Coisas de amor que eles fizeram

 

1. No dia 13 de Fevereiro de 1965 uma adolescente de 18 anos parou a história do Brasil. Aconteceu num palco do Rio de Janeiro, durante o “show” “Opinião”, encenado por Augusto Boal. Poderoso musical contra a ditadura, o “Opinião” juntava em cena o nordestino João do Vale, o negro Zé Keti e a musa carioca Nara Leão. Problemas de voz levaram Nara a ser substituída por Susana de Moraes, filha de Vinicius, e ao fim de duas semanas Boal convidou uma desconhecida para continuar a substituir Nara.

Os espectadores dessa noite de Verão viram então aparecer uma estranha adolescente, delgada como uma planta, cabelo negro preso na nuca, perfil de águia. Quando ela, inabalável, abriu a boca e bradou “Carcaráááááá!”, a música popular não foi mais a mesma. De onde vinha aquela voz? Do centro da terra? Do começo do mundo? “Carcará!
/ Pega, mata e come
/ Carcará!
/ Num vai morrer de fome
/ Carcará!
/ Mais coragem do que homem
/ Carcará!”

E olhos nos olhos da plateia, ela recitava, varrendo o espaço: “Em 1950 mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus estados natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí. 15% da Bahia…”

Era da Bahia que ela vinha. Chamava-se Maria Bethânia.

 

2. Na plateia estava o poeta Reynaldo Jardim e o abalo nele foi tão forte que gerou um poema contínuo durante os três anos seguintes. O livro saiu em 1968 com o título “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”. Os militares declararam-no subversivo e pornográfico, queimaram os cinco mil exemplares da edição e interrogaram Bethânia sobre o assunto, em Dezembro, quando a prenderam. “Queriam saber porque eu causei esse livro, porque esse cara escreveu esse livro para mim… É um poema lindo do Reynaldo, uma coisa de amor que ele fez”, contou Bethânia numa entrevista a Marília Gabriela.

 

3. Ramon Mello e Marcio Debellian nasceram muitos anos depois do livro ser queimado. Mas Ramon, jornalista, poeta e admirador da obra de Reynaldo, estava a tentar marcar uma entrevista com ele quando ele morreu, em Fevereiro passado, aos 82 anos. E Marcio, idealizador e produtor por exemplo do filme “Palavra (En)cantada” sobre a relação entre poesia e música no Brasil, ficara a saber do livro ao ver um extra de um DVD de Bethânia.

Juntos, decidiram arranjar forma de reeditar “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”. Uma edição original achada na Internet custava 2500 euros. A solução foi falar com a viúva de Reynaldo, Eliana Daher. Ela não só lhes cedeu um exemplar sobrevivente como recortes da altura. Compraram os direitos, prepararam um volume acrescentado de vários textos sobre o caso, mas mantendo o grafismo original, e propuseram a Bethânia dois “shows” para coincidir com o lançamento. Vão acontecer dia 18 e 19, no Rio de Janeiro.

 

4. Declaração de interesses: sou amiga de Ramon e Marcio. Ramon é o Dylan Tupiniquim Thomas do começo destas crónicas. Conheci-o na praia desde logo a falar de poesia. Marcio apareceu bem depois, mas também desde logo a falar de poesia.

A primeira vez que soube do livro de Reynaldo sobre Bethânia foi há semanas, na minha casa do Cosme Velho, numa noite de quase Primavera em que Ramon, Marcio, e não apenas eles, leram em voz alta, e em volta, “O Amor Em Visita”, de Herberto Helder.

O livro de Bethânia era só uma das várias coisas que eles estavam a fazer. Por exemplo, Ramon ainda nem sabia se ia conseguir montar a exposição “Tudo vai ficar da cor que você quiser”, uma retrospectiva da pintura de Rodrigo de Souza Leão.

