Vicente Cecim: o poeta que inventou Andara

 

 

Andara não vem no mapa mas é real. É a Amazónia na cabeça do poeta Vicente Franz Cecim. Tudo o que ele escreve é uma espécie de Génesis amazónico. Os Livros de Andara, como lhes chama. Há 10 anos publicou em Portugal “Ó Serdespanto” (pela mão de António Cabrita, na extinta Íman). Espantava, de facto. Que era aquilo? Dava vontade de ir a Belém do Pará só para saber.

Então aqui estamos, 10 anos depois.

Imaginámos um eremita, mas Vicente é uma ave conversadora. Pássaro desde a cabeça: olhem bem as fotografias de Jordi Burch.

Em volta estão as árvores do mítico Museu Goeldi, fundado no século XIX, misto de centro de investigação com parque natural, “suma teológica da Amazónia”, resume o poeta. “Eu fugia com os meus filhos para cá, às escondidas da minha mulher. Sempre foi o meu lugar favorito em Belém.”

Fala com mãos e braços, abrindo asas. Tão depressa o tema é Marcel Duchamp como o espanhol Baltasar Gracián, pouco posterior a Cervantes, que foi deixado a pão e água ao cair em desgraça política: “Escritor deslumbrante. Influenciou muito o Borges. Encarcerado, feneceu. Tiraram a luz dele.” E a propósito da criação em geral, remata: “Só houve primeiro dia, o resto é repetição.”

Princípio da história familiar: o avô materno de Vicente fundou um porto em Alter-do-Chão, a mais amada praia da Amazónia. “Vivia de transportar mercadorias para Belém.” Teve 14 filhos. “As histórias que mamãe contava de lá misturavam a realidade e o mágico.” Já a morar em Belém, ela teve uma livraria e chegou a escrever contos fantásticos da Amazónia. “Era uma ‘griot’ [contadora de histórias]. Decidiu ser escritora aos 60 anos.”

A idade com que este seu filho agora está, mais exactamente 65.

Diz ele: “Escrevo para viver as aventuras que não posso viver de outra forma.” Mas vive a cidade, vive o seu tempo, e de tudo isso falou antes mesmo de chegarmos ao Museu. Do “prédio dos suicidas”, com 25 andares, que durante muito tempo foi o mais alto da cidade, até a ambição vertical o ultrapassar: “Centenas de suicidas usaram ele como caminho para sair daqui, portal para a inexistência.” Da basílica de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira de Belém e protagonista da maior festa católica da Amazónia, o Círio, em Outubro. “Vem gente de todo o Pará. Paraense que não vem ao Círio fica triste. No ano retrasado teve um milhão.”

E enfim levantando a cabeça para uma árvore gigante no parque, uma samaúmeira: “Tem época do ano em que ela solta uma espécie de algodão… Lembra do ‘Amarcord’ do Fellini?”

 

 

 

Intimidade natural

 

O Museu Goeldi é um passeio favorito de domingo, e hoje é domingo, então vagueamos em busca de um canto tranquilo. Não esperem ordem desta conversa.

“Temos uma manga e cem periquitos comendo ela”, recomeça o poeta. “Mil mangas em volta, mas eles comem todos a mesma, porque estraga muito cada um comer uma. É uma inteligência ecológica, uma intimidade com a natureza.” Assim viveu a Amazónia até chegarem os brancos.

Vicente reequilibra os óculos que estão sem uma haste, uma perna, como ele diz. “Eu ia comprar a perna. Aí entrei numa livraria e vi essas duas biografias…” Abre a mochila e tira dois calhamaços: Schopenhauer e Heidegger biografados por Rudïger Safranski.

É herança sua, a Europa, mas só uma delas. Também herdou sangue índio e árabe, e tudo isso há-de fazer ver mais.

“A Amazónia tem duas camadas de realidade. Uma é natural, visível, tangível. A outra é puramente imaginária, povoada por seres encantados do bem e do mal, que tanto protegem como punem.” Por exemplo, o mapinguari, preguiça-gigante que faz parte da mitologia amazónica: muita gente da mata garante tê-la visto, e mesmo caçado.

