Na selva, em cima da linha do Equador

 

O nome dele é Valdir, “com V de vitorioso”, Pereira da Silva. “Mas toda a gente me chama Xuriman, o caçador da região, o mateiro”, diz ele, meio palmo de gente rijo como aço, sorriso sem dentes, batendo no peito.

São sete da manhã e ao pé de Xuriman não há hipótese de alguém ter sono. Ele não é só “o melhor mateiro” da região, de acordo com várias recomendações. É um romântico, um cavalheiro, um jogral. Conta a história e representa-a, fala da sua amada e fica um menino. Está com 68 anos.

O P2 teve de o cortejar. Ele apareceu por acaso um dia, logo apertando a mão, acertando passeio. Acabava de voltar do Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, a 3014 metros. Há alpinistas que vêm a São Gabriel da Cachoeira só para essa escalada. É longe de tudo, São Gabriel, Alto Rio Negro, a região mais indígena do Brasil. A linha do Equador passa mesmo aqui, a 30 quilómetros da cidade, e era esse o trilho que queríamos fazer com Xuriman, selva dentro. Mas no primeiro dia trocou-nos por uns caminhantes suíços. Ao fim da tarde tivemos de lhe fazer uma espera, à porta de casa, uma cabana. Enfim marcámos para as sete da manhã seguinte.

Eis-nos. “Daqui saíam onças”, diz ele pelo caminho, chão de terra vermelha. Estamos a ir de carro até ao ponto onde se entra no trilho, mesmo em cima da linha do Equador. “E aqui vinha um veio de ouro desde o Pico da Neblina. Estavam a tentar achar água e acharam ouro. Ouro mesmo que não é brincadeira!”

Seguindo esta estrada até ao fim, chegaríamos à tripla fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela, a 200 quilómetros. Mas não é possível porque há pontes caídas.

“Aqui de lado foi tudo derrubado”, diz Xuriman, apontando o que antes era zona de floresta. “Queriam fazer fazendas de gado, mas o capim não nasce, tem muito igarapé.” Canal de água.

E a conversa muda para cobras, inquietação de qualquer novato que se vá meter na selva. “Eu tenho lá em casa uma planta dos yanomami para todo o tipo de veneno de cobra, mas é segredo tipo FBI”, começa Xuriman. Viveu na América, tem estas referências, já vão ver. “Esse tipo de descobrimento é feito pelo indígena. Ele planta no quintal, rala, bota na água…” E tranquilizador: “O que tem mais no mato é cobra. Nós estamos indo para a casa delas.”

Nisto pára o carro porque viu uma aranha gigante. Saímos a observar: um monstro peludo, de cabeça negra. Chamam-lhe caranguejeira. “Ah isso não é nada, tem muito maior…”

 

Facão na mão

 

Na linha do Equador há sinais e placas mostrando o mundo dividido em dois. Xuriman tira o seu facão da mochila e descemos por uma horta ao lado de uma cabana. “Mandioca, pé de caju, tucumã…”, vai ensinando.

Até que a floresta fica à nossa frente, densa, escura. Cá vamos, o grande mateiro à frente, facão em riste, afastando ramos. Os pés afundam-se num tapete muito fofo de folhas, raízes, húmus, aquilo que caiu das árvores e fertiliza a floresta. Toda a Amazónia vive desta camada, não do subsolo, que é pobre. “Sempre tem esse tapetezinho”, diz Xuriman, calcando a galocha. “Apodrece e fica adubo. Isso aqui é a natureza mesmo.”

Depois dá um golpe num tronco, arrancando uma lasca. Então??? “É remédio de coceira”, justifica ele. Põe o dedo na carne da árvore que ficou à vista, escorrendo um líquido dourado, exactamente como uma ferida. “Eu uso isso. Remédio de médico quase não pego.”

E vai seguindo, tocando com o facão à esquerda e à direita: “Isso aqui é o coco da minhoca… E isso é pau-brasil.” Antes que o possamos impedir já tirou um pedaço. “É cheiroso…”, mostra alegre, e cheira.

