Como Rosalina morou no Rio sem pôr um pé na praia

1. O AFILHADO

 

É um prédio colado ao Palácio do Catete, onde em 1954 Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, e vestido com o seu pijama às riscas, deu um tiro no peito.

Ao lado o palácio, em frente a Praia do Flamengo, ao fundo o Pão de Açúcar. Uma bela morada carioca, e se subirmos ao 7º andar mais ainda.

Aqui fica o apartamento de Rosalina Ribeiro, a portuguesa que o advogado e ex-deputado do PSD Duarte Lima é suspeito de ter asassinado no dia 7 de Dezembro de 2009, de acordo com a investigação da polícia brasileira a que o PÚBLICO teve acesso (ver edição de 29/9).

Desde a morte dela, o seu afilhado e herdeiro Armando tem vindo de Lisboa para colaborar com as investigações. E é ele quem abre a porta.

Entra-se directamente para a grande sala que no tempo de Rosalina ainda era maior, porque incluía o escritório. Armando separou-o com uma parede e levou para a sala a estante dos livros. Tudo parece meticulosamente limpo e a primeira impressão é dominada pela vista, desde a Ponte de Niterói ao morro do Pão de Açúcar, e pelos livros, muito manuseados.

Várias prateleiras têm enciclopédias, edições já desbotadas da Britannica, histórias universais, dicionários. Mas várias têm também literatura, sem qualquer ordem perceptível, e misturada com outros géneros.

Por exemplo, esta sequência: “Os Três Mosqueteiros”, as Brontë em inglês, Victor Hugo em português, uma biografia do Padre António Vieira, um relatório do 25 de Novembro e o “Inferno” de Dante.

Ou esta: Marcelo Caetano, um livro sobre Camarate, Trótski sobre “Os Crimes de Stalin”, “As Vidas dos Santos”, “A Sibila”, o Código Civil Brasileiro, as “Sátiras” de Horácio e uma edição antiga do “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa.

Paremos nela. Capa e contracapa estão descoladas, as extremidades carcomidas, mas lá dentro o livro parece impecável, com quase todas as páginas por abrir. O mais extraordinário é isto: trata-se da primeira edição de 1956, da José Olympio. Ou seja, na casa onde Rosalina morou os seus últimos anos está uma primeira edição perdida do mais importante romance brasileiro do século XX. Tendo em conta o estado das capas, o mais provável é que ela desconhecesse o seu valor hoje em dia, pelo menos algumas centenas de euros.

O afilhado Armando também desconhece, está agora a saber. A paixão dele é a pintura “naïve”, como se vê pelas telas que pôs nas paredes. “A minha madrinha era uma grande leitora”, diz, com o livro na mão. “Sempre que tinha tempo lia. Mas ultimamente não tinha tempo para mais nada a não ser os processos de tribunal.”

Relativos à descomunal herança do industrial português Lúcio Tomé Feteira. Não fosse a herança, aliás, e não estaríamos aqui a falar com Armando.

É que Rosalina foi namorada de Feteira depois de ter sido sua secretária. Ele nunca se divorciou da mulher até morrer, e antes de Rosalina teve outra namorada, Celeste, que também fora sua secretária. Isto é relevante porque quem aqui morava originalmente era Celeste. Este é o apartamento onde Feteira ficava com Celeste quando vinha ao Brasil a negócios. Quando Celeste morreu, Feteira convenceu Rosalina a comprá-lo porque gostava de estar aqui.

 

O quarto deles

 

A sala é também de jantar, com mobília portuguesa pesada e uma bailarina de flamenco, que Armando acha que tem algo de fadista. No corredor há uma grande infiltração causada pela vizinha, mas de resto todas as divisões estão perfeitamente cuidadas.

Duas casas-de-banho, sem contar com a da empregada, contígua ao quarto de empregada, contíguo à lavandaria, contígua à cozinha, ampla. Típica estrutura carioca de classe média alta.

