Teatro Amazonas: sacrifício e esplendor

 

Não, Caruso não esteve aqui. Fora isso, o Teatro Amazonas é a própria ambição: a selva domada pelos homens e coroada pela bandeira do Brasil. Visto ao poente, com aquela cúpula de 36 mil mosaicos coloridos, é quase como se lhe estivessem a cantar o hino nacional: “Gigante pela própria natureza / És belo, és forte, impávido colosso…”

Inaugurado em 1896, quatro vezes refeito e repintado, continua a ser hoje o centro de Manaus, capital do Amazonas. Não apenas por nenhum outro edifício lhe ter roubado protagonismo, mas porque lá dentro acontecem coisas e cá fora a praça parece girar à volta disso, com as suas árvores para dar sombra, os seus bancos para conversar, a sua calçada às ondas pretas e brancas, as suas bancas de gelados, de balões, de livros e de tacacá (essa sopa amazónica sem par), mais a esplanada do Armando, que anuncia os melhores bolos de bacalhau da cidade, e às sextas tem samba, e mesas de jovens barbudos entre copinhos de cerveja.

Logo à noite no teatro acontecem dois concertos integrados no festival de jazz em curso, mas o movimento fora e dentro já começou há horas, porque todos os dias há visitas guiadas. No caso do P2, a secretaria de cultura do governo do Amazonas, tutela do teatro, fez a ponte com Jessilda Furtado, a risonha funcionária que é directora mas não programa.

“O teatro tem uma central de programação na secretaria de cultura”, explica ela. “Entre Abril e Maio temos o festival de ópera, em Julho o de jazz, em Agosto o de dança, em Setembro o de cinema, em Novembro o de cinema. A minha parte é tomar conta da manutenção, receber os turistas, as companhias, manter o teatro em plena actividade, som, luz, funcionários.”

Ao todo, cerca de 80 pessoas, entre técnicos, contratados e estagiários para receber gente em várias línguas, como Filipe, 20 anos, o guia que vai acompanhar a visita da directora.

Partimos da reluzente cafetaria, janelas abertas para a praça de São Sebastião. “Todas estas casas estão sendo reformuladas para trazer aquela espírito da Belle Époque, e o teatro como cenário”, diz a directora, enquanto passam músicos com caixas de instrumentos.

Além dos festivais, o teatro tem “a Amazonas Jazz Band, a Orquestra Filarmónica, uma companhia de dança contemporânea, uma orquestra de violões, uma orquestra jovem, um ballet folclórico…”, enumera. “Nossa secretaria de cultura é um verdadeiro exército. O Teatro Amazonas é o símbolo de Manaus. Toda a classe política compreende que este é o nosso maior património e as empresas também começaram a perceber isso, se não, não teríamos como fazer tudo. O jazz é patrocinado pela Coca-Cola, a ópera pelo banco Bradesco…”

Volta a apontar pela janela, para a praça: “ Ali vai ser um hotel já se preparando para a Copa de 2014…”

Manaus ganhou a Belém esse troféu: vai ser a cidade da Amazónia a ter um estádio no mundial de futebol. E aqui é o epicentro da sala-de-visitas, polida, mantida e programada directamente pelo governo do estado, onde o secretário de cultura está no poder há 15 anos. Em todo o discurso da directora isso é motivo de orgulho.

 

 

Vista da plateia

 

“Vamos começar pelo salão de espectáculos”, propõe o jovem guia enquanto atravessamos o átrio, pedra espelhada, reposteiros vermelhos. “Muita gente faz noivado aqui dentro, um pede o outro em casamento…”

Os passos ressoam na pedra. Depois, entrar na plateia é esmagador. Ainda há pouco estávamos nas favelas de Manaus e de repente estamos na ópera de Paris, brilhos, candelabros, mármores, um palco cheio de músicos a ensaiar, um tecto hipnotizante, pintura sobre tela.

“A sala são 701 lugares”, detalha Filipe. “Acredita-se que este 1   seja por causa do camarote do governador. Aqui na plateia são 206 lugares. O decorador foi o brasileiro Crispim do Amaral, que quis fazer homenagem à arquitectura italiana.”

A Amazonas Jazz Band ataca uma música, obrigando o guia a levantar muito a voz. “Apenas 10 por cento da matéria-prima é brasileira. As madeiras das cadeiras são de jacarandá e o piso é de macacaúba, madeira de durabilidade muito grande. As colunas são ferro fundido e os parapeitos também, vindos de Glasgow…”

Estamos todos de queixo no ar, a rodar lentamente a cabeça.

“As máscaras nas colunas representam o teatro grego…” Cada uma tem um nome por baixo: Alfieri, Schiller, Calderón, Aristófanes, Ésquilo, Rossini, Wagner, Garrett, António José da Silva, Racine, Verdi, Mozart, Beethoven, Gil Vicente, Corneille, Goethe, Moliére, Shakespeare, ao todo 22.

