Ilha Grande de Joanes

1. Em Joanes o vento é tão forte que entra pelos sonhos. Quem vive junto ao mar sabe como o som do mar se aloja na cabeça, e assim sopra o vento em Joanes, ponto mais alto desta ilha tão longe do mar grego e da literatura. Aqui, onde o Amazonas embate no Atlântico, toda a terra resulta desse embate, nada é sedimento. O que hoje está no ar amanhã estará na água. Existe a estação cheia, a estação seca e entre elas, de Junho a Agosto, o tempo da lama. Chego então no começo da lama, véspera de lua-cheia, e como não planeei onde dormir um índio chamado Silviano deixa-me numa pousada chamada Ventania.

 

2. O Padre António Vieira chegou no fim da lama, quando as terras começam a estalar ao sol: “Na grande boca do rio das Amazonas está atravessada uma ilha de maior comprimento e largueza que todo o reino de Portugal, e habitada por muitas nações de índios, que por serem de línguas diferentes, e dificultosas, são chamados geralmente nheengaibas”, descreveu ele em Agosto de 1659. Os nheengaibas eram gente “de quem se diz com propriedade que andam mais com as mãos que com os pés, porque apenas dão passo que não seja com o remo na mão, restituindo-lhes os rios a terra que roubaram nos frutos agrestes das árvores de que se alimentam”.

Na Amazónia, água é caminho, a terra só se rende, isso ainda não mudou. E Silviano, o índio que me trouxe a Joanes, talvez tenha algum sangue negro ou português, mas tão pouco que se podia reconhecer nos indígenas nheengaibas desenhados pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira um século depois de Vieira. Uma daquelas encomendas que o Iluminismo europeu gostava de fazer, e ainda gosta, embora hoje isso se chame safari.

 

3. Tal como Ferreira, Vieira era um bravo expedicionário. Ambos responderam a encomendas terrenas, no caso de Vieira antecedida pela encomenda celeste. Nenhum instrumento de dominação colonial foi tão eficaz como esse Deus soprando a favor do pequeno reino de Portugal, na esplêndida retórica de Vieira.

“(…) depois que a larga experiência lhes foi mostrando que o nome de falsa paz com que entravam se convertia em declarado cativeiro, tomaram as armas em defesa da liberdade e começaram a fazer guerra aos portugueses em toda a parte”, percebeu ele dos nheengaibas. Enviou carta às muitas nações índias da ilha prometendo que na recente lei de 1655 terminaria a escravatura. E com doze canoas partiu, vencendo as águas da hoje chamada Baía de Marajó, para fazer a paz.

Aportou então nesta costa oriental da ilha, no ponto mais a salvo das águas, a que chamaram Joanes por causa dos índios juioanas. Nem o vento devia atenuar o sol de Agosto, que tão perto do Equador queima: Vieira e comitiva, cercados das muitas línguas da ilha, descendentes daqueles que séculos antes de Vieira já aqui faziam cerâmica policromática mas só em meados do século XX serão reconhecidos pela arqueologia.

Fez-se a paz dos vencedores. E enquanto muitas tribos migravam para outras regiões da ilha, fugindo a serem dominadas, os padres portugueses construíram a Igreja de Nossa Senhora do Rosário à beira da falésia.

 

4. Fotografias das ruínas da igreja, era tudo o que eu conhecia de Joanes quando Silviano me trouxe no seu carro novo. Silviano é um daqueles índios de t-shirt colada ao tronco, tronco em V, musculado. Casou aos 20 com uma vizinha que agora é caixa numa farmácia. Além do carro tem uma loja do que aqui interessa, material de construção, coisas de pesca. Pelo caminho veio a contar-me, revoltado, como a novela que a Globo cá filmou só mostrava a ilha de há cem anos.

— Não mostrava estrada, desenvolvimento.

Embora estrada de asfalto continue a ser uma, a Transmarajoara. O resto é caminho de terra, campos alagados, água em geral. Dá jibóia, jacaré, piranha, os búfalos da ilha que o digam. Tudo contemporâneo do Padre António Vieira, menos os búfalos, que chegaram há uns cem anos, náufragos, conta-se.

— Mas nada se compara à dor de uma arraia — diz Silviano.

As arraias vivem escondidas nas areias. Quando a água baixa, enterram o ferrão em quem as pisa. O veneno paralisa a perna durante dias, dói durante meses. Silviano foi ferrado duas vezes. Acha que nem dor de parto se iguala.

— Porque as mulheres dizem que dor de parto é a maior mas vivem tendo filho. dor de uma arraia — diz Silviano.os alagados, Transmajoaraantasiasaginou. nda aturalista quye um s ilha grega, a escreverdefesaà

Dias depois contaram-me que o realizador da Globo se viu ferrado por uma arraia quando estava aqui. Tenho de contar a Silviano. Ele vai achar que foi castigo por a novela não ter mostrado a realidade do Marajó.

Marajó é o nome que a ilha hoje tem. A maior ilha marítimo-fluvial do mundo.

 

5. Mas não há muitos barcos para a maior ilha marítimo-fluvial do mundo. De Belém, capital do Pará, mesmo ali do outro lado da baía, saem só dois por dia e toda a gente quer ir no da manhã porque à tarde as águas estão sempre mais ferozes. Fui no da manhã e ao desembarcar conheci um professor chamado João Elias.

Naquele formigueiro indígena de t-shirt de futebol (eles) e brilhantes nas nádegas dos calções (elas), todos apertados na pressa de desembarcar, João Elias tinha uma t-shirt do Círio, a maior festa religiosa do Pará, e não tinha pressa. Como íamos ambos para Salvaterra (estamos na Amazónia, os nomes por cima dos nomes indígenas são assim: Salvaterra, Chaves), partiu comigo num ônibus que estava a sair do porto. Era um ônibus também contemporâneo do Padre António Vieira, com uns bancos de ferro enferrujado.

À nossa frente ia um rapaz que me sorrira no barco como sorriem os travestis, e agora continuava a sorrir, sentado ao lado do seu amado. O amado tinha um corte de cabelo à Cristiano Ronaldo e o rapaz sorridente tinha rabo-de-cavalo, com as pontas queimadas, de excesso de tinta. Também tinha unhas compridas e pelos descoloridos. Era muito bonito, ou talvez bonita. Assim fomos meia hora pela Transmarajoara, o rapaz-rapariga a sorrir à única pele-branca do ônibus e João Elias a contar-me como é dar aulas na Ilha do Marajó, antes conhecida por Ilha Grande de Joanes.

 

6. A pracinha de Joanes é toda branca e azul: lojinhas, coreto, escola, igreja nova, mas um branco e azul cansado. As ruínas da velha Igreja de Nossa Senhora do Rosário ficam nas traseiras da igreja nova. O resto de uma torre negra. Outro resto negro. Pedras no chão. Em frente são as águas da baía, barrentas, arrepiadas do vento. Joanes perdeu para o vento, outras povoações ganharam. Passa um homem de bicicleta. Desmonta, volta costas e urina contra a igreja.

 

 

(Público, 10-6-2012)

2 comentários a Ilha Grande de Joanes

  1. Escrever sobre paisagem que mesmo para quem não conhece presume ser de beleza excepcional, principiando com uma frase como esta: «Em Joanes o vento é tão forte que entra pelos sonhos», faz imobilizar qualquer um.

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