Numa ponta do corredor está o escritório, agora autónomo e transformado em quarto-de-cama, mas ainda com a bela escrivaninha de Rosalina. Na outra ponta, fica o quarto das visitas e o quarto principal, assim descrito por Armando: “O quarto dela e do senhor Feteira.”

É uma divisão voltada para traseiras de prédios e para um pedaço de favela. Mas esta melancólica vista está velada por venezianas de madeira. E em todo o quarto existe um despojamento quase monástico. Móveis sóbrios, cama ao centro com crucifixo pendurado na cabeceira, uma mesa-de-cabeceira de cada lado com candeeiros de vidro fosco, de um lado uma Nossa Senhora de Fátima e um Cristo de loiça, do outro um telefone antigo, daqueles de rodar com o dedo.

Em frente à cama, cómoda e espelho. Ao lado da cómoda, um armário com uma pequena televisão antiquada em cima. “Este armário era o gira-discos deles”, revela Armando, abrindo as portas. Não apenas um gira-discos, um fantástico rádio. Peça de colecção. “Quero ver se ponho isto a trabalhar…” Inclina-se para ver a marca. “É Telefunken. Acho que já nem existe. Os discos já caíam automaticamente.”

Ao lado da televisão estão pousadas duas grandes fotografias emolduradas. “Ah, este é o senhor Feteira”, diz Armando, quando a repórter pega na de cima.

Lisboeta crescido na Penha da França, baixo, calvo e sorridente, Armando Manuel Custódio de Carvalho, 57 anos, técnico de comunicações, diz sempre “senhor Feteira”. A primeira vez que veio ao Brasil foi quando a madrinha morreu.

“Eu não gostava do Brasil, ela é que vinha”, diz, apontando a mulher, Ilda, 60 anos, bancária aposentada. “Eu vim uma vez, em 2000 com ela e o senhor Feteira”, conta Ilda. “Foi no ano da morte dele. Vim no Carnaval e ele morreu em Dezembro.” Ficou no quarto de hóspedes e viu como era Rosalina que cuidava da casa, só com ajuda de uma empregada uma vez por semana. Quando o hábito nestes apartamentos cariocas é ter empregada residente ou diária.

“A minha madrinha gostava de fazer as coisas. Nunca achava que estivesse bem se não fosse ela. Era muito organizada. Ultimamente não tanto, mas só porque a papelada era muita. Lá em Lisboa a sala de jantar e o corredor eram só papéis, processos e mais processos.”

Depois da morte de Feteira, a sua fortuna, ainda por contabilizar na totalidade, mas somando pelo menos dezenas de milhões, gerou um braço-de-ferro entre Olímpia, sua filha, e Rosalina, sua companheira, ambas herdeiras.

O lugar da fotografia de Feteira era por cima da cama, naquele preguinho vazio. Armando volta a pendurá-la.

 

Como filho

 

Segundo o seu afilhado, a história de Rosalina é a história de uma rapariga que sempre cuidou de velhos, a começar pelo homem com quem casou aos 19 anos. “Nasci cinco dias depois dela casar com o senhor Ribeiro”, conta Armando. “Ela tinha 19, ele 60. Ou 69? Era industrial de madeiras, um homem muito rico. Os filhos roubaram tudo.” Porque é que Rosalina casou com ele? “Nem por amor, nem por dinheiro. Por independência. Em 1950 tudo era complicado.”

A tia de Rosalina era prima do pai de Armando. “Morávamos todos ao lado uns dos outros na Penha de França.” E Armando começou a ficar com Rosalina em bebé. Ela nunca quis ter filhos próprios? “Não quis… Bem, o marido tinha 60 e tal…”, diz Ilda. “Ela sempre dizia que o Armando era o filho.”

“Fui para casa dela com oito dias”, confirma ele. “Vivi lá quase toda a juventude, até aos 15, 16. Depois fui para a guerra em Angola. Depois há o 25 de Abril e ela teve de fugir para o Brasil, apelidada de fascista.”

Porque trabalhava com o milionário Feteira. Mas a relação de Feteira com Brasil é muito anterior a 1974. “Tenho aí cartas dele para o [presidente brasileiro Juscelino] Kubitschek e do Kubitschek para ele.”

