmãos, fui o primeiro homem. Era uma casa pequena, lembro-me de duas, três moças num quarto, eu com outras num quarto. Passei muito tempo convivendo com mulheres, percebi esse universo feminino naturalmente.”

E fora de casa o violão lançou-o na boémia. “Matava aulas e ficava fumando, jogando baralho, tocando o tempo todo, totalmente irresponsável. Estava me transformando em vagabundo.” Cidade dividida pelo rio, “do lado de lá ficava o pecado, o baixo-meretrício”, os cabarets onde tocava “um acordeonista mulato muito elegante”, lembra João. “Eu ia para lá de madrugada ver ele tocar e as prostitutas ficavam ali dançando. A minha família percebeu que eu ia virar um cafetão [chulo]. Uma família em Ouro Preto lhes falou das escolas da cidade. Então fui morar lá.”

Era o ano de 1962.

 

Outro planeta

 

Expoente do barroco mineiro, Ouro Preto é um sobe-e-desce de casinhas e igrejas, no interior de Minas. “Cheguei num outro planeta. Nunca tinha visto aquilo, aquelas pessoas andando daquele jeito, aquele sino tocando daquele jeito no fim da tarde.”

Primeira imagem vívida: “Quando parei na Praça Tiradentes e olhei a cidade, em um segundo mudou completamente a minha vida, a minha forma de sentir e de pensar. Me dei de caras com o Museu do Inconfidente, atrás de mim o antigo Palácio de Minas, entre eles a grande estátua de Tiradentes, todo o calçadão em pedra-de-moleque, pequenas esferas que formavam um tipo de desenho que eu nunca vira, nas ruas paralelas paredes inclinadas em relação ao plano horizontal que contrariavam a gravidade, e as pessoas caminhavam com a cabeça um pouco no chão, talvez pela dificuldade de caminhar ali, e havia igrejas fincadas em montanhas, pontas de igrejas saindo do chão. A minha cidade só tinha uma igreja e não tinha nada a ver com aquela robustez, aquele vigor, como se tivesse sido construído para sempre. Tive a sensação de que ia ficar ali para sempre.”

A epifania prolongou-se pela rua: “Começo a descer perguntando onde era a Igreja do Rosário, atordoado com os desenhos, as cores, as curvas, uma cidade só de curvas. Aí entro no Largo da Alegria, vou chegando ao Rosário. Bem em frente era a pensão onde eu ia ficar. Eu era um sujeito cercado de tapetes de pedras e de igrejas. De tal forma que disse: ‘Essa cidade é a música.’ Foi aí que comecei a tocar o meu violão. Comecei a ouvir a música. A cidade era a própria música.”

Um homem viu isso ao conhecer João. “No meu primeiro encontro com Vinicius de Moraes ele disse: ‘Não saia daqui porque essa cidade está fazendo muito bem à sua música.’”

Mas esse encontro só acontecerá em 1967 e antes há outros.

“Ao chegar a Ouro Preto conheci um sujeito contrabaixista e um amigo dele baterista que tinham uma discoteca fantástica, jazz, bossa nova. A gente montou um quarteto experimental e eu comecei a compôr.” Bosco já tinha dado com a bossa nova na sua cidade natal, onde escutara “Chega de Saudade”, primeiro álbum de João Gilberto. “Mas quando comecei a ouvir bossa nova e jazz juntos é que descobri João Gilberto. Ouro Preto me abriu os ouvidos e os olhos.”

Quando chegamos a 1967 já o jovem mineiro cursa engenharia. “Vez por outra Viniucius ia lá carregar baterias. Gostava muito de tomar uisquinho trabalhando e não gostava de fazer exercício, era radical, pregava isso, então ia para Ouro Preto descansar. Era amigo do Pouso do Chico Rei, uma das pousadas mais bonitas, e também de um pintor que tinha casa lá. Ficava uns 15 dias.”

Sempre havia alguma animação. “Se Caymmi diz que a Bahia tem 365 igrejas, Ouro Preto também. Toda a semana tinha uma festa religiosa animadíssima.” E pelo meio, artistas em visita “Eu vi o Pablo Neruda andando na rua em Ouro Preto. Eu vi o Miles Davis andando na rua em Ouro Preto.”

