A vida no lixo

Sim, Rivaldo ouviu falar vagamente no Jardim Gramacho. Muitos brasileiros ouviram falar vagamente no Jardim Gramacho, mais ainda desde que o artista plástico Vik Muniz decidiu usá-lo na sua obra, e isso deu um documentário candidato ao Óscar: “Lixo Extraordinário”. Não ganhou, mas já ganhara prémios do público nos festivais de Sundance e Berlim, e continua a correr mundo. Terça-feira abriu o FESTin, no Cinema São Jorge, em Lisboa, com a presença de Muniz e de um dos realizadores, João Jardim, e desde ontem está em exibição nas salas portuguesas.
Disto, Rivaldo, o taxista carioca, não ouviu falar. Só sabe que Jardim Gramacho não é nenhum jardim. “É um lixão, não?”, pergunta, crucifixo a balouçar no espelho do carro, Cristo Redentor atrás das costas, enquanto avançamos cada vez mais para Norte.
Um lixão, sim. Mais exactamente, a maior lixeira do mundo: nove mil toneladas de lixo por dia, 60 milhões de toneladas já acumuladas.
Aqui vamos pela Linha Vermelha, a via rápida que vai do Rio de Janeiro ao aeroporto internacional. Só que depois do aeroporto continuamos, e continuamos, até Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Nem duques nem jardins. Fábricas, favelas, desolação, violência.
Tião tinha dito: primeira rua depois da Volvo. Tião, ou seja Sebastião Santos, o catador protagonista de “Lixo Extraordinário”.
Um catador é aquele que cata aquilo que se pode reciclar, e portanto vender. No Jardim Gramacho trabalham 1200 catadores. Vik Muniz encenou os retratos de alguns deles, trabalhou as fotografias, e o documentário — realizado por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley — acompanhou todo o processo: idas à lixeira, escolha das personagens, trabalho em estúdio, leilões internacionais, a alteração das vidas dos catadores protagonistas.
O resultado emociona: plateias a chorar. Mas é possível alterar realmente aquelas vidas? E se for, é legítimo? Quem ganha com isso? O artista? Os catadores? O filme?
Debates que o próprio filme esboça.
Além de dinheiro para uma casa nova, Tião viu-se em Londres e nos Óscares. Tem planos para melhorar a vida dos catadores e para projectos ecológicos.
Entretanto, no Jardim Gramacho, o debate é mais a sobrevivência.

O segurança

“Não deu nem para mim ver o filme”, diz José, negrão de tronco nu, cercado por sacos de lixo já escolhido. É o segurança da Cooperativa de Catadores liderada por Tião.
E Tião, que combinou com o Ípsilon aqui? “Veio e foi”, diz José.
Rivaldo, o taxista, está boquiaberto, braços apoiados na porta do táxi. Olha o lixo, respira o cheiro, adivinha o resto. Depois da fábrica da Volvo lá dobrámos à direita, baldios com gente de tronco nu caminhando no calor. O cheiro cada vez mais próximo: pesado, denso, podre.
Se há um fim do fim, é aqui.
Tião não atende o telemóvel. A mulher, em casa, atende e promete encontrá-lo. No telefonema seguinte explica que a mãe de Tião está no hospital e que ele teve de a ir ver. Não, não vai ser possível estar com Tião hoje.
José vai continuar sozinho pela manhã. Está com 55 anos.
“Catei até o ano passado. Mas depois adoeci e não fui mais, não.” O lixo em decomposição produz gás. “A minha pressão piorou muito.” Como muitos dos catadores, veio de fora, neste caso, de Minas Gerais. Catou durante 25 anos.
“Tudo o que vê aqui já catei”, diz apontando os sacos encardidos. “Alumínio, papelão, frascos, plástico fino, sucata…” Por cada um que sai, tem um que vem. “É um rodízio, noite e dia, homem e mulher, só não tem menor. Mas no Verão, ali no meio do lixo, é um calor…”
À beira da cooperativa sempre está mais tranquilo, embora desarmado. “Eu e Deus.”

A montanha

Para chegar à entrada da lixeira, há que atalhar por caminhos de terra cheios de barracos, e depois caminhos de asfalto, mas ainda com barracos. Entre os barracos, em vez de hortas, animais ou tralha, há lixo. Sacos de lixo para vender, Contentores a transbordar, e em volta os restos que não se vendem. Lixo, lixo, lixo.
Não é a lixeira, ainda. É o entorno da lixeira. A aldeia-satélite dos que vivem do lixo e no lixo. Crianças correm e saltam no lixo, como se fosse terra ou erva. E há placas a anunciar sorvetes e açaí. Rapazes em motos. Bebés em triciclos.
Mais próximo da entrada oficial, uma Igreja Mundial do Poder de Deus, anunciando o seu Templo dos Milagres. Um ônibus 016 Duque de Caxias-Jardim Gramacho. Camiões do lixo saindo. Ao fundo a placa: Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho. Além da placa, uma espécie de montanha ondulante, cor-de-barro.
“O lixo está todo ali por baixo”, diz o segurança Marco, nordestino do Rio Grande. “É tipo uma balança. A terra é jogada em cima ao fim de dois, três dias, depois do lixo secar.” No filme vêem-se as grandes pilhas acabadas de chegar, antes de serem soterradas. Marco também não viu o filme, mas acha que “alguma gente fica rica e os catadores na miséria”. Aponta as barracas em fila, até à entrada: “Eles moram ali.”