“Quando a gente dorme vai para um plano onírico, mas aqui a gente não precisa dormir. Mamãe viveu isso bem na praia, em Alter-do-Chão, que em 1920 era um lugar deserto: todos os seres da água e da terra, as águas do Tapajós, pérola da Amazónia…” Para provar como o Tapajós é um rio cristalino, Vicente conta uma história dos avós: “Eles iam de barco, ela brincando com a aliança, a aliança caiu. Meu avô disse ao caboclo para mergulhar, e o caboclo, foi, pegou a aliança, voltou…”

As moças apareciam grávidas e diziam: “Foi boto [golfinho], sinhá…”, lembra Vicente. “Porque à noite o boto se transforma em homem muito bonito, com um chapéu… Uma moça contou-me que tinha tido um filho de um boto. Ela lagrimava de saudade. Isso foi há cinco anos. Não é coisa antiga, não, e é vivenciada. As pessoas habitam mais nisso que no plano social.”

Depois do avô de Alter morrer, a avó veio para Belém, onde a futura mãe de Vicente conheceu Miguel Cecim, descendente de drusos libaneses.

Muitos árabes e judeus emigraram para a Amazónia entre o fim do século XIX e o começo do século XX. Um dos mais famosos escritores brasileiros contemporâneos, Milton Hatoum, é descendentes dessas levas. No caso dele, a cidade era Manaus, no caso de Vicente foi Belém.

“Quando vovô Yusef Cecim chegou, o registaram José Cecim. Veio morar numa casa aqui em frente. Era um árabe muito alto e nunca abandonou o hábito de vestir mantas, com um saquinho de dinheiro à cintura.” Um dia encantou-se com uma Florinda, italiana da Sardenha. “Lourinha, de olho verde, não saía da janela. Aí meu avô achava ela linda. Botou-a num saco de serapilheira e fugiu para casa. Meu pai contava isso… O real e o mítico misturados.” Passados uns meses Yusef reapareceu com Florinda ao colo, grávida. “E ela disse: ‘Eu amo ele, vou casar.’ Se não fosse esse sequestro amoroso não havia viagem a Andara, nem estávamos aqui conversando…”

Com ou sem sequestro, do casamento nasceu o pai de Vicente, que se tornou “um ‘bom vivant’, um ‘vitelloni’, como no filme de Fellini”. Era “um rapaz bonito, alto, de bigodinho”, amigo dos amigos e de beber. “Quando os pais morreram, foi criado por uma tia, viúva de um português muito rico. Jogava futebol, virou técnico. Foi eleito técnico do século no Pará. Era um estrategista.” Casou com a mãe de Vicente contra vontade da tia. “Ela disse: ‘Te deserdo.’ Ele não quis saber. Alugou uma casinha e vivia do jogo do bicho.” Fellini ia gostar.

Depois Vicente cresceu numa casa perto da Praça da República, a principal de Belém, onde está o Teatro da Paz. “Eu era um miúdo fechado, não falava. Minha mãe me chamava Rosa Branca, porque achava que eu era delicado, enquanto meu irmão era moleque de rua. Eu nem namorava, tinha vergonha. Quem me tirou disso quando eu tinha 17 anos foi uma boliviana que tinha uns 22. Não me fez falar, mas me ensinou o que era o amor. Fui trocar a botija de gás dela e ela me atacou. Uma mulher maravilhosa.”

Primeira de muitas. Que lhe aconteceu? “Casou e eu fiquei magoado. Continuei calado.” Depois tornou-se jornalista e teve de falar.

 

 

 

Andara=Amazónia

 

Já tinha 33 anos quando publicou “A Asa e a Serpente”, o primeiro livro. “Aí nasceu a capital de Andara, Santa Maria do Grão, porque Belém se chamava Santa Maria de Belém do Grão-Pará, quando foi criada em 1616.” Pelo colonialismo português.

Sim, Andara era uma criação poética, mas isso também queria dizer que era uma criação política. Andara era o desejo da Amazónia verdadeiramente real.

Num texto seguinte, o “Manifesto Curau”, de 1983, Vicente escrevia: “Nós, aqui, entre peixes, sonhos e homens, nesta Amazônia em transe permanente, sabemos, ou deveríamos saber, que é preciso tocar o coração de Aquiles do real, ali onde ele é sensível e impaciente espera de um acontecimento total que o transfigure.”

Nada menos que uma insurreição, eis o que o poeta propunha. Um levantamento contra o medo ocidental, descrito de uma forma que hoje parece profética: “Onde se oculta, e como se dissimula, o medo ocidental? Sua recusa sistemática da dimensão imaginária humana? […] O Ocidente culto é a repetição de uma repetição, a farsa de uma farsa […,] uma engrenagem que, atualmente, e cada vez mais, de repetição em repetição histórica, gira ao contrário: se antes permitiu ilusões reconfortantes, hoje, ela despedaça o próprio ocidental — e faz dele sua vítima mais imediata.”