“Aqueles camarotes em cima do palco eram os dos barões da borracha, com uma posição de privilégio.” Mais para ver a audiência que a cena. “A pintura do tecto é feito em lona e tem um grande X, como se você estivesse debaixo da Torre Eiffel. “Foi feita em Paris e homenageia a música, a dança, a tragédia e a ópera.” Ao centro, sobre o palco, está o ano de inauguração e o nome de Eduardo Ribeiro. “O [então] governador que trouxe grandes benefícios para a cidade.”

As cadeiras de veludo é que já não são as originais: “Em vez do veludo havia palhinha entrançada, o que ajudava a circulação do ar, e por baixo do assento tinha um tubo que trazia ar aqui para dentro.” Agora é ar condicionado.

Filipe prossegue a lista de proezas: “A parte da frente do palco é móvel, baixa quase três metros para o fosso da orquestra, como se criasse um novo palco. E o candelabro do centro é em bronze francês com tulipas de vidro. Já foi inaugurado com luz eléctrica.”

Baixa a cabeça para rematar: “A borracha é que pagou tudo isto. E a borracha teria durado mais tempo, mas os ingleses levaram a sementinha [da seringueira] e plantaram na Malásia. As árvores adaptaram-se lá, produziram em larga escala e aí veio a decadência aqui.” Depois de milhares de homens terem morrido ou ficado doentes para sempre da brutalidade que era o trabalho nos seringais.

 

A directora despede-se, deixando connosco Célia Albuquerque da Matta, a arquivista do teatro.

Gentil e melancólica, Célia tem, ela mesma, algo de “Belle Époque”, em busca do tempo perdido. Fala sobre os panos de cena pintados por Crispim do Amaral, um deles figurando o célebre Encontro das Águas em frente a Manaus, quando o barrento rio Solimões se junta ao Rio Negro. E quando lhe falamos em “Fitzcarraldo”, o filme de Werner Herzog realizado parcialmente aqui, atalha com um sorriso: “Mas ele viajou muito…” No sentido brasileiro de quem se afasta da realidade. “O Caruso nunca esteve em Manaus…”

No filme, Fitzcarraldo — personagem inspirada num verdadeiro Fitzcarraldo da história amazónica — é um fanático do grande tenor italiano a ponto de fazer milhares de quilómetros de barco para vir assistir à sua actuação aqui. Na pele de um desvairado Klaus Kinski, sempre de branco, o sonho de Fitzcarraldo é levar a ópera até aos confins da selva, rios acima, como se transportasse o próprio Teatro Amazonas.

 

 

Arquitectos portugueses

 

“Este teatro foi projectado em Portugal, por arquitectos portugueses”, adianta Célia, agora a caminho do Salão Nobre, um espaço deslumbrante que Herzog usou numa das primeiras cenas de “Fitzcarraldo”.

Difícil decidir para onde olhar, desde o chão, um padrão de flores octogonais feito com madeiras preciosas. “Esse piso tem 12 mil peças de madeira encaixadas, sem prego nem cola: nogueira, carvalho, bordo e mogno”, aponta Célia. A luz bate nos vários tons, criando reflexos de madrepérola.

À volta, oito grandes telas evocando a fauna e flora da Amazónia e uma tela em homenagem a “Guarany”, ópera de Carlos Gomes, a primeira escrita no Brasil. Por cima, pintura sobre tela de Domenico de Angelis, “uma glorificação das artes”. As colunas são em ferro fundido assente em mármore de Carrara. Os candelabros, nada menos que 32, são de cristal de Murano.

Célia acaricia uma pata de leão que é o braço de uma cadeira. De certa forma está em casa. “Trabalho aqui há 25 anos, foi o meu primeiro e único emprego. Me apaixonei por história, arquitectura, museologia, resgato todos esses documentos antigos e eles estão todos na minha sala.”

Então leva-nos escadas acima e em volta, por corredores onde o sol bate em espelhos quando as portas se abrem. Paredes com tecido de damasco, bancos de jacarandá e palhinha, máscaras de gesso boquiabertas, camarins encenando a história, vestígios como os escarradores de porcelana dos cavalheiros ou as sapatilhas de Margot Fonteyn.

Enquanto vogamos da sombra para a luz, fios de voz pairam no ar, turistas em várias línguas que estão a ser levados pelos jovens guias.

E no fim de tudo Célia ainda nos oferece uma cópia de “Fitzcarraldo”, para podermos levá-lo no próximo barco, rio acima.

 

 

Crítica e contraponto

 

“Eu acho que 15 anos é demais”, diz Célio Cruz, cantor e compositor de música popular.

Acabamos de ser apresentados pelo mais célebre poeta vivo da Amazónia, o firme octogenário Thiago de Mello, e estamos a conversar debaixo de uma árvore, em frente ao teatro.

Célio é um crítico do secretário de cultura Robério Braga, o tal que está no poder há 15 anos. “Ele é um comprador de cultura, não é aquele que permite acesso aos meios culturais. É um produtor sem risco nenhum. O que o governo do estado faz é programar eventos culturais, vazios, que se repetem ano após ano. E entretanto o mundo não conhece nossa poesia, nossa música, nosso cinema. É como se qualquer cultura servisse. Ele não cuida de desenvolver nossa cultura.”

