Marie-Henriqueta: a freira que denuncia a exploração sexual

Os repórteres estão sentados na Cairu, a mais célebre sorveteria de Belém. Foi sugestão da irmã Marie-Henriqueta pelo telefone. Então quando ela aparece com dois guarda-costas de camisa às riscas, ficamos ali todos a comer sorvetes de graviola, cupuaçu e castanha-do-pará, frutas da Amazónia.

Parece um filme.

A classe média de Belém passa para trás e para a frente, é um domingo na Estação das Docas, frente ribeirinha de restaurantes, bruá de passos, copos e ecrãs. Mas para a nossa entrevistada, quanto mais gente e barulho melhor.

Os guarda-costas não são dela, vieram resolver um problema com o carro da diocese, mas já que estavam em Belém acompanham-na, porque Marie-Henriqueta tem o nome numa lista de pessoas marcadas para morrer.

Ninguém diria que é freira. Uma mulher morena e tensa, de vestido às flores, cabelos esticados, mancha escura na cara. “Do sol”, tranquiliza ela. Ainda não olha nos olhos, olha em volta.

Nome completo, Marie-Henriqueta Ferreira Cavalcante. Era para ser Maria, foi engano do registo há 50 anos. Nasceu no interior do Amazonas, filha de um funcionário público e de uma costureira. A família veio para Manaus, ela entrou na vida religiosa em São Paulo, Congregação de Nossa Senhora Menina. Estudou biologia, viveu em Milão, no interior paulista e foi transferida para Belém. “Com a missão de morar na maior ocupação [de terra] que tem aqui, chamada Terra Firme. Gente que não tinha moradia, tipo favela. Lá fiz um trabalho com meninos e meninas organizados em gangues, meninos de alto risco. Foi o meu primeiro contacto com exploração sexual, meninos explorados na família e fora dela. Acontecia com muitos. E muita droga, muito assalto. Os meninos eram os aviõezinhos, trabalhavam para os grandes traficantes.”

Marie-Henriqueta morou lá durante um ano.

A seguir fez um curso na Índia, voltou à periferia de São Paulo, e aí, na zona leste da cidade, dirigiu uma casa para mais de 300 menores, dos sete aos 18. “Meninos que viviam em famílias desestruturadas, que tinham fugido, que moravam no Viaduto do Chá [centro de São Paulo], que vendiam droga…”

Voltou a Belém para trabalhar de novo no Terra Firme. “Foi muito forte a relação com o bairro. Ao todo são 150 mil habitantes, a maioria maranhenses [vindos do Maranhão, estado vizinho e dos mais pobres do Brasil]. Tem muitos meninos desaparecendo, mas a população tem medo de falar. As redes de tráfico de pessoas e de tráfico sexual estão interligadas. Gente com muito dinheiro, empresários, policiais, taxistas, donos de hotel. Tem tráfico de orgãos também, e tráfico para trabalho escravo.”

Na sua segunda temporada no Terra Firme Marie-Henriqueta concentrou-se num projecto de formação dos 7 aos 17 anos. “Reforço escolar, oficinas de pintura, teatro e capoeira para tirar os meninos da rua.” Só depois é que começou a trabalhar activamente contra a exploração sexual. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) chamou-a em 2008 para a Comissão de Justiça e Paz, onde chegavam muitas denúncias de exploração e tráfico vindas de todo o Pará.

“A situação é muito grave. Vivemos numa sociedade que tolera essas redes interligadas. A criação em 2009 de uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] sobre a exploração sexual fez com que a sociedade debatesse, e abriu espaço para mais denúncias, mas é muito grande o número de crianças violentadas. E o tráfico de pessoas é uma monstruosidade sem tamanho.”

 

Destino Suriname

 

Marie-Henriqueta conta a história de Nicolas, que neste momento está no Suriname preso. “É um rapaz muito bonito. Foi aliciado por uma mulher aos 18 anos. Primeiro ela se envolveu amorosamente com ele, depois prometeu-lhe que no Suriname ele ia ganhar muito dinheiro como modelo. Chegando lá, ele percebeu a enganação. A proposta era para se envolver numa quadrilha de assaltos. Foi assaltar, foram pegos pela polícia.”

Pequeno país a Norte do Brasil, o Suriname é um destino de todo o tipo de tráficos. “No ano passado fui a uma conferência lá e fiquei mais três dias para entrar nos prostíbulos onde as meninas estavam”, conta Marie-Henriqueta. “Eram todas brasileiras, a partir dos 14, 15 anos. Fui visitar o Nicolas na cadeia. A mãe é que veio denunciar o caso para mim. Ele tinha conseguido avisá-la. Ela foi para lá, conseguiu arranjar um trabalho. Fiquei espantada com a quantidade de brasileiros presos lá, por conta de assaltos, de droga, meninos e meninas. Muitos são paraenses, mas também tem muitos maranhenses. As meninas dos prostíbulos são do interior, muitas da Ilha do Marajó.”

