Um lanche no Centro

A águia do Theatro Municipal brilha ao sol. Se não chover vai brilhar para Obama. Esta é a praça em que o presidente americano previu falar ao povo no Rio de Janeiro, amanhã à tarde. O palco ia ser montado ao ar livre, até que a Casa Branca mudou de ideias e crê-se que Obama deverá discursar dentro do próprio Theatro Municipal. Oficialmente, a praça chama-se Praça Floriano, mas toda a gente lhe chama Cinelândia.
“Nos anos 20, um investidor quis fazer aqui uma espécie de Broadway carioca e hoje quase todos os cinemas estão fechados”, diz o arquitecto Roberto Anderson, de costas para o teatro, de frente para a praça. Estamos no Centro histórico da cidade, tema a que Roberto dedicou uma tese de mestrado, depois publicada em livro: “A Requalificação do Centro do Rio”.
Lá ao fundo, no canto direito da praça, um cinema resiste, o Odeon, com o filme “Bruna Surfistinha”, saga de uma prostituta carioca, o “hit” do momento. A meio da praça, o Pathé agora é uma Igreja Universal do Reino de Deus, nada que não aconteça em Lisboa. “E havia o Cine-Metro, na Rua do Passeio. E o Cine-Palácio. E mais adiante o Cine-Vitória…”
Ponto da situação geográfica. “Essa aqui ao lado é a avenida Rio Branco, que foi aberta rasgando o antigo tecido colonial”, diz Roberto, voltando-se para a esquerda. “Até ao início do século XX, o Rio era uma cidade colonial, com ruas estreitas e telhado de telha. Mas havia sido esvaziado, porque a maioria das classes altas tinha-se mudado para São Cristovão, seguindo D. João VI. E depois mudaram-se para a Glória e para o Flamengo [já início da Zona Sul], pela atracção do mar, da natureza, as características do Romantismo.” Mas claro que nesse tempo não se tomava banho de mar. “O oponente de Dom Casmurro [no célebre romance de Machado de Assis] era considerado uma pessoa de hábitos estranhos porque morava no Flamengo e tomava banho de mar.”
Então, com a saída dos abastados, atrás do rei e depois para a Zona Sul, “a decadência do Centro já vem do século XIX”.
Até que no começo do século XX, acabada a monarquia, o Rio “passa por uma série de reformas para se adaptar à sua condição de capital da república”. Uma dessas reformas foi a abertura da avenida Central, hoje chamada Rio Branco. “Ligava o porto à Zona Sul.”
E em torno da avenida, pelos anos 10, surge tudo isto: o Theatro Nacional, ao lado a Escola de Belas Artes, à esquerda a Biblioteca Nacional. Os cinemas chegam uma década depois.
“Quando se abriu a avenida, a ideia era diferenciar da cidade acanhada, então os melhores prédios foram construídos aqui. Era uma avenida muito bonita, com os principais jornais, os principais bancos, concurso de fachadas.” A inspiração era toda francesa, “belle époque”. “Vinha-se tomar chá à Confeitaria Colombo, ali atrás…”
Lá iremos.
A inspiração francesa manteve-se pelo modernismo, com o impacto de Le Corbusier. “Mas a partir da década de 50 a influência é americana, arranha-céus, automóveis…”
Quando largamos o Theatro Municipal, Roberto, que participou no restauro, conta como todo o dourado que agora fulge se tinha perdido.

