A tradição é uma arma

 

Higino Pimentel Tenório chega com a sua pasta. É um homem baixo, como tendem a ser os índios. Baixo de corpo e ágil de espírito. A primeira vez que nos vimos, disse uma frase de raspão: “Os melhores não sobreviveram.” Estava a falar do extermínio dos índios. Era o século XVII a encontrar o pior século XX. Primo Levi teria parado se fosse a passar, ele que escreveu que os inocentes não sobrevivem.

Dias depois, aqui estamos, frente aos rápidos de São Gabriel da Cachoeira, município onde cabem vários países europeus que também é o mais indígena do Brasil (85, 90 ou 95 por cento de índios, as estatísticas só variam em pormenor).

O Rio Negro é tão traiçoeiro de correntes e pedras junto à cidade que o porto fica meia hora antes, e daqui para cima não há barcos de passageiros regulares. Terras a caminho da Colômbia e da Venezuela, atravessadas por inúmeros afluentes, oficialmente demarcadas por várias etnias. Entre as últimas, mesmo encostadas à fronteira, acham-se os tuyuca, como Higino. “Estamos lá no final do Brasil”, diz. “Para nós seria o começo…”

A distância fez com que os missionários do século XX só chegassem aos tuyuca nos anos 40, quando os comerciantes da Colômbia vinham buscar índios para trabalhar nos seringais. “Muitas famílias tuyuca foram para a Colômbia e não voltaram. Porquê? Porque o mundo da roupa e do sabão já tinha entrado neles. Os padres já tinham implantado o sistema do internato em que as crianças eram colocadas. Como ensinaram a vestir e usar sabão, entrou esse sistema de consumo, aí muitas famílias precisaram de produtos e iam explorar látex.”

Ao mesmo tempo, os missionários salesianos eram vistos como os “salvadores da escravidão” dos seringais, aqueles que resgatavam as crianças para outras possibilidades. Foi o que aconteceu a Higino. “Meu pai foi para a Colômbia, para o seringal. Eu sou ex-aluno dos salesianos. Com 11 anos fui para o internato.” Onde já estava o seu irmão mais velho, Guilherme. “Fiquei lá de 1965 a 1972. Aprendi um pouco de tudo, português, alfaiataria, carpintaria, mecânica…”

Lembranças “más e boas”: “A gente rezava bastante. Isso era bom. O mal que fizeram foi que proibiram a nossa língua. Tinha castigo, não deixavam merendar se estávamos falando a língua indígena. Por isso é que muita gente perdeu as línguas. Eu quase perdi.” Mas o pai voltou da Colômbia quando ele tinha 15 anos. “E ele sempre falava a nossa língua, era forte nisso.”

Depois do internato, Higino veio para São Gabriel seguir estudos, e aos 22 voltou à sua comunidade para alfabetizar. “Não gostei, não. A educação estava na mão dos salesianos, não tinha salário mas uma gratificação no final do ano, era como voluntário. Saí, fui para a Colômbia onde estava a minha mãe, fiquei cinco anos.” Quando regressou, era o final da ditadura. Envolveu-se no movimento indígena, como professor.

“Houve uma mudança na igreja, com uma linha progressista para apoiar os direitos dos indígenas. E era a década de 80, com alvarás de mineração para a Amazónia. Então dissemos: vamos ter de demarcar terra para proteger das grandes empresas.”

Já nos anos 90, concentraram-se na recuperação da cultura. Com ajuda austríaca, Higino trabalhou num programa de valorização das línguas minoritárias. “Os próprios tuyuca não queriam. Falavam tucano [língua indígena maioritária nesta região] e português. Eu e outros companheiros começámos a mudar isso. Aí foi decidido ter uma escola.”

Lá na aldeia de Higino, São Pedro do Alto Tiquié, que indo de lancha a motor fica a dois dias e meio daqui, e remando leva dois meses. “Foi a primeira escola tuyuca de sempre. Hoje, são três.” Mas a recuperação da cultura não ficou por aí. “Saber a história, a origem das coisas, o artesanato, danças… Ultimamente os jovens estão conhecendo os benzimentos.” Dos pajés, também conhecidos como xamãs, guardiões do saber, e dos mitos.