Anfitrião de duas bancas da praça, a do tacacá e a dos livros, o historiador Joaquim Melo tem outra visão. “O trabalho do secretário de cultura tem mais de positivo que de negativo.” Não são apenas “eventos”, contesta. “Ele fez a fundação Cláudio Santoro que formou muita gente que se calhar nunca tinha pensado ser música. Fez escola de artes, de cinema. Formou uma filarmónica que trouxe músicos da Europa de Leste, e eles dão aulas na fundação e na universidade, o que foi muito importante para a gente.” É verdade que se tinha “comprometido a fazer uma bienal do livro” que ainda não existe. “Mas tem o projecto da Biblioteca Digital, que está a digitalizar muita coisa que estava sem acesso.”

Síntese do afável Joaquim: “Há muita crítica em relação à secretaria de cultura por causa dos festivais, mas não vejo isso como um defeito, porque formam público. Não gosto do festival de ópera, mas gosto do de jazz, que é fantástico, e do de cinema. Vai começar o de dança e o teatro fica lotado…”

 

 

Em concerto

 

Sete da tarde. Corropio de saltos altos, écharpes, perfume. Manaus veste-se para o festival de jazz como se fosse a um casamento. E durante o primeiro concerto a sala mantém-se cheia até ao tecto, plateia, camarotes, galeria.

Robério Braga, o tão falado secretário de cultura, está duas frisas adiante do P2, pelo que não é difícil apanhá-lo no intervalo, entre abraços de balzaquianas. Afinal, qual é o segredo para alguém se manter no poder três governos?

“Acho que os três governadores com os quais trabalhei devem ser mais apaixonados pela nossa terra do que por eles mesmos, porque gostaram do que estava sendo feito e resolveram investir numa acção que transformasse Manaus de novo numa Belle Époque.” Robério é um homem baixo, entroncado, confiante, prestes a fazer 60 anos.

“Sou filho de baiano com pernambucano e neto de português de Braga e índio da Bahia”, anuncia. “Meu avô português chamava-se Lourenço.” Uma das balzaquianas não resiste a declarar: “Eu tenho impressão de que o túmulo dele vai ser aqui!”

Ele prossegue, enérgico: “Temos hoje 42 mil alunos de arte só em Manaus. No estado do Amazonas são 90 mil. Temos sete orquestras em Manaus, todo o mês tem um grande festival…” Pausa e contexto histórico: “Entre 1890 e 1914 tivemos o ciclo da borracha, depois passámos 40 anos sem universidade, pobres. Tudo o que tinha na Europa em 1900 tinha em Manaus, e em 1950 não tinha mais. Aí veio a Zona Franca [nos anos 60]. Mas a Zona Franca vai acabar em 2023. Então decidimos investir num pólo cultural.” Ou seja, depois da borracha e da Zona Franca, segue-se o ciclo da cultura em Manaus? “Sim, mas este vai ficar. Todos os outros eram mecânicos, mas o que é do homem vai ficar.”

Memória pessoal de Robério Braga: “Entrei neste teatro para trabalhar aos quatro anos: declamava. O meu pai era jornalista e líder sindical, a minha mãe professora. Dos quatro aos 19 vivi aqui dentro: namorei, decorei poesia, aprendi a iluminar, a abrir e fechar o teatro.”

Agora, no concerto de Natal que é feito na praça estão 80 mil pessoas, diz. “Isso é uma energia! E fazemos ópera para 40 mil! Fizemos aqui uma apresentação para o Mário Soares com três orquestras de crianças e ele ficou impressionadíssimo.”

Até no Teatro Amazonas. Soares é obra.

Chamada para o segundo concerto. As luzes descem e um quarteto ocupa o palco. Os camarotes parecem flutuar, com caudas de ouro. Tanta beleza extraída da violência, tanta elegância paga com a morte. E aqui estão os jazzmen de Nova Iorque e um compositor de Seattle diante de uma plateia agora só a dois terços, elas de colos nus, eles com “blackberrys”, debaixo de frescos franceses e calor equatorial.

 

 

Fotografias de Jordi Burch/Kameraphoto

(Público, 24-8-2011)

 

 

2 comentários a Teatro Amazonas: sacrifício e esplendor

  1. Alexandra, estive ontem no TA – primeiro ato de visitante sul-brasileiro ao chegar em Manaus. Assisti à terceira apresentação gratuita da Orquetra de Violões, combinada com o Coral e o Ballet do Teatro. Um espetáculo singelo, com música daqui e sobre as coisas daqui, que me deixaram enternecido.
    Lendo teu texto, entendi uma das razões da minha emoção: foi porque tive o privilégio de inaugurar minha relação pessoal com esta curiosa casa de espetáculo não com uma ópera italiana (para a qual foi construída), mas com música e dança da Amazônia.
    Também compreendo a esperança do secretário Robério: investir na formação artística dos cidadãos por meio das escolas e dos corpos artísticos, mantendo o diálogo com as artes do mundo por meio dos festivais. Perfeito. Torço para que a substituição paulatina da Zona Franca por uma copiosa e diversa produção artística e cultural local marque, sim, o futuro desta cidade que é um mito no coração da maior parte dos brasileiros.
    Parabéns por seu belo texto.

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