O metro na fonte

Caminhamos em direcção ao Largo do Carioca. “O rio Carioca nasce em Santa Teresa e como havia falta de água foi transportado pelo aqueduto dos Arcos da Lapa para chegar até uma fonte neste largo, onde as pessoas depois lavavam a roupa.” Estamos a falar do século XVIII. Agora há vendedores ambulantes, aqui chamados camelôs, rodeados por uma grade que quebra toda a leitura da praça. Tomado pela maior estação de metro na cidade, o Largo do Carioca é uma praça confusa, onde se misturam o convento de Santo António e arranha-céus dos primórdios.
“Nos anos 80, havia uma grande comunidade de camelôs aqui. O prefeito dizia que aqui era o Vietname carioca, porque havia muito assalto. Então resolveram gradear e entregar para um banco.” Roberto aponta o edifício do banco, no outro lado da praça e ri da perplexidade da repórter. “Isso é o Brasil. O banco adoptou a praça. A prefeitura não conseguia cuidar e entregou.”
Sigamos, com as duas igrejas adjuntas ao convento agora à nossa esquerda. “Na de São Francisco da Ordem Terceira da Penitência tem um Cristo alado…”
Pobres sentados nos degraus de um relógio-estátua de 1909. Olivia Newton John e John Travolta a cantarem “You’re the One That I Want” na coluna de som do quiosque A Princesinha Carioca. Homens lançando pássaros de plástico a ver se alguém compra. Calçada esburacada, cheiro de pó.
Continuamos pela rua Gonçalves Dias, “uma das últimas do centro que tem o desenho dos anos 70, sem distinção entre calçada e passeio”. Pedonal e esburacada.
Sim, o Centro do Rio tem todas as marcas do que decaiu. Mas está a recuperar há vários anos. “A recuperação começa nos anos 90, com o projecto Corredor Cultural, que abrangia as zonas da Lapa, Saara e Praça XV”, explica Roberto.
A Lapa é o velho bairro boémio. O Saara é uma quadrícula de ruas onde comerciantes árabes e judeus fizeram vida, e que hoje fervilha de comércio barato. A Praça XV é a do Paço, onde a família real portuguesa começou por viver quando chegou ao Brasil, fugida das invasões francesas, em 1808.
O que o projecto Corredor Cultural queria era preservar os edifícios, muitos já abandonados. “Então começou um processo de convencer os donos que só precisavam de recuperar.”
A história vai no começo mas vamos ser interrompidos pela História. Porque agora que chegámos à entrada da formidável Confeitaria Colombo, espécie de Café Majestic do Rio, uma formidável matulona de luva branca, sombrinha, chapéu e vestido setecentista de seda amarela apresenta-se: “Eu sou Maria Doroteia, a ‘Marília de Dirceu’. Você é de Portugal? Então mande um Dirceu bom para mim!”
Explicando: na segunda metade do século XVIII, Tomás Antônio de Gonzaga, nascido em Miragaia mas a viver no Brasil desde bebé, ganhou fama como um dos revoltosos do movimento mineiro Inconfidentes, contra o poder colonial. Era poeta, e o seu poema mais célebre chama-se “Marília de Dirceu”, escrito para a sua amada Maria Doroteia.
Ei-la aqui reencarnada, mas sem o seu Dirceu.
“Ele juntou-se a Tiradentes na primeira rebelião contra os portugueses”, conta ela. E quem é ela??? “Sou carioca mas moro em Vila Rica…” Roberto ri-se. “Vila Rica era o nome antigo de Ouro Preto.” E tem mesmo toda essa altura, de olharmos para cima? “1.90 sem salto!”, replica Maria, de imediato.
“Por enquanto….”, acrescenta ladino um ancião que se fixou em tão insólito trio à porta da Colombo. “Porque ela continua crescendo…”
E, com perdão da pergunta, podemos saber quantos anos tem esta dama? “Ponha 54, mas eu tenho 49. Digo que tenho mais que é para dizerem que não pareço.” Certo. E aqui no Rio mora onde? “Nas Laranjeiras. No Rio só ando em lugares desses.” Antigos. “Não vou para a Barra da Tijuca…” Mas sai sempre assim vestida? “Visto-me assim há seis anos. Tenho 90 vestidos destes. E visto sete anáguas [saias brancas], ceroulas, espartilho… Eu faço homenagem aos Inconfidentes.” Uma espécie de instalação-viva. “É minha dívida de gratidão, porque nós respiramos aqui uma liberdade que eles nos proporcionaram, e faço esse trabalho de reverência pelo Brasil todo.”
Tem aliás uma pasta de recortes com os textos que já saíram na imprensa sobre ela.
Quando perguntamos que fazia antes, a resposta é esmagadora: “Sou bailarina e farmacêutica bioquímica.”

Até à praça Tiradentes

A Colombo está cheia de gente ao balcão, a escolher doces reluzentes, e sentada, a lanchar. Portanto, prosseguimos pela rua Sete de Setembro, porque ali adiante está já a encantadora Casa Cavé, com espelhos, mármores e e as placas dos frequentadores que fizeram história, como o escritor Mário de Andrade ou o antropólogo Darcy Ribeiro.
E com dois doces na mesa, Roberto retoma a história do regresso ao Centro. “Criaram-se incentivos fiscas para as obras, e isso foi levando à recuperação dos edifícios. É uma recuperação paulatina e constante. Os prédios estão sempre sendo recuperados.” O que é preferível a operações instantâneas e gerais. “Em Salvador da Bahia recuperou-se todo o Largo do Pelourinho de uma única vez e ficou tudo meio cenarizado.”
Mas além da recuperação dos edifícios privados, o responsável pelo projecto Corredor cultural, Augusto Ivan, “atraiu muitos recursos, o governo federal criou o Centro Cultural do Banco do Brasil e transformou o Paço num museu”, descreve Roberto.
A Praça XV, a do Paço, “era muito degradada e ninguém lá queria ter comércio”. O que dominava era um mercado de peixe. O governo “aproveitou uma epidemia de cólera no começo dos 90 para tirar o mercado, e investiu lá”.
E só nos anos 90 foi levantada uma incrível proibição, que ajuda a explicar como é que o Centro, até hoje, não é habitado. “Nos anos 60, a lei proibiu construir habitação no Centro, porque o urbanista modernista acreditava na separação entre funções. Agora há um esforço de incentivar a habitação, mas ainda assim pouco.” O que há para já é uma recuperação comercial, económica do centro. “Hoje vêem-se lojas de produtos caros, que tinham desaparecido. A classe média não vinha para aqui. Essa rua era só ambulantes, nem se passava. Isto de estarmos numa confeitaria é uma novidade.” Voltou a ser uma novidade.
Se agora voltarmos à esquerda na rua Ramalho Ortigão, e depois à direita na Rua da Carioca, vamos encontrar velhos bares como o Luiz — “o melhor chopp da cidade”, apregoam eles — que se chamava Adolfo mas na II Guerra teve de mudar. Ou o belo Cine-Iris, que hoje passa fimes porno, ao lado do qual o grande compositor de samba Cartola e a mulher tiveram um restaurante. E assim vamos dar à Praça Tiradentes, que tem nome de revoltoso mas não deixa de ter o cavalo de D. Pedro I. “O Tiradentes foi enforcado [pelo regime colonial] aqui perto, e então na época da República, quando se procuravam heróis nacionais, a praça ganhou o nome de Tiradentes.”
Mas ao fundo, do lado direito, vislumbra-se já o Real Gabinete Portuguez de Leitura, insuspeita maravilha que só vendo por dentro.

(Público 19-3-2011)

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