Um carioca em greve de fome contra o abuso policial e a cobertura dos media

Pedro Rios Leão, um carioca de 26 anos, está há uma semana em greve de fome contra o abuso policial na desocupação da favela de Pinheirinho (estado de São Paulo) e a falta de cobertura mediática do que aconteceu.

Ele esteve lá, filmou testemunhos que falam em várias mortes e ocultação de cadáveres e postou um vídeo de 18 minutos no YouTube que à hora de fecho desta edição já tinha sido visto por 77530 pessoas (“Eu queria matar a presidenta: depoimentos da guerra civil brasileira em Pinheirinho”: http://www.youtube.com/watch?v=Tj_zHrx7jcU).

Segunda-feira, acorrentou-se num passeio em frente à sede da TV Globo, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro e desde então só bebeu água.

“Decidi ir para Pinheirinho quando vi o que estava acontecendo”, conta ao PÚBLICO, debaixo de um pequeno toldo, cartões e sacos-cama no chão. À esquerda um estudante de psicologia e à direita uma estudante de comunicação que se vieram juntar ao protesto. Em volta apoiantes e curiosos. São oito da noite.

“Quando vi que seis mil pessoas tinham sido expulsas, peguei na minha câmara e fui, peguei um ónibus”, lembra Pedro. “Comecei a registar tudo. Você reconhece um estado de excepção quando está dentro de um. Eu vi o governo do estado de São Paulo agir como capanga de um banqueiro com ficha criminal.”

Esse banqueiro é o especulador Naji Nahas, dono do terreno onde durante sete anos foi crescendo a comunidade de Pinheirinho sem que as autoridades fizessem nada. Nahas tornou-se famoso por ter levado ao colapso a Bolsa do Rio de Janeiro, no fim dos anos 80. Foi preso e continua a ser investigado. A venda do terreno de Pinheirinho podia ajudar a abater as suas dívidas. Dia 22 de Janeiro, a Polícia Militar de São Paulo, com quase 2000 homens, expulsou os seis a nove mil moradores de Pinheirinho. Testemunhos sobre a violência do que aconteceu levantaram protestos que chegaram a Brasília. A ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, considerou um “absurdo” a operação policial.

Pedro chegou no dia 23. “Não vi gente sendo morta, mas vi gente sendo ameaçada e as mortes eram evidentes. Um hora antes um homem tinha sido morto à queima-roupa, havia centenas de testemunhas e vi o sangue no chão. Dentro do abrigo da prefeitura as pessoas eram constantemente atacadas com balas de borracha e gás lacrimogéneo. A cidade estava sitiada. Uma criança de quatro anos tomou um tiro de borracha no pescoço e morreu na frente de todo o mundo.”

Inspirado pela ocupação de Wall Street ou as revoltas na Grécia, o que Pedro quer é “o retorno da democracia directa” num “estado tomado por criminosos”, e enquanto tiver forças, com a assistência dos bombeiros que o vêm ver duas vezes por dia, continuará aqui.

“O protesto dele é que a media não deu uma cobertura justa, tratando os que foram desalojados como bandidos”, remata Alison, o estudante de psicologia que veio de Curitiba para apoiar Pedro. “Não teve uma investigação e a gente não sabe direito o que aconteceu em Pinheirinho.”

 

(Público, 4-2-2012)

2 comentários a Um carioca em greve de fome contra o abuso policial e a cobertura dos media

  1. Lembra um episódio exactamente descrito nos “Pastores da Noite” (1964) de Jorge Amado, mas o desfecho seria diferente para os moradores do terreno, que conseguem ganhar para a sua causa o apoio da impressa (ainda que movido por interesses questionáveis). Consequentemente, o terreno é expropriado ao proprietário, cujas fontes de rendimento são igualmente duvidosas. Antes fosse na ficção que a história acabasse mal!

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