 

A origem dos homens

 

Então, debruçado sobre o Rio Negro, neste terraço do Instituto Socioambiental (a mais importante ONG na região, parceira dos tuyuca em vários projectos), Higino conta o mito original: “A gente pensa que o Rio Negro é o Rio do Leite, que vem do Rio de Janeiro. A origem da humanidade estava lá, no Lago do Leite [Baía de Guanabara]. Vários povos acham que ali era a origem. Vieram com a Canoa da Transformação, subindo pelo rio. Era tipo canoa-cobra, com homens dentro e viajava submersa. Estava em busca da última terra para formar seu território.

Ia parando em cada ponto, que a gente chama de sagrado. Em cada ponto aprendia alguma coisa, a cantar, a fazer cestos. Quando terminou a viagem já era dotada de conhecimento. Antes ainda não era gente, era espírito de gente, era peixe-gente. Espírito de gente em forma de peixe. Por isso podia vir debaixo de água. Então chegou em Ipanoré, no rio Uaupés. Aí tem o Buraco da Transformação, de onde os homens saíram.”

A oito horas daqui numa lancha de motor rápido. “É bonito, é uma cachoeira grande. A gente sempre vai visitar. E durante as cerimónias todos os lugares sagrados são contados ritualmente.”

Entre as cerimónias, umas das mais secretas é o Jurupari. “É só para homens, quase xamânico. Foi proibido para mulheres desde há muito tempo. Muitos conhecedores dizem que faz mal para as mulheres, pode afectar a fertilidade.”

O Jurupari acontece todos os anos, “quando o açaí está ficando maduro”, em Julho. Tem origem num mito com várias versões. A que Higino conta é assim: “Jurupari são as flautas sagradas que vêm do osso. No começo havia uma personagem, que era O Conhecedor. Apareceu do céu, desceu. Era forma de gente. Tinha devorado criança e por isso foi queimado. Cada povo pegou um pedaço das cinzas e construiu a flauta, como se fosse osso dele.” As flautas ficam enterradas na mata, e durante a cerimónia do Jurupari são desenterradas. “O xamã consagra aquela flauta, depois tocam.

À festa “não deve faltar nada, em primeiro lugar, auasca”, ou ayahuasca, bebida alucinogénea tradicional nesta região. “É um cipó chamado caapi. O benzedor, o xamã, planta isso. Tem que raspar a casca, socar, misturar com água e depois coar como se fosse café. É amargo. Para quem não está preparado não é bom. Primeiro tem que fazer regime, tem de limpar o estômago, vai vomitar de madrugada. E depois de tomar, não deve comer comida cozinhada, nem coisa quente, como mingau. O casal também não deve ter relações sexuais até que o xamã determine. É proibidíssimo que mulher menstruada dê de comer.”

E mulher não pode tomar auasca. “Já veio assim, desde há muito tempo. Mulher não está preparada fisicamente. Como é que ela vai aguentar sem comer? Isso é para homem preparado.”

O que acontece quando se toma auasca? “Você começa a ter um sentido muito perspectível. Percebe qualquer som e consegue acompanhar todo o rito. Tem miração, consegue ver coisas diferentes, o mundo se transforma, a árvore começa a mexer, tudo se torna colorido. Isso é que se chama de miração. Aí, você escuta os espíritos, vem espírito de cobra, vários outros espíritos da floresta, você consegue ver. Agora tem gente na cidade que toma, mas não é como o nosso e não tem aquele ritual que a gente faz.”

 

 

 

 

O cantador

 

Enquanto tudo isto acontece, um homem canta. É o cantador da cerimónia. Tal como os xamãs, só alguns homens podem ser cantadores. Guilherme, o irmão de Higino, é cantador.

Vamos encontrá-lo muito longe deste terraço com vista. São Gabriel da Cachoeira está a explodir em muitas direcções, já tem subúrbios, encostas de barracas. Numa delas, parda, torta, mora a filha de Guilherme e ele está de visita

Vem de tronco nu, senta-se junto à porta.