E tudo isto coincide com o vaivém na Estação das Docas, famílias ao domingo e sorvetes de fruta.

Foi por causa da sua colaboração na CPI que em 2009 Marie-Henriqueta começou a receber ameaças. “Teve um caso emblemático, um ex-deputado que é pedófilo, foi condenado a 21 anos e está solto. Ele pegou uma menina de 11 anos do interior que se tornou escrava sexual. Quando começámos a pedir a prisão dele é que comecei a receber ligações anónimas: para eu tomar cuidado, não ficar mexendo com isso, que andava falando muito, que esse não era meu trabalho… Mexeu com um, mexeu com uma rede.”

E isto mantém-se.

“A última ameaça é de um pedófilo que mora próximo da minha casa. Abusou das três filhas, a esposa era minha amiga, denunciou.” A meninas têm 13, 14, e 17. “Aí quando foi a primeira audiência com a mulher, ele disse que sabia quem tinha denunciado, e que nós íamos pagar muito caro, porque ele ia eliminar nós duas. Depois ligou dizendo que só vai sossegar quando matar nós duas. Está solto. Eles passam a mapear a nossa vida todinha.”

Além dos empresários, policiais, taxistas e donos de hotéis, “tem até gente no Conselho Tutelar [orgão para proteger as crianças] paga para eliminar ocorrências e denúncias”, diz Marie-Henriqueta. “É isso que apavora, saber que você está num estado caracterizado pela impunidade. Quem não tem dinheiro é quem sofre. Se eu sair de Belém eles vão bater palmas.”

 

Na favela

 

Antes do sol se pôr estamos a caminho do Terra Firme. Marie-Henriqueta ligou a uma amiga de lá. Atravessamos Belém, a periferia, mato do lado esquerdo, a seguir barracos de cimento e de madeira, ruas cheias de lixo, gente sentada em degraus, música alta.

“Essa rua era onde eu trabalhava”, aponta Marie-Henriqueta, do carro. “Descia nessa parada do ónibus. Agora não dá para parar. É muito perigoso.”

Acabamos por parar frente a uma Assembleia de Deus. No canto mais desolado do Brasil haverá sempre uma igreja evangélica.

A amiga de Marie-Henriqueta mora numa casinha com grades, pátio com uma cadeira esventrada, um banco de plástico. É uma mulata calorosa chamada Sueli. Abraça a freira e os repórteres. “A gente invadiu esse espaço tem 21 anos, tinha uma necessidade. Depois algumas pessoas vieram-nos ajudar, como as irmãs”, conta ela. O terreno é da universidade do Pará. “Eu sou paraense, vim doutro bairro de Belém onde não tínhamos casa. Aqui tem gente do interior do Pará, do Maranhão, do Ceará, do Piauí…” São os estados mais pobres do Brasil. “Quando chegámos aqui, vivíamos em palafitas [casas assentes em estacas, muito usadas pelas populações ribeirinhas amazónicas] porque tinha muita água, era o braço de um igarapé [canal]. Teve malária, leptospirose, meningite, diarreia… Até pelo saneamento, que ainda é precário.”

Vinte anos depois, o tráfico de droga domina. “Tem todos os tipos de tráfico, mas o das drogas é a maioria e através disso vem a prostituição”, diz Sueli. “Dos 11 anos em diante as meninas já estão na boca do lobo. Algumas são levadas, outras continuam aqui. Se tivessem vindo mais cedo tinha umas quatro ou cinco aqui. As que são levadas vão para o interior e para fora. O Suriname é uma porta muito grande. As meninas são presas fáceis, e depois viciam-se.” E a polícia, diz, não os vê.

Sueli foi fundadora aqui. “Lavo e cozinho para fora, faço faxina na CNBB. A gente sobrevive. Mas eu creio que o ensino nos eleva. Eu estudo. Estou fazendo supletivo para terminar o segundo grau. Digo para mim que antes dos 60 eu ainda vou fazer sociologia, porque é a minha paixão.”

Mulata, 53 anos, ocupante de uma favela, moradora num barraco e com todo este horizonte.

À volta, carros de porta aberta bombando tecno-brega. “Aqui ninguém te respeita. Ninguém respeita o teu espaço. Tu vê, tem uma igreja evangélica aqui, e ali tem um bar e ali outro bar….”

Troncos nus ao poente, latas e garrafas, lama seca.

Quando saímos, depois da despedida, Marie-Henriqueta diz de repente, olhando os barracos ao longo da estrada: “A minha vida é isso aqui, está vendo? Sueli é a minha grande companheira, meu anjo da guarda. Quando não estou bem, ela vai lá para casa, controla tudo, protectora mesmo. Mas essa é a vida do nosso povo. Chega fim-de-semana e não tem de comer mas tem para beber.” Cachaça artesanal, baratinha. “É por isso que não quero sair de Belém. Hoje já não tenho mais medo de morrer. Assim como eles mandam recado para mim, eu devolvo: que não me calo de tanta vida violentada.”

 

(Público, 17-8-2011)

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