O Ocidente “nega o real”, escreve Cecim, “em nome de uma realidade que, de fato, é vazia e inexistente, porque mero artifício engenhoso engendrador de uma forma de dominação que se quer estável e permanente”. E o medo ocidental culto é, de facto, o medo às revoluções “poéticas ou políticas, ou à aliança dessas duas formas de luta”, o medo, em suma, “às possibilidades históricas e estéticas da África, da Ásia, do Oriente Médio e da América Latina”.

Perante isto, que insurreição podia a poesia propôr para a Amazónia? Algo próximo do que João Guimarães Rosa fizera com o sertão, sugeria Cecim: “Esse tomar-se como indivíduo e ir mais além […] homem tornando-se homens para até mesmo expressar melhor, de volta à unidade, a condição humana, o real em cada um de nós, e […] ir mais adiante, para fazer essa região valer como uma alegoria do real inteiro, como tem sido vivido da China à África, na Idade Média, hoje ou durante os primeiros clarões da invenção do fogo.” Uma “operação, enfim, de mesclar destino individual e destino coletivo, região e mundo, realidade e imaginário, em demanda do real total”.

Vicente já morou fora da Amazónia, por amor, durante 13 anos. “Nunca quis ganhar dinheiro com a literatura. Fui para Salvador contratado como redactor de publicidade. Fiz a campanha contra o ACM [António Carlos Magalhães, o cacique que era “dono” da Bahia]. Tenho um sentimento árabe de guerrilha, de mudar a vida.” A Bahia era “o tropicalismo, Caetano, Gil, Glauber Rocha…” E uma mulher: segundo casamento, quatro filhos.

É um homem de mulheres, até hoje. Histórias que não acabam, se nos sentarmos numa esplanada. Uma das suas amadas era tão ciumenta que o acordava com ciúmes dos sonhos que ele estava a ter.

 

 

 

Amazónia=Andara

 

Livro a livro, Andara tornou-se a Amazónia num grão de areia, ou seja, o mundo. Em 2009, quando reviu o seu “Manifesto Curau”, Vicente escreveu: “Andara=Amazônia, chegou à inversão dessa hipótese originária, e atingiu o ponto, sem retorno, em que já se dá, atualmente, a formulação: Amazônia=Andara. Pois durante a viagem Andara cresceu, além de si e além de mim, e se expandiu em região-metáfora da vida ela toda, inteira, da terra ao céu, das serpentes às asas mais vastas, para bem além das coisas que a visão humana já não alcança, e apenas pré-sente, se territorializando como Lugar de Todos os Lugares.”

Onde a vida se transforma continuamente em morte, e a morte em vida. Vicente passou a assinar Franz Cecim quando o filho Franz foi morto, em 1993: “Seu nome tendo sido incorporado ao meu nome, veio se tornar meu solitário companheiro de viagem: ele Lá, eu ainda aqui, nesse aquizinho de nada em que sobrevivemos ora sonhando de olhos fechados, ora sonhando de olhos abertos e escrevendo livros”, escreveu.

O que é Andara, então? “Um território que se doa ao imaginário amazônico e a todos que dele quiserem se apossar, pois lê-se em sua entrada uma inscrição inversa à do Inferno de Dante, que diz: Ó vós que entrais, trazei toda a esperança.”

É aos “homens que cabe soprar apaixonadamente o real”, lemos nos livros dele. E “apesar de seus torturadores & de seus filhos indiferentes”, a Amazónia “ainda é o espaço que, aqui embaixo, enquanto todos dormimos os nossos sonos alienados, reflete & dialoga com as estrelas e, mais atrás delas, com o oculto negror de onde emana toda a luz”.

Sentado no domingo do Museu Goeldi, Vicente aponta a terra. “Está vendo isso aqui? O solo da Amazónia é isso, um, dois centímetros [de terra fértil]. É adubado pelo que cai das árvores. Esse é o maior problema das queimadas, das monoculturas. Quando você derruba as árvores para pôr soja, para pôr capim, para pôr gado, você mata a terra.”

Um optimista não fará nada por acreditar que não é preciso. Um pessimista não fará nada por acreditar que não é possível. Mas um poeta pode ir além disso e escrever: “Nos recusemos às cinzas. Cintilemos. Tentemos, ainda uma vez, permanecer no lugar mágico em que a vida nos lançou.”

 

Fotografias de Jordi Burch/Kameraphoto

(Público, 18-8-2011)

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