Andaime com vista para a cidade (e 10 mil livros)

Depois de uma semana de chuva contínua, o Rio amanheceu radioso anteontem, dia em que aterrou a primeira delegação internacional (Tailândia) e 20 mil soldados (além de sete mil polícias) começaram a patrulhar a cidade. Mas à tarde caiu uma pancada de água, o que resultou num formigueiro de capas de plástico no Forte de Copacabana, onde inaugurava o projecto Humanidade 2012, uma das mega-iniciativas paralelas à Rio+20.

Todos os VIPS que iam estar na cerimónia — do prefeito da cidade, Eduardo Paes, ao vice-presidente da República, Michel Temer, passando pelo empresário mais célebre do Brasil, Eike Baptista — tinham a sua capa de chuva à espera.

Isto, porque o Humanidade 2012 não é um edifício com tecto e paredes, mas sim um andaime reciclável. Ou seja, um lugar por “onde o vento passa, a paisagem passa, a chuva passa”, como resumirá ao PÚBLICO a encenadora e cenógrafa Bia Lessa, responsável pela estrutura, que se avista desde o começo de Copacabana, a uma distância de quilómetros: vários andares de ferro erguidos sobre o Forte, com palavras gigantes a desfilarem em painéis electrónicos.

A palavra está no centro deste projecto. Desde a célebre frase de Hannah Arendt impressa nas capas de chuva (“Embora devam morrer, os homens não nascem para morrer, mas para começar”), às dezenas de frases sobre a identidade e o lugar do Brasil no mundo espalhadas ao longo do andaime, a começar pelo Padre António Vieira na entrada, junto a plantas nativas, da Mata Atlântica.

Mas, subindo a escada pelas entranhas do andaime, o centro de tudo é a sala a que Bia Lessa chamou Capela, com um milhão de figurinhas humanas iluminadas e 10 mil livros à volta, escolhidos por 120 personalidades brasileiras. Quer saber que leituras marcaram Lula da Silva? Fernando Henrique? Rubem Fonseca? Caetano Veloso? Dona Canô, mãe de Caetano? Esse é o lugar.

 

Esforço conjunto

 

“De Portugal?!! Você sabe que estou fazendo um museu em Guimarães?”, exclama Bia Lessa, 54 anos, metro e meio de altura com a energia de um furacão. Está em pleno ensaio geral da inauguração, comandando dezenas de técnicos, mas à menção de Portugal abraça a repórter, que nunca viu na vida. E logo volta a empunhar o seu microfone, pondo a mexer a Capela: “Abre o vídeo! O som está baixo! Aquilo não pode sair dali?”

Do auditório ao lado, onde as cadeiras têm palavras do compositor Arnaldo Antunes, chega uma ovação. São as conferências TED, agora aqui hospedadas. Entre os palestrantes do dia contam-se a ex-ministra do Ambiente Marina Silva e o artista plástico Vik Muniz, que durante a Rio+20 vai construir uma peça com lixo reciclável trazido pelas pessoas.

A Capela tem 100 cadeiras brancas, que a partir das 18h começam a encher-se de convidados. Em cima das 19h entram prefeito, vice-presidente, industriais. O Humanidade 2012 é patrocinado pelo poder público e por vários poderes privados (federações industriais do Rio e de São Paulo, Fundação Roberto Marinho).

Mas nem este ambiente engravatado consegue tornar Bia Lessa convencional. “Oi, queridos, queridos”, diz ela, inaugurando os discursos com um anti-discurso, enquanto anda de um lado para o outro com o seu vestido de algodão, as suas botas e um talismã no bolso (pedacinhos de papel de uma coreografia de Pina Bausch, mostrará à repórter). Cita a frase de Hannah Arendt e explica que esta Capela é o lugar do saber, da possibilidade dos encontros, onde se podem cruzar empresários e artistas, franceses ou flamenguistas, e uma biblioteca começará a crescer.

Então lança um áudio com a voz de Maria Bethânia pedindo aos 100 convidados que primam o botão vermelho junto ao seu lugar. O esforço conjunto acciona um mecanismo em que as luzes se apagam e um pêndulo iluminado busca o prumo que falta ao planeta. À primeira não resulta, mas Bia Lessa não desmorece, pede para repetir tudo. E quando o pêndulo alcança o prumo, uma revoada de pássaros solta-se no alto, recortes brancos deslizando em fios invisíveis.

“O que me animou é que eram patrocinadores muito diferentes, com interesses variados, e isso trazia uma necessidade de abrir mão dos preconceitos”, diz Bia ao PÚBLICO, no final, quando toda a gente se dispersa por rampas e salas, ao longo do andaime.

Os patrocinadores propunham uma tenda. Mas quando Bia chegou e viu um pequeno andaime, resolveu acrescentar-lhe várias camadas. “Sai-se de um espaço de reflexão interior para a cidade.” Com uma vista que se vai ampliando à medida que sobe: toda a praia de Copacabana, e além, até ao Pão de Açucar.

Que contribuição pode o Brasil dar ao mundo? Era este o tema para Bia desenvolver. E a resposta foi a mistura: índios, africanos, europeus: “A capacidade de viver com a diferença, de podermos estar juntos.” Textos, imagens e objectos nas várias salas andam em volta disto. E os livros estão no centro porque a linguagem é o que distingue a humanidade, diz a encenadora. “É uma biblioteca de livros e de gente. Você pega a lista do Lula, vê o Garrincha, o Noel Rosa. Em vez de 100 livros, o Rubem Fonseca mandou uma lista de 230!” Quando reuniram todos os exemplares, em pilhas por autores, Bia fixou as pilhas mais altas, ou seja, os mais repetidos: “Freud, Proust, Guimarães Rosa, Tolstoi…” Todos disponíveis para leitura. E no topo do andaime, a céu aberto, há plantas e café.

Quanto ao projecto de Guimarães, uma Casa da Memória, “está parado por falta de dinheiro”, diz Bia. “Estou triste porque fui muito bem tratada lá: a comida, o conhecimento, a riqueza que vocês têm.”

 

(Público, 12-6-2012)

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