Maneco na esquina

Num dos barracos, mulatos de tronco nu fazem desenhos com cabelo, rapando partes do crânio.
À esquina, há um veterano sentado, uma espécie de rei. Um sofá esventrado e imundo faz as vezes de trono. “A minha história no lixo é longa…”, avisa o veterano.
Chamam-lhe Maneco.
Chega um rapaz, de lixo ao ombro. Maneco conta umas notas e paga-lhe. Já catou muito, agora compra o que outros catam.
E viu o filme, sim senhor. “O Tião é muito meu amigo, mas eu não gostei do que ele fez. Porque ele só envolveu pessoas novas, que chegaram há pouco tempo. Fez uma coisa boa em valorizar a nossa imagem lá fora, mas tinha de pegar as pessoas antigas. Ele procurou pessoas mais cultas, mais inteligentes. E tinha de procurar os lixeiros ignorantes, sem cultura, do jeito deles mesmo.”
Passa um homem com um prato cheio de puré e uma coxinha. Aqui se come e dorme, dinheiro no bolso.
“Um dia de trabalho de catador é de 100 reais para lá”, diz Maneco. “E sem esforço”, reforça um jovem Ramon que acaba de chegar.
A catar o quê? “Alumínio, papelão, plástico fino…”, aponta o veterano. “Hoje em dia o material está todo em alta. Alumínio é o que dá mais dinheiro. Vem daqui: latinha, panela…”
Pega para mostrar.
Depois pergunta: “Quer ouvir minha história do lixo?” E lá vai: “Eu vim da Lixeira do Cajú. Menino já estava no lixo. Meu pai era dono de ferro-velho. Ele dizia: ‘O dinheiro que arrumei é meu. Vocês se quiserem façam por onde.’ Então como todo o mundo ganhava dinheiro do lixo, fui catar lixo com 13 anos. Até hoje, quando está ruim aqui, eu vou e cato. Quando a maré está braba, a gente arregaça as mangas e vai trabalhar.”
É uma vida sem melhora. “Moro aqui mesmo, num barraquinho de madeira. Milhares de pessoas estão morando aqui. Cearenses, paraibanos, baianos, mineiros, pernambucanos, cariocas mesmo…”
E doença, não tem? “Tem em qualquer lugar, não tem? A gente bota uma luva, uma bota, um chapéu para tapar do sol. A gente não vai com o corpo aberto. A coisa é dura, mas é por isso que ganha dinheiro. Se fosse fácil, a gente não ganhava.”
“Mas quando teve o incêndio a gente perdeu tudo”, resmunga um rapaz sujo e tatuado. Chama-se Cleverson. Veio pequeno da Paraíba, lá no Nordeste. “Veio de lá comendo farinha!!!”, zombam os outros.

O fim de Gramacho

Maneco, cavalheiro, descompõe um dos rapazes que entretanto deixa cair um saco sujo ao pés da repórter. Quer mostrar disciplina.
Mas estamos perante um fim anunciado. Ontem mesmo começaram a chegar os camiões que lentamente vão transferir o lixo do Jardim Gramacho para o novo Centro de Tratamento de Seropédica, a bem da ecologia, anunciam as autoridades. “Estamos encerrando um crime ambiental que a cidade do Rio vem cometendo contra a Região Metropolitana e a Baía de Guanabara há anos”, disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes. Mais: “Esta é a maior vitória ambiental da cidade em toda a sua história.”
Vai demorar, mas já começou.
“Eles estão querendo tirar o lixo daqui, dizendo que não está suportando mais, mas se o lixo acabar, isso aqui vai virar uma Indonésia!”, proclama Maneco. “A maioria das pessoas vai passar fome! Muita gente deixou de ter uma profissão lá fora.”
Diz “lá fora” como se Gramacho fosse um mundo.
E mostra o relógio no pulso, os anéis nos dedos. “Aqui no Jardim Gramacho, com tudo se ganha dinheiro. Está vendo? Tudo isso é do lixo. Vai desperdiçar?”
Cleverson abre uma lata de atum com o bico negro de um facalhão, espeta pedaços e mete à boca.
“Ouro, dinheiro, jóias”, prossegue Maneco. “Você acha tudo aqui… A vida é assim mesmo.”
“É boa”, comenta Cleverson, mastigando mais um naco.
“É muito dura”, corrige Maneco. “Mas a gente se acostuma.” Depois irrita-se com Cleverson por ele estar ali a comer como se tivesse tirado do lixo. “Depois vão dizer que a gente come do lixo. Eu não vivo de comida do lixo! Come besteira do lixo quem é burro!”
Cleverson mastiga impávido.
É avó, Maneco. E antes disso, pai de 14 filhos, nada menos. Onde estão? “Variado”, atalha ele. Filhos de várias mães. “O importante é que dei audiência para todos eles. Quando a gente é novo, tem os dentes todos, a pele lisinha, arrumar namorada é fácil…”
Isto, para dizer que agora está sozinho.

(Público, 29-4-2011)

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