Os intocáveis no centro do Rio

1. Imagino as grandes cidades abandonadas como o centro do Rio de Janeiro num sábado à tarde. Portas e janelas que ninguém abre há décadas. Paredes cegas porque ninguém lá mora. E cá fora, entre a poeira e o lixo, os intocáveis.
No Brasil há aqueles que são intocáveis porque ninguém lhes pode tocar e há aqueles que são intocáveis porque ninguém lhes quer tocar.
Acontece em muitos países, claro, mas eu estou no Brasil, o Brasil vê-se como a quinta economia do mundo em breve e o Rio de Janeiro vê-se como a cidade mais bela do mundo, o que aliás não tem discussão.
Então, do ponto de vista do centro ao fim-de-semana, a cidade mais bela do mundo é uma cidade de intocáveis. Aqueles em que ninguém quer tocar.
— Não quer chamar um táxi para não sair andando? — perguntaram-me sábado passado numa galeria de arte sobre o velho Largo de São Francisco, quatro portas-janelas abertas de par em par, num esforço de atrair gente ao centro.
Eram umas cinco e meia da tarde, claríssimo ainda, mas à volta, em frente e em baixo estava tudo fechado. E a céu aberto, os intocáveis com os seus cartões, os seus plásticos, as suas peles duras e escuras.
Desci as escadas e saí andando, a caminho da Praça Tiradentes.
Nem um par, nem uma mãe com os filhos, nem um trabalhador em horas extra. Apenas aqueles que não andam a caminho de nada. Vagueiam, dormem ou estão só de olhos abertos, com o espanto de quem não é deste mundo.
Eu era a única pessoa a caminho.

2. Durante a semana eles também existem, entre as igrejas e os palácios oitocentistas, as fachadas “art déco” e os vitrais, em pleno centro histórico do Rio de Janeiro, mas o movimento da cidade torna-os invisíveis. Há demasiadas coisas a acontecer na cabeça de quem anda rápido, ou gostava de andar. A avenida Rio Branco está entupida, ou então é a Presidente Vargas porque o número de carros explodiu, o metro é curto e os autocarros não chegam. Os “motoboys” fazem razias entre o trânsito e os peões que saem para o intervalo do almoço. Comem-se pastéizinhos em calçadas partidas e cheias de pó, onde à noite se hão-de estender corpos.
Para algo mais nostálgico, podemo-nos sentar na esquina da Sete de Setembro, como em tempos o antropólogo Darcy Ribeiro, e cá está uma placa a lembrar a luta dele: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras. Tentei salvar os índios. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente, mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”
Quem lê isto?
E se ler em que pensa?
Hoje Darcy Ribeiro veria outro país, o Brasil desenvolvido autonomamente, mas entre as curvas ascendentes dos gráficos não deixaria de ver, mesmo em frente a esta confeitaria, o mundo paralelo dos que não vão a lado algum, nem à praia quanto mais às Olimpíadas.
E então, um rapaz com um bebé ao colo entraria, atraído pelo biscoito que alguém deixou no pratinho do café:
— Posso levar?
Mau café, e caro, num país de café.

3. — Como é que as pessoas vivem aqui? — pergunta-me um amigo em visita. Há anos que anda vai-não-vai para viver aqui, mas entretanto os preços estão dez vezes mais altos.
A pergunta dele é retórica. O que ele quer dizer é:
— Não sei como é que as pessoas têm dinheiro para viver aqui.
Eu também não.
Não sei quem aluga apartamentos banais por dois mil euros. Não sei quem come em restaurantes a cem euros por cabeça. Não sei quem lota os aeroportos com malas que custam 10 salários mínimos. Não sei quem compra iPhones, iPads ou mesmo livros muito mais caros que na Europa.
Ou antes, sei. É a minoria hidratada que sobe e desce as escadas dos “shoppings”, esta imensa minoria que a nova maioria brasileira aspira a ser, às prestações. São eles que fazem os preços. O tecto é deles.

4. A águia de ouro brilha ao cimo do Theatro Municipal. Obama esteve para discursar aqui, na praça a que todos chamam Cinelândia, mas depois falou dentro do teatro. Uma das coisas que disse foi que o Brasil já não era o país do futuro porque passou a ser o país do presente, e isso, tal como a beleza do Rio de Janeiro, não tem discussão.
A imensa minoria que lota voos para Paris ou Nova Iorque não trocava o Rio por nada. Não vê os intocáveis porque eles estão ali desde sempre, ou quando vê acredita que eles estão a ser resolvidos, ou então pensa que a vida é mesmo assim. E há até quem se entretenha com os escritos espirituosos dos brasileiros que vão ao Terceiro Mundo confirmar como o Terceiro Mundo é um atraso de vida.
No Brasil-país-do-presente, os intocáveis podem despertar com o brilho da águia restaurada, enquanto a imensa minoria contorna as grades em volta do teatro para chegar à bilheteira provisória, nas traseiras.
Aí, os bilhetes para o concerto de Keith Jarrett, no próximo dia 9, oscilavam entre 120 reais (galeria) e 400 reais (plateia), ou seja, entre 51 e 171 euros. Digo oscilavam porque quando comprei o meu, lá para os confins, já quase não havia bilhetes.

(Público, 1-4-2011)

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