“Ah, isso aqui é pé de cumuri!” Uma árvore gigante. Xuriman aproxima-se e tememos que a queira cortar, mas não, só lhe quer bater. Agarra um tronco caído e dá um pancadão na árvore. Pam-am-am-am-am. Um eco fantástico pela floresta. “Vai longe, não é?!”

Como gostou do tronco, leva-o para fazer um cabo de enxada.

Estamos agora diante da árvore macucu, com uma raiz tão de fora que parece um polvo, tentáculos agarrando a terra. Uma imagem de como as raízes aqui não se entranham muito.

Xuriman corta um galho e faz de espingarda. “Quando eu era pequeno brincava assim de bangue-bangue com os meus irmãos…” Depois desata alegremente a descascar um tronco, batendo-lhe com o pau: “É para ficar bonito…”

Cheira a fresco, a madeira nova e tenra, mas propomos um acordo: por nós, nada de lascas nem cascas.

“Ó! Ouviu o tucano lá em cima?” Lá em cima são copas, céu muito além. Xuriman já está noutra. Agarra um cipó emaranhado numa árvore. “Esse camarada abraça a árvore e mata ela, toma o lugar dela. Apelidaram ele de abraço da morte…” Mostra como os vários braços do cipó estão tomando a árvore.

O tapete parece cada vez mais fundo, meio metro de folhas de todas as cores e tamanhos, castanhas e verdes, húmidas, moles. E em volta silvares, zumbidos.

“Esse trilho foi aberto por caçadores”, explica Xuriman. “E isso aqui é o florescente do mato, de noite brilha.” Umas folhinhas claras. Os cipós são infindáveis, flexíveis e firmes como cordas.

“Essa árvore é pau-amarelo…” De onde vinham as belas tábuas para os pisos corridos da Belle Époque na Amazónia, alternando com madeira escura. Agora, não se pode cortar.

Um riacho com um tronco por cima. Xuriman equilibra-se, mais o seu facão. “O índio que estudou nos Estados Unidos! Os americanos ficam abismados…” Muda a voz: “‘Ei Joe, listen, all plants here it’s a kind of medicine to cure sickness in your body.” Aí eles perguntam: ‘Mr. Val, how did you learn my language?’”

Mr. Val, aliás Valdir, mais conhecido como Xuriman, é o sonho dos gringos que se aventuram para aqui. Além de inglês, arranha espanhol, até guten morgen.

 

 

A seringueira

 

Aí está, à nossa frente, a árvore de que já ouvimos tantas histórias. “É uma seringueira, estão vendo os cortes?” Em diagonal, para fazer sair o látex, ou leite, como se diz aqui. “O caçador não tirou muito. Era só para fechar a brecha da canoa, ou fazer saco.” Porque aqui já ninguém trabalha para patrões de seringal.

Xuriman arranca um bocadinho de látex seco. “No mato tem tudo. Por isso é que se a gente acaba com o mato acaba com tudo.” Lança mão a mais um cipó: “Esse é o cipó jabuti, célebre para diarreia…”

É incansável. “Ainda carrego 50 quilos para o Pico da Neblina, e ainda quebro as meninas num forró quando volto. Mas não bebo, não fumo, só como rabada de boi, pé com feijão…”

Como é isso dos Estados Unidos, afinal? “Fui com 12 anos. Chegou um missionário americano chamado Hopkins. Era evangélico, pregava a palavra de Deus e a gente cantava: ‘I’ve decided to follow Jesus / No turning back / Glorious My Jesus!’ E assim por diante…” Ainda se lembra da música. “Aí fiz amizade com os filhos dele, olhinhos azuis! Morava mais na casa deles que na minha. Aí ele começou a trazer peças de máquina para montar uma serraria, caterpillar para derrubar, limpou o pé da serra e começou a trabalhar o ouro. Furava o pau-brasil e enchia de ouro. Aí ele dizia que exportava pau-brasil. Levava quatro indígenas para Manaus e eles provavam cachaça. Aí disseram: pá, isso é bom. Aí voltaram e disseram ao pastor: a gente quer aquele negócio. Aí ele disse que era proibido. Aí discutiram. Disseram: tu rouba. Aí a polícia veio.”

