Maio Maduro Maio

 

1. O chão está outra vez cheio de pitangas. Mas não foi ontem? Como é que ontem já foi há um ano?

 

2. Na estação das pitangas cheira a dama-da-noite. Todas as noites olho para a Clarice Lispector de Carlos Mendes de Sousa, “forte como a alma de um animal” em cima da minha mesa-de-cabeceira, e penso que lá chegarei, roubando tempo ao roubado. E entretanto chega o João Guimarães Rosa da Clara Rowland, que correu sertões de barco e ônibus para ler melhor. E, num envelope pardo, o novo “Ulisses” de Caetano W. Galindo, aliás “Ulysses”, provando que, de acordo com Clarice, nada há a temer.

 

3. Este “Ulisses/Ulysses” é a terceira tradução feita no Brasil. Primeira frase: “Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada, portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha.” Curitibano como Dalton Trevisan, que tem mais de 40 livros, Galindo ainda não tem 40 anos. Curitiba, ao contrário do Rio, puxa para dentro, imagino.

 

4. No Jardim Botânico abrem flores fora da estação, leio, não vi. E uma jibóia enroscada. Também já tive uma cobra na casa-de-banho, o Rio é isto: gambás, micos, tucanos. Mas desde que aqui moro só fui ao Jardim Botânico uma vez, quase tão pouco como à praia.

 

5. Notícias frescas. Lula terá pressionado Gilmar Mendes a adiar o julgamento do Mensalão? Xuxa, que contou na TV abusos sofridos na pré-adolescência, merecerá ser crucificada? Quem, afinal, roubou as fotos de Carolina Dieckman nua? E Duarte Lima que volta ao activo na comarca de Saquarema. E a lixeira do Jardim Gramacho que vai acabar.

 

6. Dos três prédios desabados no centro do Rio, em Janeiro, um era anexo ao Theatro Municipal, o mais parecido que o Rio tem com uma casa (parisiense) de ópera. Então durante meses o Municipal esteve fechado para vistorias e reparos, não fossem os efeitos colaterais. Segunda à noite voltou em cheio, com Gilberto Gil mais orquestra sinfónica, bilhetes esgotados, vips. Perdi.

 

7. Também perdi Los Hermanos e suas barbas de 15 anos, e assim continuarei sem saber porque toda a gente que estava na Fundição Progresso (também conhecida como Fodesom Progresso, diz o meu mestre urbano) sabia as letras de cor.

 

8. Que seria o Rio sem os concertos da Fundição e do Circo Voador? E a lua vista da Urca, senhor Camões, é um gomo de maçã. A lua vista da curva da cintura do casino onde cantou Carmen Miranda.

 

9. Roubei esta curva ao novo disco de Arnaldo Antunes, que a mais africana das minhas amigas paulistanas me deu: “A Curva da Cintura”. Arnaldo gravou-o com o maliniano Toumani Diabaté. Antes de ver o DVD fui ao Circo Voador ver Arnaldo pela primeira vez ao vivo. Perto da uma da manhã o concerto ainda não tinha começado porque o baterista vinha de outro concerto. O Rio esperou três horas de pé. O Rio continua lindo.

 

10. Mas quem não adora Arnaldo? Titã, tribalista, artista, com aquele pedaço de crânio rapado, o resto do cabelo espetado, olho vivo, sorriso. Um enigma ouvi-lo há séculos, em Lisboa, em canções como “Eva e Eu”. A voz dele era uma serpente anelando no ar. Uma serpente grave.

 

11. Pois quem mais no Brasil pode fazer este pedido de casamento…

 

“Eu sei que a gente ia ser feliz juntinho

Pra todo dia dividir carinho

Tenho certeza de que daria certo

Eu e você, você e eu por perto”

 

… com todo o Circo Voador a cantar, cenário de carrossel, luzes de coreto, cavalinho branco?

 

12. Arnaldo já passou dos 50. E as meninas de 18, lá:

 

“Mas tinha que respirar

Todo dia

Todo dia, todo dia
todo dia

Todo dia, todo dia

Todo dia”

 

13. Em São Paulo menina é mina. A mina Gal foi a São Paulo cantar o “Recanto” que Caetano compôs para ela. Por acaso eu estava em São Paulo nesse dia, mas mais uma vez perdi. Li que foi guerreiro: Gal vencendo laringite e amigdalite, Caetano aflito na primeira fila.

 

14. Não perdi os meus amigos da Kameraphoto numa vilazinha nos Jardins. A exposição chama-se “txt”. Cada um dos 12 fotógrafos traz várias fotografias mas o visitante só vê texto: folhas de papel coladas nas paredes com uma descrição objectiva da fotografia. No melhor dos casos, as descrições objectivas são poemas. Os visitantes escolhiam uma folha, arrancavam-na da parede, levavam à caixa, só então viam a sua fotografia. Calhou-me uma espécie de deserto da Céu Guarda onde alguém escavou na rocha: “Alive”.

 

15. Nessa noite eu vinha do Bar da Onça, no Edifício Copan. O Copan é o maior sonho paulistano de Oscar Niemeyer. Uma curva da cintura com mil e tal apartamentos no centro da cidade. Se um dia morar em São Paulo quero alugar lá uma kitinete, ler lá o Perec, chegar, quem sabe, à Molly Bloom.

 

16. O anjo caído que me chamou ao Copan tinha como plano A o Bar do Museu, onde uma dama também chamada Clarice, talvez contemporânea do “Johnny Guitar”, comanda uma trupe histórica de anjos caídos. Mas como fechou para obras, ficámos pelo plano B, com cerveja escura e linguíça.

 

17. No dia seguinte fui visitar paulistanas rappers. Enquanto esperava, no café ao lado do SESC Consolação, li no livro que trazia comigo: “rode esse interminável carvão / estenda-o à sua visita branca”. Ou os três primeiros passos de um roteiro pouco brasileiro: “1. Medo de mostrar o corpo. 2. Querendo brigar. 3. Sozinho na cama pensando em velocidade.”

Para o que vale mesmo a pena, Pound aconselhava o roubo. Estou a roubar: “um pouco mais de ar, / um pouco mais e deus”. Goethe diria “mais luz”, mas para mim está bom. Há tempos que um livro não me fazia ver no escuro.

 

18. Antes de voltar ao mato, no Rio, li ainda o livro que se fez gémeo desse, continuando a “provocar o tamanho sombrio / das asas que em minhas costas / não servem”. Fábula final: “escolha um dia de verão em que a água esteja muito fria, aguarde até que uma menina (dessas com menos de nove anos, com os ossos ainda tenros) entre no mar, sem que haja alguém por perto, e, sem desvestir as roupas, entre no mar também e a carregue pela cintura, nadando rápido até os dois desfalecerem; ela se tornará sereia”. Pensei em Salinger com os pés no mar, no mais perfeito diálogo entre um adulto e uma menina: “A Perfect Day for Bananafish”. Mas o poeta destes dois livros (“Senhor Escuridão”, “A Timidez do Monstro”) chama-se Paulo Scott.

 

19. Não sei como, do mato, no Rio, ouvem-se navios a apitar além dos morros, frutos de todo o ano.

 

(Pùblico, 3-6-2012)

 

 

 

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