Dany le Rouge no Rio

1. Estou sentada em cima de um saco de arroz do Uruguai e Daniel Cohn-Bendit está sentado numa pilha de sacos de arroz do Uruguai, e estamos os dois dentro de uma estação de comboios desactivada no centro do Rio de Janeiro.

Em volta, cariocas de purpurina na cara ou cerveja na mão, flutuantes, etéreos. Ao fundo, música, Oumou Sangaré.

“E a música parava pra pensar”, cantaria Caetano. “Aí o anjo nasceu, veio o bandido meterorango
/ Hitler terceiro mundo”.

Velho e Novo Mundo, somos nós.

 

2. Declaração de interesses: os bilhetes eram caros e eu não pagara para entrar. Na véspera tinha moderado um debate com Wael Ghonim, o ícone da revolução egípcia via satélite, lá do Dubai. O debate inaugurara o festival, depois levaram as cadeiras, veio a geral de pé. A sala dos convidados ficava um andar acima. Havia bebidas e um batalhão de recepcionistas de preto, tentando verificar a pulseirinha no pulso dos convidados. Os convidados iam e vinham entre a varanda e o bar. Quem estava comigo disse:

— Aquele não é o Cohn-Bendit?

Um homem sozinho, encostado, copo na mão, óculos e blaser, cabelo pálido, mas sim, antigamente ruivo. A juventude é o mais cruel dos meses. Ri para sempre da polícia em Maio de 1968 e no mês seguinte já foi. Era ele, Dany le Rouge.

 

3. À falta de mezcal, teremos sempre a cachaça, mesmo a da vulgata, e portanto na cena seguinte já somos uma roda, incluindo metade dos habitantes da minha ladeira, um português católico que se declara de direita e uma brasileira judia que nunca ouviu falar naquele judeu francês — aliás, alemão, como disse De Gaulle, antes de o expulsar.

E, claro, falamos de futebol.

Dany le Rouge está na sua pele de Dany le Vert, veio debater ecologia, mas com um olho em 2014. Quer fazer um filme sobre jogadores em favelas antes do Mundial. Além disso, amanhã vai ver o Flamengo-Vasco. Comprou bilhete.

 

4. Foi-se a roda. João, o católico, acha-se na varanda entre dois ateus. Dançamos as canções tuaregues dos Tinariwen, que revoluteiam pelo palco, com as suas asas azuis. Eu e João teremos sempre a cachaça, Dany dança de mãos livres.

 

5. No dia seguinte, o palco é dele e de Marina Silva. Ao ouvir Marina, ele dirá que agora percebe porque é que ela teve 20 por cento dos votos nas presidenciais, forçando uma segunda volta. Marina deixa a plateia a um passo de dizer “Aleluia!”, difícil arrebatar depois de uma iluminada, mas ainda estamos a falar de Dany le Rouge. Aos 66 anos, agarra o microfone e transforma-se no rapaz ruivo que dizia: “Eu sou um megafone.”

Então conta como os pais, ele alemão, ela francesa, ambos judeus, fugiram da Alemanha para França durante a ascensão nazi; como seria louco alguém dizer então que um dia não haveria fronteiras dentro da Europa; como foi desse caldo que ele nasceu para em 1968 querer mudar o mundo; e como agora os danys não são rouges nem querem mudar o mundo, só querem que haja mundo amanhã.

Não sei o que resta de vermelho no verde, mas ao longo dos anos Daniel Cohn-Bendit tem apanhado pancada da direita e da esquerda, o que pelo menos quer dizer que não está parado, e certamente não está parado em Maio de 1968.

Há mal nos bons, bom nos maus, o mundo é confuso, nunca foi tão confuso, diz ele. E ao ouvi-lo, neste palco do Rio de Janeiro, em 2011, ouço um europeu, e não um europeu morto, abençoado seja.

 

6. Depois do debate verde, Oumou Sangaré toma o palco, e enquanto não arranca o turbante vamos ter muito concerto pela frente. Nas traseiras da velha Estação Lepoldina, há uma espécie de “chill out” com pilhas de sacos de arroz para deitar ou sentar. Assim de noite, ao ar livre, tem algo de trincheira, de cais de comboio da II Guerra Mundial, mas talvez só a velhos europeus como nós ocorra semelhante ideia. Nenhum carioca vai perguntar que sinos dobram por aqueles que morrem como gado, pelo menos não aqui, não agora, quando aqui e agora está bom.

Sentado na sua pilha de sacos, Cohn-Bendit conta como Hannah Arendt lhe escreveu uma carta que nunca chegou. Ela guardava cópia das cartas e foi assim que ele acabou por a ler. Um dia abriu uma biografia dela e lá estava, reproduzida, uma carta para o pequeno Daniel Cohn-Bendit. Porque o círculo berlinense dos pais incluía Walter Benjamin e Hannah Arendt.

Nascido em Montauban, filho de dois refugiados, Dany le Rouge cresceu sem nacionalidade, só escolheu ser alemão para escapar à tropa e entrou na história como francês, liderando o Maio de 68.

Agora Ben Ali caiu, Mubarak caiu, Kadhafi caiu, tudo isto são revoluções continuando a revolução, acha ele. E acabado de voltar de Israel, viu os israelitas na rua, cansados do dinheiro que a ocupação gasta. Ele acredita que a ocupação vai acabar por razões económicas. Porque sai cara.

Portanto, eu estou sentada num saco de arroz do Uruguai e Daniel Cohn-Bendit está sentado numa pilha de sacos de arroz do Uruguai, e estamos os dois dentro de uma estação de comboios desactivada no centro do Rio de Janeiro e falamos de Israel, onde ele trabalhou num “kibbutz” mas nunca pensou morar porque tem demasiados judeus, e ele gosta da ideia dos judeus espalhados por toda a parte.

Sim, o mundo acabou, mas entretanto é nosso.

Levantamos o rabo, vamos ouvir Oumou Sangaré.

 

(Público, 3-9-2011)

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