Grândola vilá morê-ê-ná / Térra dá fratérnidá-á-dji….

Ouvem-se os pés na gravilha. Um actor-soldado começa: “Grândola vilá morê-ê-ná…” Os outros fazem coro: “Térra dá fratérnidá-á-dji….” O batalhão alinha-se diante da plateia: “O povo é quem mais ôrrdê-ê-ná / Dentro dji ti ó cidá-á-dji….” E na plateia há quem sussurre: “Dentro dji ti ó cidá-á-dji…”
É o ponto alto de “Ruptura”, peça escrita e dirigida por Márcio Boaro para a Companhia Ocanorama, que esta noite conclui cinco apresentações gratuitas em São Paulo.
Uma espécie de ensaio para a temporada paga, em Agosto próximo, com casa cheia, e uma grande maioria de espectadores nascidos depois do 25 de Abril. Jovens artistas, militantes feministas, gente do Movimento dos Sem Terra.
A sala é uma “black box” com bancada, mais de cem lugares. No piso de cima há outra “black box”, e no piso de baixo um grande bar com um pequeno palco. Três espaços que podem funcionar em simultâneo, ao todo mil metros quadrados.
Estamos na rua da Consolação, ponto centralíssimo de São Paulo. A alguns quarteirões estão as casas chiques de Higienópolis, bairro de forte presença judaica, mas aqui já não é zona residencial: “stands” de automóveis e antigas fábricas, como esta, reciclada em teatro. Márcio e camaradas alugam-na a uma família judia, também dona dos “stands” vizinhos. Fabricavam-se televisões aqui, mas isso foi há décadas. O espaço estava abandonado.
E se a companhia pode pagar os 11 mil reais da renda (4800 euros) e pôde dedicar quase um ano a preparar este espectáculo, é, como Márcio não se cansa de dizer, pelo apoio da prefeitura de São Paulo, mais o apoio de um deputado do PT.
O espectáculo começa com um pinguepongue entre o 25 de Abril de 1974, em Portugal, e o 25 de Abril de 1984, no Brasil. Na interpretação do autor, se um foi a revolução, ou seja, a ruptura, o outro foi a não-revolução: o Brasil da ditadura saiu para a rua a exigir eleições directas, mas não houve ruptura, fez-se um acordo.
Então, do lado esquerdo da cena, ouvem-se os gritos “Directas já!”, em português do Brasil, e do lado direito da cena, “Vitória! Vitória!”, em português de Portugal. Depois, o som do Brasil extingue-se e fica só a voz de Adelino Gomes, a narrar a vitória da revolução.
O que se segue, na hora seguinte, é um como e porquê dessa ruptura, voltando atrás, às colónias portuguesas em África, nos anos 50. Passaremos por Salgueiro Maia, pelo “E depois do adeus”, pelos discursos de Álvaro Cunhal e Mário Soares, por Glauber Rocha filmando freneticamente no 1º de Maio, pelas mulheres gritando “Homens na cozinha!”, pela LUAR e pelo 11 de Março, pelo PREC no Alentejo, uma camponesa tomando a palavra: “Quando as pessoas perdem o medo, é nessa hora que começa a revolução.”
Tudo terminará com o Brasil de 2011 a discutir as revoluções árabes, em paralelo com a Lisboa de 1980 a discutir o FMI. Soa actual?

