Orixá do aqui e agora

1. Em São Gonçalo do Rio das Pedras, um lugar que cabe na palma da mão, conheci uma mulher que escrevia cartas a pedido. Talvez não escrevesse há muito tempo na tarde em que a visitei, mas estava pronta se eu tivesse pedido.
Isto aconteceu há meses. Nunca mais encontrei ninguém assim. As cartas escritas só lêem o passado.

2. Não sei o que é mais perigoso, se ler o passado, se ler o futuro, mas no Brasil o futuro é um mercado vasto. A cada muro, a cada viaduto, alguém promete lançar-nos cartas ou búzios, geralmente para trazer o nosso amor de volta com pagamento após o resultado.
Como nos correios, os prazos variam entre serviço normal (“Trago o seu amor de volta completamente apaixonado em 21 dias”), expresso (“Trago o seu amor de volta grudado em você em quatro dias”) e trem-bala (“Trago o seu amor louco de desejo em 24 horas”).
Se conheço tantas mulheres lindas e sozinhas por esse mundo, até mesmo em São Sebastião do Rio de Janeiro, ou, como algumas cariocas exasperadas diriam, sobretudo em São Sebastião do Rio de Janeiro, imagino as que não conheço. Quantos corações vagabundos à espera de cartas, búzios, trabalhos, simpatias, amarrações.
E aqui no Brasil, mesmo quem não acredita até acredita.
Porque por cada mil anúncios de charlatãs e charlatões, há um pai-de-santo ou uma mãe-de-santo, vidente ou oráculo, alguém que de verdade lê.

3. — Não é possível ler o futuro, mas é possível ler o presente que já está a ser incubado — diz-me uma jovem académica, professora de Literatura Portuguesa, num restaurante da Zona Sul.
O trabalho dela é levar estudantes cariocas das Cantigas de Amigo a, idealmente, Mário Cesariny. E vai uma aposta que se Cesariny aqui estivesse ia querer ir já aquele terreiro daquela mulher tão dotada pelos orixás que saiu do centro da cidade para buscar espaço na periferia.
Orixá precisa de espaço, tal como as árvores.
Entre risotos e vinho tinto, a jovem professora conta coisas vindas de África e misturadas pelo Brasil que aconteceram a quem achava que não acreditava mesmo. Por exemplo, quando ela levou o marido, também professor, totalmente ateu, ao tal terreiro da periferia.
Primeiro, a mãe-de-santo viu nele todas as circunstâncias do presente que ninguém lhe podia ter contado. Depois, chamou a jovem professora à parte e disse que via uma coisa má. Seria melhor não a dizer? Não, respondeu a jovem professora, que dissesse tudo. Então a mãe-de-santo falou numa morte que aí vinha, uma morte na água. Tempos depois um bebé morreu antes de nascer. A mãe-de-santo não vira o futuro, mas o que estava a incubar, o presente que ainda não vemos.

4. A psicanálise é uma espécie de orixá para trás. Aos pobres fica cara. Do ponto de vista dos pobres, o passado é um luxo. Não querem lê-lo, querem fugir dele.
Mas em São Gonçalo do Rio das Pedras, lá onde duas estradinhas de terra ruiva se encontram, entre cachoeiras e pássaros de uma nota só, estão guardados os rascunhos do que muita gente foi num dado momento, nascimento e morte, amores e brigas.
Ao longo dos anos, as pessoas vieram a casa dessa escrevedora e ela compôs o que lhe pediam em cadernos, antes de passar cada carta a limpo. Mostrou-me essas páginas na tarde em que a visitei. Era uma salinha de telha à vista, casinha encardida de um piso só. Ali estava ela, sozinha, com uma história que há-de ter ficado num dos meus cadernos.
Nunca a contei mas acompanha-me como um orixá.
Penso nela como quem guarda o que os outros já não se lembrarão que foram, e portanto já não serão.
Somos aquilo que a memória não guardou? Prefiro acreditar que somos aquilo que a memória reconstrói, criadores de nós mesmos.
Talvez por isso o passado seja muito mais perigoso. Puxa-nos para o que não escolhemos, como a nascença, ou a cerimónia.

5. O prodígio de uma cidade furtiva como o Rio de Janeiro é tanta gente andar em busca do seu futuro, e alguma gente andar em busca do seu passado, e toda a gente viver o presente como mais ninguém.
A beleza do Rio aparece e desaparece a cada curva, abrupta e recortada, nua ou luxuriante, e algures num boteco pé-sujo, numa birosca de esquina, alguém que pode ter perdido tudo e não vir a ganhar nada come um pastelinho de camarão com catupiry, um caldinho de feijão, uma carne seca com aipim.
Quando atrás das costas tem mar, pela frente tem floresta, lagoa, morro, ou vice-versa. O segredo é esse tal lugar onde tudo é ao mesmo tempo o que já foi e o que vai ser, e portanto não é preciso ir a mais lugar algum.
Coração vagabundo por amarrar, e se der ainda bate um samba.

(Público, 15-4-2011)

Um comentário a Orixá do aqui e agora

  1. Para fugir das palavras "crise,agências de rating, economistas fazedores de opinião", leio a beleza dos seus textos. Pacificam-me!cumprimentos

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