Abismo é o coração

1. Uma das coisas que um português a morar no Brasil descobre é a quantidade de portugueses que moram em Portugal mas cuidam do Brasil. Tenho recebido quase diariamente mensagens de quem sabe o que muitos brasileiros não sabem, não cantam, não verão. Pequenos bilhetes, notas no Facebook, mas por vezes longas cartas mesmo, como a daquele portuense que calcorreou a pé e de ónibus o Rio, e passou mais tempo no subúrbio de Nilópolis ou no Centro que no Leblon, e entendeu o que eu ainda nem sei que há para entender.
Um português que nunca aqui veio disse-me que há um Brasil que só os portugueses conhecem e é verdade. Mesmo portugueses que nunca aqui vieram conhecem mais do Brasil, das canções, dos lugares, das personagens, do que muitos brasileiros conhecem de Portugal mesmo que lá morem. E nenhum estrangeiro curioso pode entender o Brasil como um português curioso.
Uma das últimas mensagens que recebi de um desses portugueses trazia anexado um vídeo de Cartola, o génio sambista da Mangueira, voltando velho e falido a casa do pai, e para ele cantando “O mundo é um moinho”. Canta Cartola: “Quando notares estás à beira do abismo”.
Com Portugal tão no fundo, parece uma metáfora, mas este abismo é o coração de um homem.
E tudo o mais tem saída.
Por exemplo, não é possível prever um atirador louco, mas é possível proibir as armas e melhorar as escolas públicas.

2. Os brasileiros não querem ser outra coisa que não brasileiros. A serem forçados, seriam ingleses, franceses ou estado-unidenses, e se pudessem mudar o passado teriam sido colonizados por ingleses, franceses ou estado-unidenses em vez de portugueses.
Claro que numa roda de cariocas haverá sempre um que tem ou poderia ter passaporte português, porque tem um qualquer ascendente português, e até pensa ou pensou morar em Portugal. Mas nenhum brasileiro deixa de ser brasileiro, é uma impossibilidade técnica, e logo ia deixar de ser brasileiro para ser português? Nem muitos portugueses querem ser portugueses. Alguns não se importavam de ser espanhóis, outros não se importavam de ser brasileiros, outros ainda não se importavam de ser qualquer coisa menos portugueses.
Já eu, ao contrário do que disse aquele senhor espirituoso do “Financial Times”, não quero ser brasileira. Não que heróis do mar, nobre povo, nação valente seja o meu forte. Houve até um tempo em que não me importava de ser espanhola.
A verdade é que me ia cansar de tanta ênfase, mas ainda assim acho que era um pouco mais possível ser espanhola que brasileira, porque, em suma, serei sempre tão europeia como fumadora, mesmo tendo deixado de fumar fez ontem cinco anos, e morando nos trópicos do Cosme Velho.

3. Pensei nisto na plateia do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, antes de começar “Ten Chi”, a peça “japonesa” que Pina Bausch criou em 2004.
Os dourados recém-restaurados luziam por cima de nós, cobrindo varadins, colunas, balcões, tecto. O melancólico Wagner ‘Capitão Nascimento’ Moura estava na primeira fila, havia artistas plásticos, escritores, editores, certamente bailarinos. Mas não era uma plateia misturada como eu veria em Lisboa. Era uma plateia de gente branca, ruidosa e dispendiosamente vestida, no meio da qual havia artistas.
Nunca tinha visto esta peça de Pina Bausch e creio que não é das melhores coisas que ela fez. O mais inesquecível é nevar quase todo o tempo, e a dança catártica do final. Seja como for, aquela plateia não tinha grandes termos de comparação. A companhia de Pina não veio muito ao Rio.
O que pensei foi isto: sendo do mundo, Pina é tão europeia.

4. O Brasil está em vias de ser uma superpotência não imperialista. Não por imperativo ético mas por falta de interesse. É um país-continente que se basta, o que pode ser visto como a sua grande qualidade e o seu grande defeito. Nos piores momentos, o mundo começa e acaba aqui. Gosto especialmente quando alguém me fala na rua, eu respondo, e a pessoa conclui, compreensiva: “Ah, você não fala português.”
Para já não falar, por exemplo, da burocracia exigida a um português para residir aqui. Os brasileiros dirão: “Aprendemos com vocês…” Não duvido, e certamente que todas as políticas de vistos têm uma componente retaliatória.
Mas como o camaronês Célestin Monga, economista do Banco Mundial, lembrou numa palestra aqui no Rio, porque havemos de querer repetir os erros dos outros?

5. Wellington Menezes de Oliveira repetiu Columbine. Entrou numa escola pública e atirou à cabeça de crianças, sobretudo meninas, entre 12 e 14 anos. Podia ter acontecido na Gávea, o bairro mais rico do Rio, mas não aconteceu. Aconteceu no Realengo, o 89º bairro mais rico do Rio.
Em todos os países há ricos, mas em alguns países os ricos estão todos nos mesmos lugares, e nesses lugares raramente há pobres, e geralmente são os pobres que morrem.
Na catástrofe da Serra carioca também foi assim. Sendo certo que havia ricos e pobres, e todos sofreram, morreram sobretudo pobres, porque tinham casas mais vulneráveis e em lugares mais perigosos, e não tinham dinheiro para fretar helicópteros de um minuto para o outro.
Mas como o próprio Brasil tem mostrado, e Lula da Silva simboliza, esse grande desequilíbrio tem uma saída colectiva, a que idealmente chamamos política.

(Público, 9-4-2011)

3 comentários a Abismo é o coração

  1. Brasil é invenção portuguesaEsse enorme território foi unificado e transformado em nação por Portugal"se os brasileiros tivessem sido colonizados por inglaterra" é o maior disparate que já li, salvo, se for índio a fazer tal afirmação.Se Ingleses tivessem colonizado o território ao qual os portugueses chamaram de Brasil, o Brasil não existiria. Existiriam talvez mais Guianas ou uma série de países com outras gentes que não que não o Brasil e os brasileirosNão consigo perceber esse tipo de raciocínio, parece-me infantil em demasia; soa-me como se afirmasse: gostaria que o meu pai fosse o Rokeffeler…se o meu pai fosse Rokeffeler eu não existiria, existiria outra pessoaNão concorda?

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