Vinho em Tatuapé

Márcio Boaro, 44 anos, é paulistano de Tatuapé, periferia a leste onde vivem muitos portugueses. “Eles queriam fazer vinho e o meu pai trabalhava com frutas, então encomendava uvas do Rio Grande do Sul. E eu tinha 10 anos e ficava o tempo todo com portugueses fazendo vinho.” Quem diz vinho, diz bagaço. Uma vez até explodiu a destilaria da bagaceira. Memórias de Márcio.
Aí pelos 21 anos, depois de vários cursos de teatro, chamaram-no para fazer “O Encoberto”, de Natália Correia, no Centro Cultural 25 de Abril, fundado por comunistas portugueses. “Ficámos oito meses discutindo sebastianismo…” Mas ele sabia o que tinha sido aquilo, o 25 de Abril? “Não! Para mim podia ser 25 de Abril ou 7 de Julho, qualquer nome.” Mas quando chegou o dia 25 de Abril o centro fez uma festa e Márcio descobriu a revolução portuguesa.
“Sempre fui de esquerda e fiquei curiosíssimo de saber de uma revolução feita por militares, porque aqui os militantes da esquerda tinham ódio aos militares.” Os militares brasileiros eram a ditadura.
Concretamente, Márcio militava no PT, o partido de Lula. “Até se desvirtuar. Tenho críticas bem severas ao PT. É muito parecido com o PS português. Em Portugal estou bem mais próximo do Bloco de Esquerda.”
Durante anos foi lendo sobre Portugal e a revolução, mas a ideia de um espectáculo só fez clique quando ouviu o líder do Movimento dos Sem Terra, João Pedro Stédile, dizer que o 25 de Abril tinha sido uma revolução espontânea. “Fiquei um pouco incomodado com essa palavra.” Porque a génese era longa, a revolução fora organizada, e Márcio queria explicar isso, resgatando de caminho a própria palavra: “Alguém faz uma reforminha e diz que fez uma revolução. A palavra está desgastada.”
E como nunca houve uma revolução no Brasil, diz ele, o melhor mesmo era recorrer a Portugal.
“O Brasil nunca teve uma ruptura. 1822 [declaração da Independência] foi um acordo da Casa Real. Depois 1889 [fim da Monarquia] foi um acordo de onde saiu a república brasileira. Nunca tivemos um movimento de ruptura social real, ao contrário de Portugal, que tem dois momentos: o 25 de Abril e o Terramoto de Lisboa.” Márcio leu e ficou fã do “Pequeno Livro do Grande Terramoto”, de Rui Tavares.
“Foi por causa do terramoto que os portugueses vieram buscar o ouro de Minas Gerais, e a colónia foi tão sangrada que isso deu na Inconfidência Mineira.” O movimento revoltoso de Tiradentes em 1789, reprimido pelos colonizadores portugueses.
Podia ter sido, mas não chegou a ser, uma ruptura.
E no século XX, ainda menos, diz Márcio. “Nas Directas Já, o Brasil pegou fogo e de repente houve um acordo. Os torturadores nunca foram perseguidos. Estão todos aí. A Dilma [Rousseff] sabe o nome e o endereço de quem a torturou e não fez nada.”
Quando ouviu a frase de João Pedro Stédile, Márcio tinha acabado de fazer um espectáculo sobre as invasões holandesas no Norte do Brasil, no século XVII. “Estava na hora de uma coisa mais contemporânea sobre a revolução. Ai falei: ‘Vamos fazer sobre a Revolução dos Cravos, uma ruptura real que a gente ainda precisa de fazer no Brasil.’”
Será? Mas se o Brasil não rompeu quando as coisas estavam mesmo pretas vai romper agora, com 30 milhões levantados da miséria?
“Votei na Dilma, brigo pela Dilma, votei no Lula todas as vezes, fiz campanha todas as vezes”, diz Márcio. “Mas os bancos ganharam muito dinheiro com o Lula, teve um acordo claro com a burguesia. Foram oito anos de uma no cravo, outra na ferradura. O Lula é extremamente carismático, mas não rompeu claramente. José Sarney apoia o Lula…”
Houve “um processo reformista com muitos méritos, mas não dá para falar que teve uma ruptura”, insiste. “Quem é brasileiro e não é de esquerda, ou é mau carácter ou é mal informado. A desigualdade social no Brasil é gigantesca. Tão grande que se continuarmos nesse toquezinho de bola vai demorar muito tempo para resolver. Não sei se vai ter ou não uma ruptura, mas é importante ter o discurso na agenda.”
Assim, fez os actores mergulhar em meses de pesquisa, começando por lhes mostrar o filme de Maria de Medeiros, “Capitães de Abril”.
Mas quase 40 anos depois, Portugal está a braços com o FMI. O Brasil não teve ruptura e deu-se bem. Que conclui Márcio disto? “Vocês estão num momento terrível porque traíram a revolução. A revolução começou a desandar quando entrou o FMI, em 1980. Eu até queria usar essa música…”
Aquela em que José Mário Branco canta: “Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento em que ‘tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem… E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do… que dia é hoje, ah?
FMI Dida didadi dadi dadi da didi.”
Talvez Márcio ainda mude o fim, e use a canção, antes da temporada a valer, em Agosto.

(Público, 25-4-2011)

2 comentários a Grândola vilá morê-ê-ná / Térra dá fratérnidá-á-dji….

  1. Só para sublinhar uma e outra vez o quanto gosto de lê-la, Alexandra. Obrigada! Abraço de cá. Cristina Gomes da Silva – ESE de Setúbal

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  2. Pois, estamos todos um pouco ou muito desiludidos, nao é? Grândola ainda é uma referência na voz única do Zeca, mas revoluçao…?! Onde e quando? Resta-nos esta morna e podre ‘democracia’ que conta connosco apenas para o voto. Aqui em Espanha, Galiza bonita em que me encontro, começou hoje a campanha para as autárquicas…folclore, espalhafato, sorrisos – é isto a DEMOCRACIA????

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