Mas não tropeçou em Vinicius, procurou-o. “Uma noite fui lá ao Pouso, disse que queria mostrar alguma música. Ele me viu com o violão, pediu para eu entrar, conversámos um pouco, me ofereceu uns uísquis, eu adorei, porque a gente sempre tomava bebidas baratas. Ele me pediu para eu falar um pouco de mim. ‘Não quer tocar para eu ouvir?’, me disse. Toquei um samba bem bossa-novista. Ele disse: ‘Toca de novo.’ Foi lá se servir de um pouco mais de uísqui, já começou a me chamar de Joãozinho. ‘Toca de novo.’ Toquei. Ele foi lá dentro, voltou com umas folhas, colocou os óculos. E tinha um jeito de assobiar que não tinha som mas a gente entendia a melodia, era como um sopro com uma nesga de nota. Achei aquilo o máximo. Era uma coisa que você podia fazer de noite sem incomodar os outros. Então ele começa a repetir certos trechos e a escrever: era o ‘Samba do Pouso’.” Letra de Vinicius para música de Bosco. “Nós fizemos naquela noite. E bebemos aquela garrafa de uísqui. E inaugurámos aquela parceria.”

Onde a reserva, agora? Um mineiro lançado no prazer de contar.

“Vinicius já era o cara. E acho que o procurei por ser tão generoso que se confundia com a poesia dele. ‘Você pode tocar à minha campainha’, era o que ele me passava. A partir de então saímos muito para os botequins em Ouro Preto, ficávamos ali no fundo, onde a gerência tinha uma mesa, bebendo e ouvindo música. Era maravilhoso conviver com aquela intimidade. Não havia nada fora do lugar, a gente saía de madrugada a pé, o cigarro acabava, já eram 4, 5 da manhã, a gente ficava catando bagarras.” Bitucas, guimbas (em Portugal, beatas).

“Vinicius bebia muito e fumava demais. De 1967 a 1972 ia todo o ano a Ouro Preto e pagava noitada para a gente. Era muito rico e a gente não tinha nada. Era supergeneroso. Ele chegava e a gente ficava numa alegria.” Quem já tenha ouvido histórias de Vinicius de Moraes espanta-se como alguém pode ser lembrado por tanta gente com tanto carinho. “Era uma espécie de fantasia de ser humano. Toda a gente queria ser Vinicius de Moraes. E no fim da vida teve depressões, sofreu muito.”

No que toca a mulheres, são o extremo um do outro. Vinicius casou nove vezes. Bosco continua casado com a sua namorada de estudante, Ângela. “Quando a conheci, senti que a queria ver no dia seguinte, e no seguinte, e no seguinte…”

 

A caminho do Rio

 

Então certa noite de 1970 lá está João Bosco num boteco de Ouro Preto, “tocando um violão já explorador”, quando um sujeito lhe vem dizer que um amigo no Rio certamente gostaria de escrever umas palavras para aquela música. Nem uns dias passam e “chega uma turma do Rio”, incluindo o tal amigo: Aldir Blanc.

“Vamos para Ponte Nova e a minha mãe faz um grande almoço para todo o mundo. Aí mostro três músicas ao Aldir, ‘Agnus sei’, ‘Bala com Bala’ e ‘Angra’. Ele leva para o Rio e passamos a nos corresponder. Ele me mandava cartas com letras, eu musicava.” Ou ao contrário. “Em 1971 já tínhamos um reportório muito grande. Aí mostrei ao Vinicius e ele ficou muito impressionado: ‘Você vai ao Rio que eu quero te apresentar pessoas da música.’ E no Verão me convida para passar férias no Rio de Janeiro, em casa de um amigo dele no Leblon.” Deu instruções precisas ao telefone: “‘Quando chegar na Rodoviária, pega um táxi e diz: bairro Leblon, mas pelo caminho da orla.’ Eu disse: ‘Tá legal.’ Era uma viagem [de Ouro Preto ao Rio]. Começava às seis da tarde e terminava às 8h da manhã.” Quando enfim chegou, fez o caminho da orla: “Peguei Copa, Ipanema, Leblon. E foi ali que entendi o que era a bossa nova, aquele mar, as pessoas na praia, caminhando no calçadão, aqueles bares, o que era o negócio da flor, do mar, do violão.” Como no disco “O Amor, o Sorriso e a Flor” de João Gilberto. “Sempre fui um cara barroco, das pedras, das montanhas, e de repente me surge aquela espuma, aquele azul. Tudo aquilo passava de táxi, aquele mundo moderno. Foi uma emoção muito intensa.”