O pastor foi expulso do Brasil. “Aí eu falei que ia com eles. Meu pai disse: leva ele mas bota na escola.”

Pai português, Francisco Pereira da Silva, vindo novo para os seringais. “Matou muito índio, eles flechavam o barco que ia subindo.” Mas a mãe de Xuriman veio a ser índia macuxi, misturada com espanhol.

Mãe, pai e 13 irmãos, foi a família que deixou ao partir para a América: Califórnia. Ficou até aos 19 anos, voltou para Manaus por causa do exército. Foi carteiro, desinfestador de malária, garimpeiro de ouro.

“A única coisa que ganhei do meu pai foi um boi.” Alguns irmãos continuam no Rio Branco, de onde ele é originário. “Trabalham seringa, castanha-do-pará… Também tem irmão no Maranhão, na Venezuela, em Barbados.”

Ele próprio só teve um, hoje marceneiro. “É muito sério, não é que nem eu, não. Eu sou danado, sou tipo Shakespeare!” Começa a dizer poemas. “Sou violonista, canto: ‘A Dona Mariquinha tem a boca grande / come toda a minha farinha / Ó Zé, dançar na roça é bom…” E canta e canta, numa pequena clareira, no meio da selva, por cima do Equador, como canta para a mulher.

“Já tenho quatro músicas gravadas em São Gabriel da Cachoeira. E gosto de trabalhar todo o dia. Ganho 545 reais de aposentadoria [236 euros].” É que além do filho que teve criou mais seis. Costume aqui. Quem pode, cria. “Pego sem pai, sem mãe e crio. Já tenho bisneto. Sou coração de mãe.” Ri o seu sorriso sem dentes. “Não tenho inimigo, não.”

A gente acredita.

Uma borboleta azul-anil esvoaça entre nós e por um momento tudo se suspende nessa maravilha, três olhares seguindo-a.

“Não gosto de pegar coisas dos outros”, continua Xuriman. “Já me deram 50 quilos de cocaína na Venezuela para eu trazer e eu não trouxe não. Tenho amigos aí que estão ricos porque ganharam de outros.” São Gabriel é terra de fronteira: droga, armas.

Xuriman é de ficar quieto, até em casa. “Os meus vizinhos andam à pancada. A filha deles morreu enforcada de tristeza dessa briga. Bonitinha ela, 17 anos. Ficava com muita vergonha do pai e da mãe. Eles bebem cachaça os dois.” Um problema em São Gabriel. “Ela se amarrou na porta do quarto da mãe. Foi no ano passado. Índio bebe cachaça demais. É o que mais se vende em São Gabriel. Arroz, feijão, farinha, não vende tanto.”

As mochilas, pousadas num tronco, já estão cheias de formigas gigantes. Estamos a voltar. Logo depois de Xuriman completar a sua religião.

“Esse Deus invisível que me ajudou muitas vezes já me deu muitas coisas. E acredito que esse Deus existe porque senão não me dava coisas, mas eu não vejo ele. Ele é um vento. Ele é um nada. Um espírito. Essa é que é a minha religião. Pego o meu lençol quando vou dormir e rezo: ‘Ai senhor, mestre dos mestres, aqui estamos dando graças pela saúde, pelos amigos, todo o mundo em São Gabriel da Cachoeira, muito obrigada, boa noite.’ De manhã a mesma coisa. Muitas vezes tenho recebido benção desse deus invisível.”

Uma vez, não tinha nem dinheiro para comprar mingau para o filho pequeno. Resolveu ir caçar, certo de que encontraria uma paca, animalzinho nocturno muito comido na Amazónia, e a paca veio. Foi Deus, acha ele.

Enquanto houver árvores, a floresta também é isto.

Dias depois, quando os repórteres partirem de São Gabriel da Cachoeira de manhã cedo, lá estará Xuriman para dizer adeus, aliás, até à próxima.

 

Fotografias de Jordi Burch/Kameraphoto

(Público, 25-8-11)

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