“Nunca tivemos nada assim no Brasil”

Três meninas sentadas no passeio do cemitério. Têm os olhos vermelhos de chorar. Acabaram de assistir ao enterro das colegas. “Eu estava na sala ao lado”, conta Helizabella, 14 anos, sardas e rabo-de-cavalo. “Quando começaram os tiros a gente ficou desesperada. O professor Luciano disse: ‘Abaixa! Abaixa!’, para a gente deitar no chão. E ficou encostado na porta. Depois, saiu, nos trancou por dentro para o atirador não entrar e desceu para chamar a polícia. Foi um verdadeiro herói. Aí quando a polícia chegou arrombou a porta.”
A turma saiu correndo, gritando, descendo para a rua. Há vídeos na Internet.
“Eu conhecia todos os que morreram, todos, todos”, diz Helizabella. A gente já estudou juntos, alguns já repetiram…” Este é o cemitério Jardim da Saudade, onde cinco crianças vão ficar sepultadas.
Por aqui passaram esta manhã o prefeito Eduardo Paes, o secretário estadual de Segurança José Mariano Beltrame, os chefes da Polícia Civil e da Polícia Militar, e muitas centenas, talvez milhares de pessoas.
As crianças mortas são já 12 (10 meninas e dois meninos). Vários feridos, alguns em estado grave continuam no hospital, pelo que é possível que o número de mortos suba.
Na manhã de quinta-feira, ao entrar com dois revólveres na escola Tasso da Silveira, bairro de Realengo, periferia do Rio de Janeiro, o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, 24 anos, visou sobretudo as meninas, atirando à cabeça e ao tórax.
O corpo do assassino, que segundo a polícia se matou com um tiro na cabeça depois de ter sido baleado, ainda não foi reclamado pela família.

O referendo das armas

Do Jardim da Saudade as três meninas ainda hão-de ir para o cemitério de Murundu, onde outros funerais estão a acontecer.
Wellington não só tinha dois revólveres como muita munição. A polícia recolheu 60 balas deflagradas e 100 não deflagradas. “Tem que proibir as armas, com certeza”, diz Helizabella. Fora isso, ela só quer “pedir paz e agradecer a Deus e ao professor Luciano”.
Em 2005, o Brasil votou um referendo que propunha a proibição de comércio de armas e munição para civis. Praticamente dois terços dos eleitores (63,9 por cento) rejeitaram a proposta. Mas agora, desde o massacre, o tema está de novo em debate, nos blogues, nas redes sociais e entre as autoridades. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, defendeu a retomada das campanhas de desarmamento.
O grito de Ágata e Ana Paula é outro. Elas estão na subida do cemitério, com t-shirts que dizem “Luiza, Saudade Eterna”. Família e amigos juntaram-se para fazer 50 t-shirts ontem, e estão todos aqui em volta, com o nome e o rosto da morta ao peito.
Ágata e Ana Paula são primas de Luiza, uma de sangue, outra de facto, e o protesto delas não é contra as armas, é contra a falta de segurança. “O Barack Obama veio cá e tinha até atirador de elite, mas na escola não tem nada!”, diz Ana Paula. “A gente está sem segurança. Já não confiamos em ninguém. A nossa segurança é Deus!”
Continuando a subir, há grupos de estudantes e família com painéis lembrando outra morta, Karine. Mais adiante, no meio do relvado, colinas verdes ao fundo, está a ser enterrado Rafael. Família e amigos também estão com uma t-shirt a dizer Rafael, e o rosto dele. Um cartaz protesta contra a falta de segurança. Helicópteros da polícia zunem lá no alto. Andam a lançar pétalas sobre as campas do massacre.

O horror inédito

Entre a multidão, anónima, está Benedita da Silva, ex-ministra de Lula e ex-governadora do Rio, actualmente deputada em Brasília. As câmaras estão longe dela, ou ela longe das câmaras, uma lágrima a escorrer pela cara, negra toda vestida de branco, óculos escuros, assistindo ao enterro de Rafael, sob um sol ardente.
“O Brasil perdeu uma oportunidade de desarmar o povo quando fizemos o plebiscito”, diz, acompanhada por uma assessora muito discreta, quando a cerimónia termina. “Eu considero que esta foi uma das maiores tragédias do Brasil. Claro que uma pessoa que estudou na escola, que mora ali do lado, vai ter mais facilidade de entrar. Vai ler na cara dessa pessoa o que ela está planejando? Nós nunca vivemos uma situação dessas. Eu estava em Brasília, e quando vi o que tinha acontecido me senti… [recomeça a chorar] Fazer o quê diante disso?”
Não é um problema social. “Temo-nos preocupado com a questão das drogas na escola, isso sabemos que existe, mas aqui estamos vendo um filme de terror. Acho que nem os pais dele poderiam imaginar. E a gente veio no anonimato, chorar com os que choram. Esse é o nosso papel. Eu sou uma cidadã e nunca tivemos nada assim no Brasil, em nenhuma escola de rico ou de pobre. Isso é inédito e espero que seja único.”
Porque é que o plebiscito das armas falhou? “Muita pressão. Interesses em jogo, dos que vendem e dos que compram armas. Então não foi possível ganharmos. Nós [governo Lula] tínhamos a certeza de que ganharíamos. Vivíamos falando: ‘As pessoas têm de se desarmar.’ Como é que damos para um civil todas as condições de comprar uma arma na esquina?”
Por umas dezenas ou centenas de reais.
Realengo pode mudar isto. “Infelizmente com essa tragédia esperemos que algumas pessoas possam pensar que determinadas decisões são nossas. Mas esse momento não é para apontar culpados. Foi uma tragédia inimaginável.”
Benedita encontrava-se na cerimónia em que Dilma Rousseff foi apanhada pela notícia. “Ela estava muito consternada.” A presidente brasileira chegou a ponderar assistir aos velórios, mas enviou a sua ministra dos Direitos Humanos. Benedita veio ontem à noite e hoje já esteve no hospital e noutro cemitério.
“Tivemos a chacina da Candelária [em 1993, quando seis crianças e dois jovens foram mortos por polícias] e encontrámos quem e porquê”, lembra ela, saindo do cemitério. “Tivemos a chacina de Vigário Geral [1993, quando 21 moradores dessa favela foram mortos pela polícia] e sabemos quem e porquê. Mas essa chacina? Nem os próprios colegas dele poderiam imaginar. Um psicopata. Esteve ali pensando e escolheu um momento em que todos estivessem na sala de aula.”
À porta da escola, foram deixadas flores e velas.

(Público, 9-4-2011)

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