Já Rosalina, até ao 25 de Abril nunca atravessava o Atlântico. “Ficava lá a tratar do escritório e do filho do senhor Feteira, o Lucito, esquizofrénico, que morreu com um cancro de pulmão.” A outra fotografia emoldurada no quarto é deste filho de Feteira.

Acima da política, o que interessava ao industrial era o negócio.  “Ele até financiou uma revolução contra Salazar. Só queria que o deixassem trabalhar. Era contra quem não o deixasse trabalhar.” E houve um momento em que o regime não estava aberto a demasiada iniciativa empresarial.

O convívio de Armando com Feteira era uma extensão natural da relação progressiva da sua madrinha com ele. “Foi casado até morrer mas dormia num quarto separado da mulher, até em zonas diferentes da casa. Com a minha madrinha, em Lisboa dormiam na mesma cama e aqui também. Mas trataram-se por Dona Lina e Senhor Feteira até ele morrer.”

Armando acha a palavra amantes inadequada. “Ternura, respeito, isso havia. Ele não via mais ninguém. Ela era a única pessoa no mundo em que ele acreditava. Se ele a perdesse, perdia tudo. Ela era o ar que ele respirava. Se ela faltasse, ele morria.”

Ilda reforça: “Nenhuma viúva terá tratado tão bem o marido quanto ela.”

 

Medo do Rio

 

Como reagiu Rosalina ao 25 de Abril? “Ficou assustada, ficámos todos”, diz Armando. “E com razão. Provou-se que ladrões eram os outros. A porcaria entrou. Não tenho medo que me chamem de salazarista. Não sou porque reconheço que cometeu erros gravíssimos.” E se lhe pedirem para citar um político que admira? “Aí sou obrigada a dizer: Salazar.”

Chegada ao Rio depois da revolução, Rosalina foi viver para um apartamento na avenida Ruy Barbosa, também bairro do Flamengo, quase encostando a Botafogo. “Comprou um apartamento pequeno, de dois quartos, e viveu lá até D. Celeste falecer.” Então Rosalina vendeu o apartamento da Ruy Barbosa e mais dois que tinha em Maricá, nos arredores do Rio, para comprar este.

“Ela tinha de lhe pagar as coisas todas”, diz Armando. “Ele queria viver com ela, mas ela tinha de comprar a casa.” Não por avareza. “Ele era generoso, dava tudo e mais alguma coisa. Ajudou milhares e milhares de pessoas.” Ilda acrescenta: “Aquilo no Natal era só cheques e cheques a saírem.” Mas para Rosalina era uma questão de independência, garantem. “Ela gostava de poder falar. Era o orgulho dela.”

O dinheiro com que Rosalina comprou apartamentos vinha da sua participação nos negócios. “Aqui no Brasil, ele tinha 99,9% da empresa SEAI e ela 0,1 mas ela é que era presidente. Vivia seis meses em Portugal, seis meses aqui.”

E gostava do Rio?

“Não gostava de andar na rua”, diz Ilda. “Tinha medo.” Armando desenvolve: “Por causa dos assaltos. Nem pensar em passear. Quando andava era com chofer. Acho que nunca foi à praia. Acho que nunca pisou a areia do Flamengo.” Ilda: “Na casa da Ruy Barbosa tinha piscina no último andar e ela nunca lá foi.” Armando: “O Rio era só para trabalhar.” Ilda: “A não ser que fosse para mostrar às visitas o Pão de Açúcar, o Cristo, a Barra. Mas metíamo-nos logo no carro. Passear no calçadão nem pensar. Uma vez fui só dar uma voltinha e o chofer teve de vir comigo.” Rosalina ainda mostrou a Ilda a pastelaria Colombo, o Real Gabinete de Leitura e a Casa de Portugal. “Mas fomos a correr e viemos.” Conclusão de Armando: “Ela quis casar para ter liberdade e sempre foi uma mulher presa aos velhos. Daí o ter-me como filho.”

