A gira dos orixás

1. Quando entro no carro já lá estão quatro mulheres que nunca vi e o meu amigo Márcio ao volante. As mulheres vão todas de branco, o Márcio mudará ao chegar. Atravessamos a Baía da Guanabara antes do poente. Depois de Niterói aparece uma placa a dizer Maricá. Os leitores portugueses talvez reconheçam o nome: é o local do crime de Rosalina Ribeiro. Mas não preciso de imaginar Duarte Lima, segundo a justiça brasileira, a virar na mesma placa que nós. Estar a caminho de um templo umbanda já é mistério bastante.

 

2. A umbanda terá começado há cem anos no Rio de Janeiro. Mistura crenças do Antigo Egipto, religiões orientais, cristianismo, espiritismo, cabala e, tal como o candomblé, chama orixás aos deuses: Oxalá, Omolu, Iemanjá, Nanã, Ossayin, Oxóssi, Ogum, Oxum, Iansã, Oxumaré, Xangô. Tem milhares de templos no Brasil, cada um com os seus fiéis. Aquele que nos espera é o Templo do Vale do Sol e da Lua. Este sábado vai homenagear todos os orixás na mesma gira, pela primeira vez. A gira é a missa da umbanda.

 

3. Márcio estaciona diante de uma casa de portão aberto. Saímos como um cortejo de vestais, cinco vestidos brancos, dez braços nus. O jardim está cheio de gente assim, toda de branco, homens também, crianças, até bebés. Do lado esquerdo há um cubículo com um boneco negro que só se vê se espeitarmos por uma fenda. Também há a Árvore dos Caboclos, os Bambus da Tranformação, a Casa das Crianças. Figuras do templo.

Contornando um pequeno café exterior, o corredor leva ao salão da gira, dividido em dois por um pequeno muro com colunas. Quem assiste senta-se do lado de cá, como nas igrejas. Quem é medium ou está a ser iniciado fica do lado de lá, num grande rectângulo coberto por símbolos e objectos, do chão às paredes. E a todo o momento avistaremos o Pai Luiz.

 

4. — Ele era físico — explicam as minhas companheiras de branco.

Ele: Luiz Antonio Martins, o homem que fundou o templo em 1988, um ex-físico interessado em magia, ocultismo, mediunidade. À sua volta foi-se juntando uma comunidade que hoje soma 130 mediuns e chega a ter 250 pessoas a assistir nas giras mensais. Durante a gira, os mediuns incorporam Pretos Velhos, Caboclos ou Crianças, seres ancestrais capazes de revelações, entidades como se diz na umbanda, então as pessoas que vêm assistir consultam-nos. A consulta é um momento alto de cada gira mas este sábado, como todos os orixás serão homenageados, não haverá tempo para consultas.

 

5. No candomblé não há mediuns, os orixás podem ser seres ancestrais e o sacrifício animal é usado como revelador. Já na umbanda, os orixás são forças cósmicas, energias que se manifestam no corpo do medium e em nenhum ritual se matam seres vivos. Toda a magia é vegetariana: ervas, flores, velas, fitas, mel. A gira da umbanda recorre a mantras, como no Oriente, e defuma primeiro o espaço queimando casca de alho e incenso, como no cristianismo primordial.

 

6. Cá estão as cascas de alho, a queimar, à entrada do salão. Os mediuns e os iniciados chegam com as suas roupas brancas especiais, com o símbolo do sol e da lua e colares de missangas coloridas segundo os orixás de cada um. Assim vem Márcio, depois de mudar de roupa. Ficará no terreiro dos iniciados, do lado de lá do murinho.

 

7. Enquanto a assistência enche cadeiras e bancos, leio os papéis colados ao longo do corredor e nas paredes do salão, máximas que cruzam Nietzsche, Gandhi, Einstein, Madre Teresa de Calcutá, Bernard Shaw e o Dalai Lama com vários anónimos:

— “Quando percebo que não sou nada, isso é sabedoria. Quando percebo que sou tudo, isso é amor. E entre estes dois flui minha vida.”

— “Não se pode resolver um problema recorrendo ao mesmo tipo de pensamento que lhe deu origem.”

— “Deve-se ousar. Só os covardes não fazem nada.”

— “Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito: um se chama ontem e o outro se chama amanhã.”

— “Quando queres realmente algo, o universo conspira para que alcances.”

 

8. — Aquele é o Pai Luiz — anunciam as minhas companheiras, experientes de muitas giras, mas ainda espectadoras.

Olho para onde me apontam: um homem alto e magro, de cabelo branco, todo de branco. Podia ser um cientista já retirado. Mas como será a aparênca de um mago?

Os tambores começam, dezenas de iniciados tomam os seus lugares dentro do terreiro, o Pai Luiz vai explicando tudo à assistência, prece a prece, e depois orixá a orixá, a energia que representam. Cada um de nós terá o seu orixá mais forte, temperado por alguns outros.

Então o que acontece no terreiro é que cada medium usa uma faixa com as cores do seu orixá. E quando chega a homenagem ao seu orixá, entra numa espécie de transe, como se o mantra dos tambores desencadeasse uma posse imediata. Há quem dance freneticamente, quem se sacuda, quem pule, sempre à volta do terreiro. Quando um medium em transe para diante de nós, de olhos arregalados, as minhas companheiras curvam-se de mãos abertas. Um outro medium fora de transe está por perto para cuidar que ninguém se magoe num gesto mais brusco.

Passam duas, três, quatro horas.

Perto do derradeiro orixá, um dos mediuns em transe atira-se para o chão, como se mergulhasse no mar.

 

10. A homenagem culmina numa ceia abençoada pelos orixás. Os mediuns vêm trazendo jarras de flores, cestas de frutas, feijão, arroz e farofa. Pousam tudo em volta e a assistência descalça-se para enfim aceder ao terreiro, um pratinho de comida, e uma flor para cada um.

Só então consigo ver o que está nas paredes, como uma igreja de tudo: fotografias de Nietzsche e Einstein, esculturas de ciganos e santos, estrelas de David e imagens de faraós, velas, leques, panos, potes de loiça com a água de cada medium, bolas de cristal, esculturas de índios, de crianças, de caboclos, budas sentados e bengalas, cornos para chamar os orixás e paisagens da Índia. Uma das minhas benfeitoras apresenta-me o Pai Luiz, que me esmaga num abraço. Está a abraçar toda a gente, um a um.

E ao fim de cinco horas tudo nesta gira de umbanda é para mim tão diferente como semelhante a Jerusalém, Istambul ou Bombaim: não vejo deuses, vejo homens.

 

(Público, 4-2-2012)

2 comentários a A gira dos orixás

  1. Boa Tarde
    Gostaria de saber o endereço do templo. Li sobre vcs na Casa do Perdão e me interessei.
    Gostaria também de saber se existe site do templo do Pai Luizão D’Omolu
    No Aguardo de uma breve resposta, agradeço.

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