O táxi deixou-o no Leblon. “Aí chego na casa do Carlos Scliar, que depois fez a capa do meu primeiro disco. E o Vinicius dá um jantar convidando o [Tom] Jobim, o [Egberto] Gismonti, o Toquinho, o Chico Buarque, o [Gilberto] Gil, que apareceu mais tarde para mostrar um samba novo. O Aldir estava comigo. Toquei, o Vinicius me apresentando como se eu fosse afilhado dele, com grande prazer.”

Desfilou “Agnus sei”, “Bala com Bala”, “Incompatibilidade de Gênios”, canções que fariam a sua fama. “Eles reagiram muito bem. Aí o Vinicius liga para o pessoal do [jornal] ‘Pasquim’, o Ziraldo [que se tornou célebre como autor de livros infantis], o Sérgio Cabral [perito em samba, pai do actual governador do Rio].” Eles tinham um projecto de disco à venda em bancas de jornal, com um consagrado apadrinhando um jovem talento. “Foi ali que tudo aconteceu, o ‘Águas de Março’ com o ‘Agnus sei’. Jobim é o meu padrinho.” Estávamos em Julho de 1972. O disco “passou de 50 mil cópias”.

E a seguir vem Elis “Pimentinha” Regina. João Bosco foi ter ao teatro onde ela estava a ensaiavar. “Ela me disse: ‘Você é de Minas Gerais? Pois é, eu estou apaixonada por um músico de Minas Gerais.’ Porque tinha se apaixonado pela música de Milton Nascimento. Mostrei para ela o ‘Bala com Bala’. Ela disse: ‘Quero esse samba, estou entrando em estúdio.’”

Os dois mineiros conheciam-se desde 1965: “Quando Milton não era o Milton, mas um sujeito que eu sabia que era genial.” Alguém dissera a Bosco que tinha de ouvir “um cara chamado Bituca” a tocar num restaurante da capital mineira, Belo Horizonte. Bosco foi e procurou o tal restaurante: Bituca era Milton.

E aí estava Milton agora com Elis em estúdio, e Elis gravando o estudante João Bosco, que entretanto tinha de voltar a Ouro Preto, para acabar o curso. “Então explode o ‘Bala com Bala’. Eu ficava estudando de noite e ouvia no rádio.”

Vinicius já não o podia segurar em Ouro Preto. Finalmente licenciado, Bosco mudou-se para o Rio em 1973 com Ângela e começou a gravar o primeiro álbum. “Vim morar na Pacheco Leão [junto ao Jardim Botânico]. O Aldir vinha ter comigo à Zona Sul e eu ia com ele para a Zona Norte. Ele tinha um consultório [de psiquiatra] na rua da Assembleia [centro da cidade] e depois da última consulta a gente ficava bebendo pela Cinelândia [principal praça do Rio]. Frequentava muito o Cosmopolita, um bar perto da sala [de teatro] Cecília Meireles. A gente andava o Rio de Janeiro. Os salões de sinuca [snooker] e os botequins ficavam no centro. Na Tijuca [Zona Norte] ele gostava de frequentar os botecos da Praça Saens Peña que hoje não existem mais.”

Era o tempo em que a classe média negra, não aceite nos clubes da Zona Sul, se juntava no Renascença Clube, na Zona Norte, hoje cenário de uma bela roda de samba. Na época tinha concursos de misses. “As mulatas do Renascença eram imbatíveis.”

A Zona Norte é, até hoje, o território de Aldir Blanc. Em 40 anos de parceria, passaram 20 afastados, mas a mais recente prova da re-união tem apenas três semanas. “Fizemos um tema para a novela ‘Gabriela’.” A nova, que acaba de estrear na Globo, neste ano de centenário de Jorge Amado.