Um filho que se converteu ao Rio, entretanto. Este fim de semana até foi com Ilda para a maré nocturna da Lapa.

Mas o objectivo principal é colaborar com a investigação do crime. “A polícia brasileira está a fazer um óptimo trabalho.” Nas vésperas do homicídio, Rosalina recebia “constantes ameaças por telefone e até por fax”, com frases como: “Tem cuidado a atravessar a rua”, ou “Andas a roubar.”

A investigação, agora concluída, a que o PÚBLICO teve acesso, aponta para Duarte Lima como único supeito, admitindo que ele possa ter recebido ajuda de alguém até agora desconhecido. Segundo este relatório, agora em análise pela chefia da Polícia Civil, o ex-deputado não queria prescindir de pelo menos 5,8 milhões de euros que Rosalina lhe teria entregue para pôr numa conta na Suíça. Foi Feteira quem recomendou Lima a Rosalina, se precisasse de um conselheiro depois dele morrer.

“Ele nem era advogado dela, era conselheiro”, distingue Armando. “Eu muitas vezes alertei que não gostava dele. E ela dizia que não, que ele era uma pessoa muito séria. Mas para o fim já me dava razão, que se calhar andava enganada.”

 

2. A FADISTA

 

Meia hora de táxi até para lá do Maracanã e estamos no Méier, um tradicional bairro da Zona Norte do Rio, sempre fora dos postais.

Maria Alcina vive aqui por amor. “Já vivi em Ipanema”, diz, à porta da sua grande casa. “Mas aqui tenho os meus bichos, o meu jardim.” E esta é a casa construída pelo homem com quem casou, o João, tinha ela 65 e ele 70, portanto ela mudou-se.

Conheciam-se desde os tempos em que ambos eram jovens numa aldeia de Castro Daire, emigraram para o Brasil separadamente, fizeram as suas carreiras, ele na construção, ela no fado. E quando, muitos anos depois, enviuvaram, resolveram casar — com 700 convidados e noite de núpcias na suite presidencial do mítico Hotel Glória, o rival do Copacabana Palace.

Tudo isto importa porque Rosalina gostava da atmosfera alegre desta casa, e ouvindo Maria Alcina não é difícil acreditar.

Aos 72, sentada na sua sala imaculadamente limpa, é uma mulher elegante e doce, homenageada em muitos diplomas, do Real Gabinete de Leitura ao Grémio Literário Português. Mais de meio século a cantar fado no Brasil.

O marido está no andar de cima, a recuperar de uma operação. “Você olha para ele”, diz Maria Alcina com o seu sotaque já quase carioca, “e ele transmite muita coisa boa. A D. Lina tinha um carinho muito grande por ele. Era como se fosse irmão dela.” D. Lina é Rosalina. “Ela passava Natais connosco. Gostava muito de nós porque achava que havia uma amizade e não um interesse. Veio de Lisboa de propósito para o nosso casamento.”

Conheceram-se porque Maria Alcina cantava para os velhinhos da Casa de Portugal, que tem um lar e um hospital. “O senhor Feteira e a D. Lina iam lá porque o filho dele faleceu lá. E antes o senhor Feteira já ajudava a Casa. Eu já o conhecia de nome. Ele era ‘o’ magnata português. E além de ser conhecido pela fortuna, era conhecido pela generosidade.”

Chamava-lhe senhor Feteira e nunca deixou de chamar D. Lina. “Ela brigava, queria que eu a chamasse de Lina, mas a minha admiração era tão grande que eu não conseguia. Pela dignidade, pelo jeito dela.”

 

Fado de cor

 

Feteira e Rosalina passaram a ir ao restaurante de Maria Alcina em Ipanema e ela ia muitas vezes cantar a casa deles, no fim de algum jantar. Como era a relação do industrial com a sua namorada? “Muito linda. A D. Lina estava sempre ao lado dele, com aquela meiguice por ele, e ele por ela. Era um homem alto e ela baixinha, mas naquele carinho crescia muito ao lado dele.” Sem nunca deixar de lhe chamar senhor Feteira.

