O “crack” no coração de São Paulo, antes da Nova Luz

Alderon marcou encontro na Luz. A Luz é um epicentro de São Paulo, estação de comboio e de metro onde à hora de ponta milhares de pessoas ficam engarrafadas nos corredores subterrâneos, por exemplo agora, fim da tarde de sexta feira. Mas nós marcámos cá em cima e Alderon vem acompanhado por Valter, um sem-abrigo de espessa barba ruiva, não há que enganar, plástico à volta da cara, por causa da chuva.

Não está o melhor dos tempos para uma caminhada na Cracolândia.

“Nós não chamamos Cracolândia”, atalha Alderon. “Chamamos Luz.” O nome Cracolândia apareceu quando estas ruas junto à Estação de Luz foram tomadas por traficantes e dependentes de “crack”. Ruas semi-abandonadas pelo poder público, prédios que são favelas verticais, pátios que são cortiços, várias famílias por casa, casas improvisadas.

A questão é que sendo isto o centro de São Paulo vale muito dinheiro. E o prefeito Gilberto Kassab prometeu fazer a Nova Luz, um projecto para revitalizar 45 quarteirtões, atraindo investidores privados e imobiliárias, que tem enfrentado atrasos nos tribunais e espera licença ambiental.

Entretanto a polícia está a limpar a zona. Há um mês iniciou uma operação para retomar as ruas. O balanço oficial até agora é de 200 presos e 186 toxicodependentes internados. Aos 180 polícias que por aqui andam vão juntar-se mais 100 na próxima semana. “O poder público restabeleceu a livre circulação por todas as ruas do centro de São Paulo, inclusive por aquelas que diariamente eram ocupadas por centenas de usuários de drogas”, comunicou a Secretaria de Segurança Pública. “A operação atingiu a logística do tráfico de drogas. Prendeu alguns dos maiores fornecedores de entorpecentes, desmantelou pequenos laboratórios onde a droga era preparada, identificou depósitos, veículos e pessoas envolvidas com o tráfico naquela região.”

Segundo as sondagens, 84,7% da população de São Paulo apoia a operação da polícia.

 

Higienização

 

“É a política pública de higienização da cidade”, ironiza o ruivo Valter, segurando o guarda-chuva da repórter por cima das nossas cabeças. Um cavalheiro muito articulado com o dom da palavra. Durante uma década foi luminotécnico de teatro, depois a vida desmoronou-se. “Fiquei sabendo por uma professora de terapia que estou passando por um processo de ruptura social.” Mortes, despedimento, casamento desfeito. Há oito anos começou a ser acolhido em albergues. Está com 48, um ano mais que Alderon.

Alderon Costa, mineiro tornado paulista, fotógrafo e activista nos projectos Rede Rua e revista “Ocas”, para ajudar sem-abrigo.

Somos três para dois guarda-chuvas e anoitece.

“A Luz vai ser um grande centro e pobres atrapalham”, resume Alderon, enquanto caminhamos. “Há planos de derrubar casas, comércio e vender a grandes empresários, que são quem financia os políticos. Eles é que redefinem a cidade, horizontal e vertical.”

Qual seria a alternativa? “Fixar quem já cá mora, com outra qualidade. Por exemplo, a rua do Mercúrio, no bairro do Brás, tinha um prédio com 7000 pessoas, uma favela vertival. A ideia ali seria recuperar e revender para as pessoas. Mas retiraram as pessoas e venderam o prédio. É uma redefinição em função do mercado. A partir daqui vamos ver muitas famílias morando nas ruas e uma das causas é a falta de moradia popular.”

Fachadas tão sujas que parecem queimadas. Uma desolação de cimento, humidade, passeios partidos, baldios.

 

Abandono deliberado

 

“O ‘crack’ é um problema, mas porque se deixou chegar a tal nível?”, pergunta Alderon. “Será que não foi de propósito para manipular a especulação imobiliária? Quem usa ‘crack’ foi manipulado para se concentrar ali e desvalorizar a região. Aí as imobiliárias compram barato e vendem caríssimo, porque isto é uma região com metro, comércio, cultura.”

