“É como um Frankenstein que se constrói com pedaços da realidade”

O problema central do massacre de Realengo não foi “bullying” ou extremismo religioso, defendem psiquiatras ouvidos pelo P2.
Tanto quanto é possível avaliar sem uma entrevista clínica, Wellington Menezes de Oliveira, o homem que no dia 7 matou 12 crianças numa escola e depois se matou, não era um psicopata em busca de vingança, mas sim um psicótico de características esquizóides, que construiu uma personagem com fragmentos diversos de realidade: massacres, humilhação na escola, citações bíblicas, 11 de Setembro.
Ou seja, matou por ser doente e não ter acompanhamento, não por ter sido humilhado ou estar ligado a terroristas. O facto de ter mencionado essas justificações faz parte das características da doença.
Os vídeos que a polícia encontrou no computador dele, em que Wellington se filma a falar dos planos para o massacre, vêm reforçar este quadro.
“É uma pessoa doente, um esquizofrénico que apresenta delírios, e dentro desse contexto sofreu ‘bullying’, o que por si não justificaria o acto”, diz o pedo-psiquiatra Gustavo Teixeira, autor de um “Manual Anti-Bullying”. “O ‘bullying’ pode ter sido um gatilho para disparar a doença, mas a doença tem uma origem genética e todo o delírio dele está relacionado com isso.”
Para o psiquiatra Fernando Portela Câmara, investigador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, trata-se claramente de um caso de alteração de personalidade. “É muito típico neste tipo de assassinos. Eles não têm uma identidade própria. Tentam criar uma com informações que vão colhendo nos media.” Assim fez Wellington. “Construiu uma personagem baseada naquele coreano do massacre nos Estados Unidos [em 2007, numa universidade da Virginia, 32 mortos]. Wellington é um ‘copycat’, um imitador, como uma espécie de Frankenstein, pegando pedaços de realidade e construindo um corpo monstruoso. Existe um narcisismo muito forte. Ele mimetiza o homem-bomba para construir a figura do grande vingador, para provocar uma grande comoção e fazer toda a humanidade sofrer.” E para isso escolheu aquelas crianças, sobretudo meninas.
Existem “personalidades assim, incubadas, que agora têm uma tendência maior para vir ao de cima por causa da repercussão nos media”, diz este psiquiatra. “Recebem estímulos para justificar esses impulsos. Não é tão incomum. É uma parte do ser humano muito distorcida, que não se completou como personalidade.”
O que parece claro a Fernando Portela Câmara é que Wellington podia ter sido travado antes do massacre. “Essa possibilidade diminui bastante com ajuda. Se ele tivesse uma assistência de saúde mental provavelmente isso não teria acontecido. A des-hospitalização tem causado muitos problemas de violência. O grande paradigma da psiquiatria moderna é a detecção precoce.”
Na sequência do massacre, apareceram vozes a diagnosticar esquizofrenia, mas esse diagnóstico “não é tão simples”, acautela este especialista. “Não tenho dados para saber se é esquizofrénico. É uma personalidade introvertida, gravemente perturbada, delirante paranóica, com trazos esquizóides fortes. Dentro desse quadro, aconteceu falta de assistência e a mãe que morreu, uma falta de regulação clínica e familiar, que permitiu que a coisa aflorasse.” Porque, sublinha, “para um indivíduo desses passar ao acto, precisa de tempo para elaborar essa personagem”.
Agora, “não podemos ficar moralizando” conclui. “A mensagem é voltar à preocupação com as pessoas ao nosso redor.”

Problema crónico

As condições da assistência mental no Brasil são um problema crónico, defende Maria Rita Kehl, uma das mais conhecidas psicanalistas brasileiras, numa entrevista publicada pelo fórum electrónico Brasilianas.org. “Ao que tudo indica a tragédia foi causada pela doença mental, não detectada nem tratada, de Wellington. A princípio, o tratamento das psicoses é uma questão de saúde pública, sim. A psicose não tem cura, mas tem tratamento, que pode ser muito eficaz e estabilizar o sujeito pela vida toda. Mas o Estado não tem como fazer um recenseamento dos psicóticos que não estão sendo tratados. É preciso que a pessoa, ou a família, ao menos procure um serviço da rede de Saúde Mental — só aí começa a responsabilidade do Estado.
Não sei se Wellington fez isso. Claro que vale discutir a qualidade desse atendimento nos Ambulatórios, o baixo orçamento dos Centros de Atendimento Psicossocial, o baixo salário dos profissionais e o pequeno número deles para uma agenda carregadíssima, etc. Mas isto não tem uma relação tão direta com a tragédia de Realengo. É um problema crónico do Brasil. A Prefeitura do Rio teve dinheiro para fazer o estádio do Pan, a Cidade da Música, mas certamente falta dinheiro para os serviços de saúde, e mais ainda para a saúde mental.”
Kehl sublinha que tudo o que leu “a respeito do desencadeamento do surto que levou Wellington a matar doze crianças” obriga “a admitir que a origem de algumas tragédias seja imprevisível”, e é terrível pensar assim. “Queremos, com razão, saber as causas da violência para prevenir seus efeitos.” No entanto, diz não saber “como a passagem ao ato de Wellington poderia ter sido evitada, a não ser que ele tivesse buscado acompanhamento médico e psicológico — que ele não procurou”.

“Videognóstico”, não

Psiquiatra forense e perito do Ministério Público, Cláudio Lyra Bastos começa por dizer ao P2 que sobre este caso “falou-se muito, sem fundamento, por causa da comoção pública”. E um exemplo é “esse ‘vídeognóstico’ sem haver um exame”, ou seja, fazer-se um diagnóstico a partir dos registos encontrados no computador de Wellington. “Nos vídeos, ele não está interagindo com uma pessoa, e a interacção é um elemento fundamental para o diagnóstico. Todo o mundo deu palpites, mas para um diagnóstico é preciso fazer uma entrevista. Temos apenas alguns elementos.”
O que a experiência de anos permite concluir a partir desses elementos é isto: “Uma aparência bastante clara de um indivíduo com uma queda psicótica, de características esquizóides. Não um psicopata.”
Qual é a diferença? “Um psicótico é um doente mental, um indivíduo que não consegue fazer uso das suas faculdades, por exemplo, um esquizofrénico, por lesão cerebral ou influência externa.” Wellington caberá nesse quadro.
Já um psicopata é “toda aquela pessoa com uma organização de vida que não se coaduna com a vida dos outros”, mas que não se sente doente. “São indivíduos que nunca aparecem nos consultórios por sua iniciativa. Não se sentem com qualquer problema. Um exemplo é o sociopata, o anti-social.”
Os elementos conhecidos do caso Realengo, nomeadamente cartas e vídeos, “falam em vingança, mas não é uma vingança comum, dirigida a quem lhe fez mal”, distingue Cláudio Lyra Bastos. “É uma ideia de purificação. As instruções da carta [encontrada na escola] são místicas. Isso é comum nos psicóticos, a ideia de ressurreição. Não é uma vingança, é a fantasia de um delirante. Não é ‘bullying’, é uma mente perturbada. Claro que terá havido ‘bullying’, mas ele apenas utilizou isso na argumentação porque o assunto está nos media.”
É próprio dos delirantes: “Há 200 anos deliravam com bruxas. Hoje deliram com electrónica, ‘bullying’, 11 de Setembro, coisas circunstanciais, que não são o centro do problema.”

(Público, 16-4-2011)

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