E o milionário adorava fado. “Quando ele facturou o fémur em 1998, ela ligava para mim, mandava o motorista apanhar-me e eu ia cantar para ele. Ele sabia todas, mas a favorita era: ‘Na pequena capelinha / da aldeia velha e branquinha / dei à Maria da Luz / uma cruz de pôr ao peito / e o juramento foi feito /pelos dois nessa cruz…”

Alcina canta bem afinada.

“Era um ambiente de muito amor. Quando ele teve esse problema do fémur, ela não deixava que o enfermeiro lhe desse banho. E tirava-lhe a placa, limpava-a, colocava-a de novo, dava-lhe um beijinho. Um selinho. Também vi algumas vezes beijos na boca.”

Feteira era um homem sociável. “Adorava contar peripécias de quando andou lá pela África e os canibais quiseram comê-lo.” E, insiste Maria Alcina, ajudou “muita gente”, “doou muito às instituições portuguesas”.

Nunca ouviu Rosalina queixar-se de não serem casados. “Ela cuidou dos tios, depois do marido, depois do senhor Feteira. E nunca o deixava sozinho.” Também ela era generosa. “Levava sempre uma mala de banana-prata [as melhores bananas brasileiras] para os vizinhos em Portugal que eram velhinhos. E mal chegava cá, ia à Casa de Portugal. Dizia: ‘Vou ver como estão os meus velhinhos.’ Comprava-lhes lençóis e toalhas, tudo o que precisassem.”

A festa dos 50 anos de carreira de Maria Alcina aconteceu na véspera do crime, 6 de Dezembro. A fadista emociona-se ao recordar. Foi a última vez que estiveram juntas, e Rosalina telefonou-lhe ao chegar a casa para lhe dar mais uma vez parabéns.

Que pensa de Duarte Lima? Como é que Rosalina falava dele? “Tinha muita confiança. Quando ele teve leucemia, dizia-me: ‘Maria Alcine reze pelo doutor Duarte Lima.’ E quando ele ficou bom ela ficou tão feliz. Nunca ouvi ela falar nada mal dele.”

Nas vésperas do crime, Rosalina disse à amiga que estava à espera de um advogado que vinha aí. O que aconteceu foi que esse advogado era Duarte Lima. O ex-deputado conta que a apanhou numa esquina junto ao apartamento dela no Flamengo. Maria Alcina acha estranho ela ter saído sozinha à noite, a caminhar. “Ela não saía à noite.”

Depois da morte de Feteira, Rosalina tinha um quotidiano simples e era uma mulher de rotinas. “Todos os dias antes de dormir ligava para mim contando o que fizera durante o dia.” Deitava-se cedo, e no escritório. “Tinha um sofá-cama, para ver o sol nascer na Praia do Flamengo.” Ou seja, não usava tanto o quarto de cama depois da morte de Feteira.

“Que eu saiba nunca foi na praia. Ia na casa da Rose [a sua confidente] ou vinha aqui almoçar, ou íamos passear na Barra, em Niterói. Ela gostava muito da parte atlântica de Niterói, e adorava estar aqui em casa. Dizia que tinham sido os natais mais felizes que passou.” E adorava a vista da própria casa, lá no Flamengo. “Inclusive passámos um reveillon lá.”

Não gastava muito, mas “andava sempre arrumadinha”, e a ideia dela era “aproveitar a herança para fazer uma fundação para os velhinhos, não ia ficar com esse dinheiro para ela”. Em suma: “Tinha um coração de ouro, aquela mulher.”

 

3. A CONFIDENTE

 

Rose, de Rosemary. 82 anos e não se acredita. Uma carioca elegante, no seu apartamento elegante do Flamengo com uma vista maravilhosa sobre o Pão de Açúcar e a Baía de Botafogo. Era a amiga mais próxima de Rosalina. A portuguesa confiava-lhe tudo, mesmo coisas de negócios.