 

4. Criador esquizofrénico e prolífico, Rodrigo de Souza Leão nasceu no Rio em 1965 e morreu numa clínica psiquiátrica em 2009, deixando todo um espólio de textos e pinturas. A pedido da família, Ramon ficou como curador da obra, contou-me tudo isto numa tarde em que ia justamente a casa dos pais de Rodrigo e perguntou se eu não iria com ele. Fui e vi as telas serem desenroladas no chão da sala, uma a uma, até não caberem mais. Nascia aí o projecto da exposição. O Museu de Arte Moderna [MAM] do Rio de Janeiro estava disponível para a receber, com a colaboração da portuguesa Marta Mestre, curadora assistente, mas não tinha dinheiro.

Então nos meses seguintes, entre a preparação do livro de Reynaldo-Bethânia, Ramon organizou um “crowdfunding”, ou seja uma colecta na Internet, para conseguir concretizar a exposição. E pelo meio ainda ia ensaiando uma adaptação a teatro de “Todos os Cachorros São Azuis”, livro de estreia de Rodrigo.

O espectáculo estreou em Julho, quando eu estava na Amazónia. Quando voltei, com 15 textos para escrever de seguida, a única noite em que saí de casa foi para o ver.

 

5. Em “Todos os Cachorros são Azuis”, Rodrigo está no hospital psiquiátrico, acha que lhe puseram um “chip”, sente choques eléctricos e os seus melhores amigos são alucinações, Rimbaud e Baudelaire.

Ele fala com os dois assim: “Rimbaud andava sobre o muro. Sai daí, seu filho-da-puta. Cuidado. Fui para o quarto para não ver minha adrenalina crescer. Rimbaud veio logo atrás de mim. Estou só. Este mundo é assim. Cadê o Baudelaire? Está jogando sinuca.”

Ou, convocando Pessoa para o trio eléctrico: “Não sou nada, Rimbaud. Quer um cigarro? Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os remédios do mundo. Rimbaud, serei sempre ‘o que não nasceu para isso’, serei sempre aquele que esperou que lhe abrissem a porta numa parede sem porta. Rimbaud, já estamos cansados dessa festa, não? Baudelaire fez até um poema. E nós, nada.”

Em “Me Roubaram Uns Dias Contados”, conto tornado romance, último romance de Rodrigo antes da morte, talvez autobiografia (mas romance pode não ser autobiografia?), todos os “personagens caminham na direcção de uma grande metamorfose”, escreve o poeta Leonardo Gandolfi na introdução. “Se essa metamorfose não se chamar apenas literatura será porque também a conhecemos pelo nome de amor.”

Por causa de Bethânia, Reynaldo fez um livro. Por causa de Bethânia e de Reynaldo, Ramon e Marcio vão fazer um livro e espectáculos. Por causa de Rodrigo, Ramon está a fazer livros e vai fazer uma exposição, incluindo catálogo com textos de Heloísa Buarque de Holanda e Paulo Sérgio Duarte, em que nenhuma das obras será para vender, todas serão para doar.

Abre daqui a um mês no MAM. Lá estaremos, Tupiniquim.

 

(Público, 8-10-2011)

 

3 comentários a Coisas de amor que eles fizeram

  1. Pingback: Coisas de amor que eles fizeram | Autores e Livros

  2. O texto li-o há dias e ficou a navegar numa memória subitamente iluminada, como se acendesse a luz, do tempo, da história, dos lugares, do sonho. Ontem fui ver e viver o filme As Serviçais e hoje regressei a esta bela prosa (como são difíceis os adjectivos quando lemos textos como os que a ALC escreve), como revisão e longe – longe ou demasiado perto? – como um tambor do outro lado, chegaram os sons de Morte e Vida Severina – essa terra em que estás, nem larga nem fundo, é a parte que te cabe deste latifúndio, não é cova grande, é cova medida, é a terra querias ver dividida – e aos meus olhos regressa o sorriso do velho Gregório em Moscovo aos 83 anos depois de arrastado pelos militares golpistas pelas rua do Recife, e sempre voltam até mim, as palavras de Hemingway, por quem dobram os sinos e sinto que não dobram apenas por mim, mas por toda uma humanidade sedenta de justiça. E no entanto, nas agruras das trevas, dos regimes inquisitoriais parecem os sonhos, mais vivos, mais criadores, mais solidários, ou será que apenas sangram demasiado?

    Responder

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>