No Sambódromo: la-lara-laia-laia-la-laia-laia: Dona Ivone!

1. Na sexta-feira o Hélio alugou uma carrinha para as fantasias. Só à minha porta tinha de entregar dez. E como fantasia de sambódromo tem muitas partes, eram dez Papas tipo monte-você-mesmo.

— Aqui estão as partes com tamanho diferente — explica Hélio, entregando-me o primeiro saco.

Cada saco traz túnica, mitra, sandália, turíbulo e por fora uma etiqueta com o nome: Christiane, Bárbara, Ramon, Márcio, Lúcia, Luciana, Marta, Fernanda, Alexandra e Theo. Entre tanto ateu vale sempre a pena ter o superior hierárquico do Papa.

Somos quatro a esvaziar a carrinha e mesmo assim demora. É que além dos sacos há as partes de tamanho único, tão grandes que não cabem em sacos: a gola-capa, com os seus ferros de dar cabo de clavículas; o resplendor, com um sol um pouco amolgado da viagem.

— Você bota a mão aqui por dentro e endireita, ó…. — demonstra Hélio.

Foi ele mesmo quem fez as fantasias. É o director da nossa Ala, chamada Ala do Clero.

Enquanto isso, a Preta e a Bela, que do céu só temem trovoadas, tentam cheirar as partes papais. Imagino a desilusão: nada que se coma.

 

2. De sexta para sábado desvio resplendores para ir do quarto à sala. A minha cómoda tem uma instalação de pedras e lantejoulas que se descolaram no desembarque. Até que sábado à noite nos concentramos, seis portuguesas, três cariocas e uma mineira, todos a transbordar do quarto, a encaixar partes.

A parte mais difícil é encaixar o resplendor na gola. Além dos ferros da frente, que massacram as clavículas, a gola tem uns buracos atrás, para receber os ferros do resplendor. Cronenberg versão Idade Média.

Mas as sandálias do Márcio que deviam ser 44 são 39. Não conseguimos passar pela porta com a mitra, não conseguimos passar pela porta com a gola. Os raios do resplendor enredam-se uns nos outros quando voltamos as costas. Decidimos descer a ladeira só de túnica e sandálias, pobres como Cristos, levando as riquezas debaixo dos braços. O plano é apanhar táxis até ao Largo do Machado, onde acontece a primeira concentração geral. A questão é que somos dez Cristos com os braços cheios de paramentos: precisamos de uns cinco táxis e nem um que nos queira levar.

Felizmente a paragem final dos ônibus do Cosme Velho é do outro lado da rua e há um que daqui a nada desce para o Largo do Machado. Felizmente está vazio, porque também não cabia mais ninguém.

 

3. No Largo do Machado, o ponto é o boteco Estação, e já lá estão luzes da nova geração do samba como Moacyr Luz e o meu guru Gabriel Cavalcante, a quem também chamam Gabriel da Muda. Eles não só vão desfilar pela nossa escola, a Império Serrano, como desfilarão no próprio carro da Dona Ivone Lara, musa e tema do nosso samba-enredo.

 

4. “Diz que o dom de compôr é coisa de mulher”, canta a letra. Imaginem nos anos 40 uma negra a compôr. Ela fundou a Império Serrano em 1947, na Ala das Baianas, e desde então como compôs. Clara Nunes, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Roberta Sá, todos cantaram coisas dela.

Está a caminho dos 91 anos e lá estará esta noite. Todo o nosso desfile é para ela:

 

Dona Dama Diva…

Estrela do samba de luz radiante

Show no “Opinião”

Parceira de bambas carreira brilhante

Com a liberdade num lindo alvorecer

Sonha nossa terna mãe baiana

Seu sorriso negro não dá pra esquecer

E hoje nosso Império aclama

 

Dona Ivone

Lara Ia Laia

Lara Laia

Lara Laia

 

Gosto especialmente desta parte do Lara laialaialaialaia, porque com os nervos esqueci tudo o resto.

 

5. Distraímo-nos no passeio do boteco a encaixar resplendores e nem damos pela debandada geral para o metro. Então corremos para a escada rolante na medida das nossas possibilidades, perdemos um metro mal chegamos ao cais, apanhamos um que afinal vai para outra direcção, temos de voltar atrás, mudar de linha, e tudo isto sempre na pele de Cristo já meio-Papa. Uma hora, só no metro.

