Das ruínas do Haiti a uma casa em São Paulo

Todos os dias Carla Aguilar conhece novos haitianos. “Ontem recebi três, hoje mais dois.” Chegam a esta Casa do Migrante, no centro de São Paulo, fundada há 35 anos pelos Missionários Scalabrianos para apoiar gente vinda de outras partes do Brasil. Entretanto os imigrantes, sobretudo vindos do Haiti, tornaram-se uma emergência. E o “boom” de haitianos nas fronteiras da Amazónia será tema central na visita que a Presidente Dilma Rousseff está a fazer a Port-au-Prince.

Brasileia, na fronteira com a Bolívia, é uma das passagens de imigrantes. A outra é Tabatinga, na fronteira com a Colômbia e o Peru, por onde entraram os haitianos que o PÚBLICO vai encontrar. Sobretudo homens, mas também mulheres, até grávidas. Muitos com pouca escola, mas também universitários. Levaram semanas, meses e mesmo anos para alcançarem São Paulo, desde as ruínas do pós-terramoto.

“As cidades [da Amazónia] onde eles chegam são pequenas e incham”, diz Carla, assistente social e gerente da Casa do Migrante. “Padres nossos que estão em Manaus falam que recebem 15, 20, 30 pessoas por dia.” Várias centenas ainda estão na fronteira, do lado brasileiro, à espera de visto. O Brasil limitou a concessão para haitianos a 1200 por ano.

Nesta casa, que em média aloja 100 pessoas, um terço são haitianos.”A maioria está vindo para trabalhar na construção civil e nós temos um projecto de encaminhamento com empresas. As mulheres são menos qualificadas, todas têm menos do que o 9º ano.”

O êxodo começou no terramoto. “O Brasil abriu essa possibilidade, então a gente que recebia 8 a 10 haitianos por ano agora pode receber esse número num dia.” Não há limites à estadia. “Isto não é um albergue, é uma casa, tem menos regras, só de convivência.”

Dormitórios de sete pessoas, três refeições por dia, marmita para o trabalho, biblioteca, sala de Internet. E sessões de esclarecimento quanto a trabalho, como a que acontece agora, sábado à tarde, numa das salas à volta do pátio central.

Depois o pátio enche-se de haitianos. Numa esquina está Margarette, a grávida de quem Carla falou, 26 anos que parecem de adolescente, barriga de seis meses. Trabalhava numa padaria, explica num francês hesitante, com umas palavras em português, outras em espanhol. A língua franca deste pátio é mesmo crioulo.

Margarette perdeu a casa no terramoto de 2010. Já tinha um filho pequeno. Deixou-o com a mãe quando decidiu partir de Port-au-Prince para “buscar uma vida melhor” ao lado do namorado. Foram de autocarro para a República Dominicana. Depois, de avião e autocarro, fizeram Panamá, Equador, Peru, onde apanharam um barco até Tabatinga. “Passámos lá três meses, mas ele não gostou do Brasil e eu fiquei grávida quando ele voltou.” Ela seguiu para Manaus, limpou um restaurante durante quatro meses até que uma amiga lhe disse que estaria melhor em São Paulo. Agora vai esperar que o bebé nasça para arranjar trabalhar. “Num restaurante, numa casa, qualquer coisa.”

 

Longa espera

 

Fricy, 22 anos, passou pela República Dominicana e pelo Equador até chegar a Manaus. “Mas faz muito calor lá e quero terminar os estudos aqui em São Paulo.” Já arranjou trabalho como canalizador numa empresa. Ganha 910 reais (400 euros). Jemps, 26 anos, fez Equador-Lima-Tabatinga-Manaus-São Paulo. Antes do terramoto era mecânico, tinha o 9º ano. Perdeu a casa e alguma família. Aqui pinta casas, por um salário idêntico ao de Fricy.

Ambos são veteranos do pátio. Estão há semanas na Casa do Migrante, até terem dinheiro para alugar casa.

Já Wilner, acaba de chegar. Ei-lo sentado num banco, com o seu boné. É mais velho, 35 anos, o francês sai-lhe melhor, estudou mais. “Sou professor de matemática.” Mas tal como os outros não tinha trabalho em Port-au-Prince. “Fui de autocarro para a República Dominicana, de avião para o Panamá, de avião para Lima, de avião para Iquitos, de barco para Tabatinga.” Só a viagem foram “17 ou 18 dias”. Mais três meses para esquecer em Tabatinga. “Comemos mal, dormimos mal, trabalho, nada, à espera do visto e do CPF [Cadastro de Pessoa Física, um número essencial no Brasil].” Logo que Wilner arranje trabalho volta ao Haiti para ir buscar a mulher e os três filhos.

Ao lado, o seu primo Esnet é auxiliar de contabilidade, tem dois anos de faculdade e ainda não recuperou da experiência em Tabatinga. “”Uma vida que eu não tinha imaginado. Trataram-nos como pobres.” Ao fim de quatro meses apanhou o barco para Manaus, onde durante quase um ano montou janelas: “Jánêlá.”

Esnet sabe que não avança sem aprender a língua. “Perdi os meus pais no tremor de terra, a casa foi esmagada, até hoje eles estão por baixo da casa. Aqui encontrei gente má e boa, mas amo o Brasil quero ficar. Tenho um irmão em Manaus que está a trabalhar como pedreiro. Como não falo bom português ainda não posso exercer a minha profissão, então estou disponível para seja o que for.”

Colecciona todas as palavras em português que pode: “Bom dia, como vai, tudo bem? Beleza.”

 

(Público, 2-2-2012)

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