“Conheci-a numa viagem a Portugal com o meu marido, muito amigo do Feteira.” Era advogado, já morreu. Esse primeiro encontro terá sido na primeira metade dos anos 60. “Houve muita afinidade. Ela era muito alegre, muito graciosa, cantava. Onde ela estava havia sempre alegria. Era companheira para tudo.”

Mas a grande viagem que fizeram juntos foi anos depois. Feteira convidou Rose e o marido para correrem Portugal e Espanha com ele e Rosalina. Foram semanas, de motorista, num carro grande, despesas por conta dele. “Ficámos sempre muito bem instalados, restaurantes dos melhores. E adorávamos comer. Eu e o Feteira então, comíamos muito, sempre o vinho à mesa. Foi uma estadia muito agradável, vimos muitas coisas bonitas.”

Que achou Rose da relação de Rosalina com Feteira? “A gente via que se completavam. Ele muito carinhoso com ela, e ela então nem se fala. Mão dada, muito afecto, sempre atenta aos remédios. A Lina viveu para ele. Não tinha vida própria.” Foi o amor da vida dela? “Foi”, responde sem hesitar. E ela foi o amor da vida dele? Hesita. “Acredito que sim… Ele sentia muita falta dela, gostava de estar sempre com ela. A gente queria fazer uma compra e ele queria ir junto.”

 

Pressentimento

 

Rose e o marido retribuíram a Península Ibérica com viagens a Brasília e às cidades históricas mineiras. E iam muito os quatro a restaurantes bons do Rio e arredores. “O Feteira gostava muito de receber, de estar cercado de amigos, de contar histórias da vida dele. A vida dele dava um livro. Era um homem muito instruído, com uma conversa muito agradável.”

Rose achou-o um grande leitor. “O que mais adorava era entrar em livraria. Ficava horas vendo livro e comprando. Conversava muito com o meu marido sobre livros. Inclusive quando fomos nessa viagem para Portugal o meu marido levou um livro raro para ele. E eu levei uma jóia para Lina.”

Depois da morte de Feteira, Rosalina aproximou-se mais da amiga. “Ela nunca foi à praia”, confirma Rose. “Íamos ao cinema, ao teatro, almoçávamos fora, ela vinha aqui em casa almoçar, comer um feijãozinho, uma farofa. Gostava de filmes musicais e de romance. Adorava comprar presentes para os amigos em Portugal. Chegava aqui já pensando nisso, fazia uma lista enorme. Era muito gentil. Mas tinha génio, quando precisava se impor.” Por exemplo, se achasse que as pessoas estavam a ser interesseiras. “Ela demonstrava. Tanto que tem gente que não gosta dela.”

De resto, Rosalina “tinha muito medo de sair no Rio sozinha”, tanto que Rose diz que não entende “como é que saiu na noite em que foi morta”. No último telefonema para Rose, Rosalina disse-lhe que estava à espera de alguém que Duarte Lima mandara. “Ela não sabia quem era e não entendia porque não podia saber. Duarte Lima alegou que não podia dizer por telefone. Ela disse-me que se essa pessoa chegasse na hora de jantar ia levá-la ao restaurante Alcaparra, junto da casa dela. Mas porque é que ele [Duarte Lima] não pegou ela na frente do prédio?”

Que contava ela dele? “Tinha muita confiança, mas da última vez que cá veio estava com certas restrições Não estava muito satisfeita com ele.” Nunca disse a Rose que lhe dera dinheiro. “Só me dizia que o dinheiro de Portugal estava bloqueado, que não lhe podia mexer.” Enquanto durassem os processos. “Ela detestava a Olímpia, achava que ela era má até com o pai. E o pai não fazia segredo disso. Falava até brincando.”

Rose também diz que o que a amiga mais gostava no Rio era a vista da própria casa e por isso dormia no escritório. De resto, sendo católica, Rosalina “acreditava em espiritismo”, e isso parecia estender-se à sua relação com o Rio. “Às vezes penso que ela tinha um pressentimento de que não podia sair de casa porque alguma coisa ia acontecer.”

 

(Público, 5-10-2011)

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