“Os tuyuca hoje são uns 500 do lado do Brasil. Na Colômbia tem mais. Mas a fronteira é uma coisa dos brancos. Nós passamos directo, porque temos os nossos parentes do lado de cima. Para nós, não tem fronteira não.”

Amanhã ou depois já está voltando para lá, para São Pedro. Antes era uma aldeia de casa comunal, a maloca. “Hoje em dia cada família tem sua casa de zinco. Os salesianos dividiram.” Por acharem mais decente. “Eu estou com 60. Nasci na maloca, porque o meu pai morava dentro da maloca. Ele era cantor. O velho pajé já benzeu ele. Ele já sabe, aquele espírito dele no meio da reza já sabe. O pajé benze a casa, se tiver doente cura a doença.”

Mas pajé não é cantor. Cantor é só um, os outros acompanham, e um canto pode começar numa manhã e ir até ao outro dia, numa cerimónia. Guilherme canta um pouco, para mostrar. Parece um mantra.

Durante as cerimónias, fuma-se tabaco e bebe-se caxiri, espécie de vinho de mandioca. Além, claro, do auasca, que Guilherme descreve assim: “Para aquele que está cantando, fica mais aberta a consciência dele. Tem várias cores e a gente escuta como se fosse tocando.”

E como é lá, na aldeia? “É calmo, não tem essa música…” Forró ao fundo, num rádio. “Tem mandioca, banana, batata. São 13 famílias a viver da roça [horta], da pesca, da caça. Onça, a gente vê só rasto. Tem escola diferenciada em língua tuyuca para 60 crianças. Não tem médico, quando fica doente vai no pajé, e se não tiver efeito manda para São Gabriel.” Que agora está uma cidade, mas então não tinha nada por aqui. “Tudo isso era mato…”

Para dentro, a barraca é um improviso sem casa de banho, amálgama de colchões e frigorífico, roupa pendurada e cadeiras a monte, uma televisão na sala e outra no quarto, homens de tronco nu frente ao ecrã, filho e genro de Guilherme. A filha, Marlene, é uma índia doce, cabelo puxado, e desculpa-se: “Isso aqui não é nossa casa, a gente mora de favor…”

 

 

 

O filme de Luís

 

Luís teve uma ideia e até já envolveu Gilberto Gil nela. Quando, em Maio, o ex-ministro da Cultura passou uma semana em São Gabriel por causa de um documentário internacional, Luís fê-lo entrar no documentário que ele próprio inventou para divulgar a sua comunidade.

“Luís Laureano da Silva, mestre da maloca”, apresenta-se, baixinho e magrinho, sentado na caixa aberta de uma carrinha, numa estrada de terra nos arredores de São Gabriel.

Nasceu em 1947, num afluente do rio Issuna, entre a etnia baniwa. “Quilómetros não sei dizer quantos, mas são três dias para a gente chegar lá.” Em 1984, veio com um grupo para São Gabriel. “Lá é difícil. Não tinha sal, nem fósforo, nem sabão, só cascas de pau para lavar roupa. Onde morávamos era uma maloca para 10, 12 pessoas. Matava macaco, tatu, anta. Pescava tucunaré, surubim, ipacu, piranha. Comia tartaruga, jacaré. Onça não come, ela come também cachorro, meu avô finado dizia que não pode cruzar. A gente come veado também. Formiga, a gente bota no tucupi.” O suco extraído da mandioca, depois de ferver para sair o veneno. “Um dia e uma noite no lume para ficar bonito.”

Nisto chegamos a Itacoatiara-Mirim, o nosso destino. Aqui se instalou a comunidade de Luís, hoje 30 famílias. “Itacoatiara é uma mistura de português com língua geral [índígena]. Meu pai finado é que pôs o nome no lugar.” Primeiro tinham acampado no aeroporto de São Gabriel, mas a fundação dos índios disse-lhes que era perigoso. Depois descobriram este terreno e a prefeitura comprou-o para eles.

Em 2010 começaram a ser feitas umas casinhas amarelas de pedra, ainda inacabadas. E mais para dentro estão as cabanas originais, palha entrançada no tecto.