Tem o Museu da Língua Portuguesa, a Pinacoteca, a Sala São Paulo, onde está sediada a Orquestra Sinfónica.

“Eles tiram os pobres do centro e mandam para a periferia, mas a maioria dos pobres trabalha no centro, não tem dinheiro para transporte e comida.” Numa cidade como São Paulo, vir da periferia pode levar horas. Então muita gente, incluindo catadores de lixo reciclável, vai ficando pelo centro.

Diante da majestosa Sala São Paulo, um pré-fabricado da polícia. Mais à frente, vários sem-abrigo a dormir ao longo dos prédios. E à direita um pátio, pequenas portas, um fogo aceso, crianças descalças.

À entrado cruzamo-nos com um homem de cara depilada como os travestis, chinelando. Valter encontra uma conhecida que morava na rua. Alderon pergunta ao morador Damião se a gente do “crack” ainda anda por aqui. “Não, porque a polícia não deixa, mas andam nos arredores, em Santa Cecília, na Rio Branco…”, explica ele.

Espalharam-se.

“Tudo isto era onde os nóia moravam”, diz outro morador. Chamam nóia aos toxicodependentes. “É modo de falar. Não tomam banho, ficam na rua. Mas são seres humanos como nós. Precisam de tratamento.” Quase 200 foram internados, mas isso parece-lhe nada. “Eram uns dois mil”, calcula. “Que dois mil? Eram seis mil! Não se passava nessa rua de tanta gente!”, contrapõe outro. “E a polícia chegou jogando bomba, jogando tiro.”

Damião nunca teve problemas com os nóia. “Uma cachaça eu bebo, mas droga não.” Trabalhou como motorista, parou por causa de um cancro na próstata. Tem 40 anos e parece 60.

A amiga de Valter chama-se Valéria. De que vive? “Faço pão, vendo calcinha, sutiã…” Paga mais de um salário mínimo por esta divisão, que é quarto-sala-cozinha.

À saída, contra o céu, um Cristo dourado de braços abertos.

“É o colégio dos Salesianos”, explica Alderon. Uns dois salários mínimos de propina.

 

No cabeleireiro

 

Entramos na rua cheia de “graffitti” que era o símbolo da Cracolândia, a Helvétia. Três velhos num passeio, nenhum sinal de “crack” nem da polícia. Tudo estranhamente quieto. Mas um cabeleireiro aberto.

Lá dentro o casal Joemildo e Rosemary. Vieram da Baía, como tantos nordestinos, “atrás de uma oportunidade”, aqui estão há 15 anos. Viram o “crack” chegar. “Era ‘fechado’ de usuários, aqui. Faziam sujeira na porta, sentavam na porta dos outros”, diz Joemildo. “A acção da polícia foi boa.”

A mulher concorda. “Tinha muita insegurança. No tumulto com a polícia a gente tinha de fechar o salão. Hoje está bom. O problema é que o poder público também está querendo fechar todos os estabelecimentos comerciais, estão querendo tirar a gente daqui. Têm ideia de que todo o mundo é conivente com o tráfico.”

O precário cabeleireiro de Joemildo e Rosemary não será o ideal da Nova Luz.

Quem é que aqui vem cortar cabelo, fazer barba, manicure? “Os trabalhadores nordestinos que moram nessas pensões”, explica ela. “Tem várias aqui. E cortiços, sem banheiro. Eles trabalham como camelô [vendedor ambulante], auxiliar de limpeza, comerciantes.”

 

Guineense, ex-dependente

 

“Ali atrás tem o restaurante Bom Prato, onde se come por um real”, revela Valter. Mas Alderon está à procura mesmo é da Cristolândia. “Um espaço da igreja baptista para usuários de ‘crack.’”

Neste caso, Cristolândia é mesmo nome oficial, na placa. À porta, colchões com toxicodependentes deitados. Lá dentro, toda a gente parece ter uma t-shirt a dizer Jesus. Cheira a lixivía, chão recém-lavado.