 

6. Saindo pela Praça Onze, há quem defenda que o caminho é para a direita e quem defenda que é em frente. Mas o Márcio já decidiu que é em frente e portanto vamos atrás dele, em fila indiana.

Antes de entrar no sambódromo, cada escola alinha as suas alas e carros alegóricos na avenida. Como achar a nossa ala? Deambulamos entre milhares de fantasia que não são a nossa, outras cores, outras plumas, outras tribos. Quando avistamos um Papa é uma luz, até percebermos que ele está tão perdido como nós. Um Papa em forma de mulata dá-nos uma descompostura por não termos vindo ao ensaio, mas quando lhe pergunto onde está a nossa ala ela também não sabe.

Na próxima hora recebemos várias instruções:

— É entre o carro três e o carro quatro.

— É à frente do carro três.

— É mais à frente.

Babel. Babel com camelôs a venderem cerveja em lata, e cheiro a urina, e pior. Mas somos damas, donas, divas. Brilhamos de suor e purpurina.

 

7. Quando encontramos a Ala do Clero é o reconhecimento da espécie. Eles têm turíbulos como nós, mitras como nós, ferros nas clavículas como nós. Um sentimento ancestral, bíblico mesmo.

 

8. Acabaram-se os nervos. Estamos entre os nossos, agora é só esperar. Mais cerveja, mais fogo de artifício. Lá em casa, a Preta e a Bela devem andar loucas porque o céu está de novo a rebentar. Mas não chove, ao contrário do ano passado.

Não muito longe de nós há uma carrinha e um magote de gente. No meio, uma cadeira de rodas com uma velhinha negra muito elegante, imóvel.

 

Serra dos anos dourados da nossa história

Desperta e vem cantar feliz

O jongo e o samba de raiz

No enredo desse carnaval

Que não é sonho meu pois ela é real

Ivone Lara Ia

 

Real mesmo. É ela, à espera de ser içada para o carro alegórico.

 

9. A nossa entrada estava marcada para as três da manhã. Passa das quatro quando entramos. O som é tão alto e tão surdo que mal ouvimos o refrão, quanto mais a letra. Mas o que importa é parecer que cantamos, dançando para a esquerda, dançando para a direita, lara laialaialaialaia: Dona Ivone! Nem são os milhões na televisão. São os 70 mil aqui, no sambódromo, agora aumentado e mais iluminado. Um chapão de luz na cara, arquibancadas de gente até ao infinito.

Parece o infinito.

 

10. Esta é a primeira noite dos desfiles de 2012, a noite do Grupo de Acesso, ou seja Segunda Divisão. Só vai subir à Primeira quem ganhar. A Império Serrano, que em triste hora caiu, está apostada em subir. Os veteranos dizem que os carros são os mais vistosos em anos. Da minha parca experiência confirmo que a fantasia de 2011 nem por sombra tinha tantas partes.

Em suma, à Império, esta noite, só interessa o primeiro lugar. Olha a responsabilidade: la-lara-laia-laia-la-laia-laia /  Dona Ivone!

 

 

10. O infinito acaba naquele arco de betão desenhado por Niemeyer, autor do sambódromo. Vemos o arco e por trás dele o morro que daqui a pouco vai amanhecer. Quando a luz acaba debaixo dos nossos pés, precipitamo-nos no escuro. É como aterrar de um voo de Asa Delta. Nunca aterrei de um voo de Asa Delta, mas esta é a cara que as pessoas têm: atordoada, de quem vem de um sonho, do céu mesmo.

 

11. E cá estamos, à saída do sambódromo, à entrada do túnel: damas, donas, divas, todos nós, sentados no passeio, descalçando tacões e sandálias, despindo túnicas, largando asas. Desta vez não vi o camião do lixo a engolir tudo. Só uma lixeira de brilhos, esplendorosa. Pronto, uma mitra para mais tarde recordar. Vá lá, uma mitra e um turíbulo.

Cinco e meia da manhã. Hora de ponta e dos táxis cobrarem caro. Ah, aquele ônibus de trás vai para o Leblon. Vamos correr?

 

(Público, 21-2-2012)

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

*

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>