A caminho da maloca central está Cecília, irmã de Luís, a lavar mandioca já descascada, uma bacia cheia. É a base de toda a alimentação indígena. Dá farinha, dá vinho, dá caldo, dá doce. “Tem que descascar, lavar e botar no ralador”, explica Cecília. Chão de terra batida, pés na bacia, remexendo. “Isso aqui é a nossa tradição.”

Quando fala connosco, fala português. Quando fala com o irmão, baniwa. Dentro da cabana, uma cama de ferro, uma rede, cestaria feita por ela. Em volta palmeiras, palhotas, uma paz.

Mas o irmão avança já para a maloca central que é o seu orgulho, uma enorme palhota de tecto maravilhosamente entrançado, e coberto com folhas de palmeira por fora. Chão de terra batida, colunas de madeira com pinturas, ao fundo frangos a assar.

 

Mito e cidade

 

Luís vai buscar uma pasta. Tira uma fotografia da Torre Eiffel. “Isso aqui, França. Eu conheci lá e apresentei minha cultura.” Um galo ciranda, a cantar. Uma avó vem vindo, com uma neta. É a mulher de Luís, chama-se Luzia.

O que são estes desenhos nas colunas de madeira? “Isso é pau-brasil e isso é desenho de ralo de mandioca”, explica Luís passando o dedo no desenho. “Daqui sai história grande, é um sapo vermelho virado homem. Antigamente era homem, todo o bicho foi homem. No começo do mundo era homem. Onça era homem.”

Na origem, crêem os índios, todos os animais são homens.

“Onde eu nasci, maloca era assim.” E ele quis construir uma igual, para mostrar aos novos. “Fico muito triste quando eles estudando não têm nada de respeito. Ele não quer escutar o pai dele, ajudar a mãe na roça, plantar abacaxi. Hoje em dia tem muita televisão, ele fica sentado em casa, não sabe preparar armadilha [para a caça]. Por isso sonhei fazer maloca assim.”

Moisés, o filho de Luís que é o realizador do documentário em curso, ainda fala baniwa, mas a neta não.

E agora Luís explica o que tem ao peito: “É um colar de dentes de onça, com um triângulo de alumínio para enfeite, e essa aqui é a fruta do tucumã, eu coloco aqui remédio caseiro contra a inveja. Vem o inimigo que quer fazer a guerra e já não fica com raiva. Isso é protecção.”

O colar é dos mitos mas as roupas são da cidade. Luís fundiu mundos, e por isso pensou num documentário feito pelos próprios jovens da sua comunidade. O ISA colaborou, a Petrobrás deu dinheiro, há câmaras, mesas de montagem, um “camaraman” vindo de São Paulo que funciona como formador.

A ideia de Luís, em suma, é usar a tecnologia para manter a tradição. Absorvê-la, como antes os índios absorviam o inimigo, devorando-o. De certa forma, a aplicação viva da antropofagia cultural lançada pelo poeta Oswald de Andrade, há quase cem anos.

E agora Luís tira cocares e colares de penas, chocalhos, flautas, que estavam penduradas numa coluna. Põe um chocalho num tornozelo, bate o pé no chão para mostrar uma dança. Explica a diferença entre as penas de arara e de papagaio.

Em 2010 levou a equipa de filmagem ao lugar das flautas sagradas. “Mas não filmaram elas, é muito proibido.” Tal como às mulheres. “Porque homem e mulher são separados. Homem é para fazer trabalho pesado, caça, canoa, para viajar, pescar, remar. Mulher carrega banana, busca mandioca, limpa a roça, faz farinha, faz comida, acorda de madrugada para fazer o mingau…”

A casa de Luís fica mesmo atrás da maloca, precária como todas, e sem casa-de-banho. “A gente toma banho no igarapé [canal] e as necessidades enterra num buraco.”

Uma vida que é e não é como há séculos, entretecida como as folhas de palmeira, só eles sabem como.

 

 

Fotografias de Jordi Burch/Kameraphoto

(Público, 26-8-2011)

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