“Estamos aqui desde 2010”, explica Ana Adélia, uma missionária mulata. Como viram a operação policial? “Não é pela força nem com violência, não é?”, comenta Soraia, a coordenadora. “São precisos outros mecanismos para alcançar o coração. Todos os que entram aqui estão usando droga. A gente vai procurar para eles uma mudança de vida. Aí encaminha para uma comunidade terapêutica.” Não dormem aqui, vêm tomar banho, comer, buscar roupas limpas.

“Nesta região é o único espaço que tem para essas coisas”, diz Alderon. Durante a operação a prefeitura prometeu um centro de assistência mas ainda não está a funcionar.

Um rapaz negro estende a mão: “A minha mãe mora na Amadora. Eu também morei lá.” Chama-se Hideraldo Moacyr. “Nasci na Guiné, meus irmãos já nasceram em Portugal.” Veio para São Paulo estudar direito. “A minha mãe mandava-me dinheiro. Aí conheci o ‘crack’ e me desandei. Fumei tudo.”

Tinha 31 anos, está com 34. “Eu ia para a faculdade e fumava, mas chegou um momento em que não conseguia conciliar as duas coisas. Então fiquei na rua. Aqui no centro, Avenida São João, Rio Branco, Helvética…”

Não encontrou guineenses. “Só angolanos, moçambicanos, nigerianos, congoleses. Eu não sabia pedir, catava papelão no parque e vendia. Às vezes fazia 50 reais num dia. Deixava tudo no ‘crack’, da noite para de manhã já não tinha mais nada.”

Conta isto encostado a uma pilha de colchões, enquanto os outros ex-toxicodependentes vão correndo as portas. São oito da noite.

“Aí eu queria voltar para Portugal mas roubaram-me os documentos no meu primeiro dia na rua.” É uma vida dura, muitos sem-abrigo são mortos. Hideraldo mostra uma cicatriz: “Levei uma facada aqui. Já botaram pistola na cabeça para me matar.” Ficou uns nove meses na rua, até que uns amigos africanos lhe falaram neste centro. Agora trabalha aqui, vai começar a receber salário, voltou à faculdade.

Não foi doloroso deixar o ‘crack’? “Eu só comia e dormia. Quando você está na rua tem medo que alguém venha te matar, te confunda com outra pessoa, aí eu estava muito fraco de não dormir.” Passou a terapia a recuperar.

Que acha ele da operação policial? “Muitos continuam a vaguear pela cidade.”

 

Crack é moeda

 

As portas do centro estão corridas, vai ser escuro na Cracolândia. Cá fora, no passeio, três corpos deitados em espumas e cartões. O do meio é um mulato de olhos luminosos. Chama-se Edivaldo, tem 32 anos e três filhos. Há um ano caiu no ‘crack’.

“Eu cheirava cocaína desde os 15 anos e nunca interferiu em nada”, conta suavemente, alisando um cigarro entre os dedos. Trabalhava como motorista de camião, daí a cocaína. “Fiz várias capitais, Rio, Minas, Bahia, interior de São Paulo.” Camiões frigoríficos de carnes.

“Mas quando comecei a usar o ‘crack’… Com o decorrer do tempo é mais forte. As pessoas da vila onde eu morava foram sabendo, então para não envergonhar a mulher e os filhos saí. Estou fora de casa tem três meses.”

Como vive? “Pego latinha, junto 15, 20 reais num dia. A gente gasta tudo em ‘crack’. Um pedaço do tamanho de um dado custa 10 reais. Aí vou fumando, e quando estou com fome tiro um pedacinho e pago uma marmita para alguém que também é usuário. Tipo, o ‘crack’ é uma moeda.”

O dia dele é conseguir 10 reais para esse pedaço com que vai pagando a comida e cachaça. “Nós estamos aqui deitados, molhados, aí você fuma um bocado e tem aquele alívio, tira o frio, tira a fome. Mas é tipo efeito rápido.”

Mostra a espuma empapada de chuva. Tentaram tapá-la com cartão. “Quando a gente quer fumar vai ali para baixo.” Aponta para o fundo. “Para respeitar o pedaço, para não ficar em frente da casa.” Da Cristolândia.

 

(Público, 5-2-2012)

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