Daria para tocar agora? João Bosco sorri hesitante, mas colhe o violão ali à mão como se fosse a continuação natural da conversa. Depois pára, pensa, levanta-se. “Deixa eu pegar um verso que está faltando…” Procura junto aos discos, vai dizendo que a canção se chama “Aura de Glória”, porque é o tema da personagem Glória, uma mulher “muito fogosa, que tem vários amantes, coronéis”, mas encontrará um poeta.

Volta com o verso, recomeça. Lá fora, é chuva na noite, cá dentro uma orquestra, voz e violão.

 

Francisco & Chico

 

“Fade out” para um epílogo com dois Franciscos.

O primeiro é Francisco Bosco, que (à semelhança da irmã, a cantora Júlia Bosco) adoptou para apelido o nome próprio do pai — família para valer, como a plateia do Theatro Municipal viu na cerimónia de dia 13: não só os textos sobre o homenageado eram todos do filho, como no fim João Bosco fez questão de nomear Ângela (a mulher), Francisco e Júlia (os filhos) e Iolanda, a neta recém-nascida (filha de Francisco e Antonia Pellegrino).

Mas como aconteceu aquele momento no fim da adolescência em que Francisco — hoje um instigante pensador, autor de vários ensaios e de uma coluna semanal no “Globo” — passou de fã da obra do pai a seu letrista?

“Eu tinha feito um disco com o Wally Salomão e o Antonio Cícero [ambos poetas]. E o Wally e eu, os dois com origens árabes, queríamos fazer uma alegoria do mundo árabe. Não um disco árabe, mas uma alegoria de quem nunca foi lá, de quem vai ao Saara [zona de comércio popular do Rio de Janeiro] e imagina que está no mundo árabe. O Cícero era nordestino, não tinha nada a ver, mas convencemo-lo e fomos ao Saara. O ‘Globo’ até fez uma capa, nós comendo comida árabe, falando do projecto. Só que nesse meio tempo o Wally e o Cícero se desentendem. O Wally era uma fenda numa barragem, uma coisa que sempre pode se romper. Mas eu já estava trabalhando essas músicas e o Francisco ficava ouvindo aqui em casa. Um dia desce e diz: ‘Eu sei que o projecto com o Wally e o Cícero está em espera, mas se você quiser eu gostaria de fazer esses textos. Isto foi em 1996. Ele devia ter 19, 20 anos. Eu disse: ‘Você acha que pode?’ Ele disse: ‘Posso.’ Ele já tinha publicado um livro de poemas, e sempre foi antenado, chegou a ser baterista de banda reggae. Nunca tinha feito música popular. Mas foi tão firme que me deu confiança. Aí fizemos ‘As Mil e Uma Aldeias’, de que gosto muito.” Álbum de 1997.

O segundo Francisco é aquele a quem o mundo chama só Chico. João Bosco já fizera com ele “Mano a Mano”, “Vai passar”. E recentemente, quando compôs “Sinhá”, resolveu dar-lha. “Mandei tal como está gravada, com assobio, iéri-iéri. Ele conservou aquilo tudo. Disse: ‘Mohammed…’ Sempre me chama de Mohammed e eu o trato por Comendador, porque recebemos uma comenda do Jacques Lang, mas o Chico foi o único que a recebeu lá em Paris. Então ele disse: ‘Mohammed, estou achando que essa música tem algo de negritude, posso ir nessa direcção?’ Isso é próprio da pessoa genial, só quem já está no caminho pergunta se o caminho é esse mesmo. Nós nos encontrávamos na praia andando, e sempre falávamos: ‘ Temos que fazer mais música.’” Calhou que, quando Bosco lhe mandou “Sinhá”, Chico estava prestes a gravar. “Ele disse: ‘Quero que você vá para o estúdio, quero esse assobio, esse iéri-iéri.”

Fecha em grande o último álbum de Chico Buarque.

E de caminho ouçam o último álbum de João Bosco, onde várias canções são da mesma família de “Sinhá”. É lá que ele canta que mora na casca do seu violão.

 

(Público, 24-6-2012)

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